Nos últimos anos, a procura por janelas mais eficientes tem sido crescente, mas, para continuar a dar resposta, importa pensar e planear o futuro. O presidente da direcção da Associação Nacional dos Fabricantes de Janelas Eficientes (ANFAJE), João Ferreira Gomes, partilhou com a Edifícios e Energia  as expectativas do sector para o novo ano. Se, por um lado, os programas e incentivos à eficiência energética representam uma oportunidade “única”, por outro, o aumento dos custos das matérias-primas, as disrupções nas cadeias de abastecimento e a escassez de mão-de-obra qualificada assumem-se como grandes desafios do futuro imediato.  

Como avalia o comportamento do mercado da renovação energética em Portugal no último ano, em particular no que se refere ao vosso sector? 

Apesar dos constrangimentos relacionados com a pandemia de Covid-19, o ano de 2021 foi muito positivo para o sector das janelas, portas e fachadas no que diz respeito à substituição de janelas antigas por novas janelas eficientes.

João Gomes Anfaje

O sector vinha numa boa fase de recuperação económica desde 2019, impulsionada pela forte dinâmica da reabilitação urbana e do investimento imobiliário, tendo-se prolongado essa tendência de crescimento durante os anos de 2020 e 2021. Com os confinamentos e as situações de teletrabalho, houve uma maior tomada de consciência da necessidade de se fazerem obras de melhoria do conforto térmico e acústico das casas. 

Perante o que se anuncia para este ano, o mercado da renovação energética continuará a ser bastante estimulado pelas políticas e pelos programas europeus (Pacto Ecológico Europeu) e nacionais (Plano de Recuperação e Resiliência). 

Qual é a leitura que a ANFAJE faz dos programas e incentivos à eficiência energética e de combate à pobreza energética? Qual tem sido o impacto no sector?  

Na opinião da ANFAJE, os programas e incentivos à melhoria de conforto e eficiência energética são muito positivos: permitem continuar a garantir as condições de recuperação económica das empresas do sector, sendo possível a manutenção e a criação de novos empregos, ao mesmo tempo que se estimula a instalação de novas janelas com padrões de eficiência energética cada vez mais exigentes. Com isso, assistimos à possibilidade de melhorar as condições de habitabilidade de milhares de fogos, o conforto e a qualidade de vida dos seus habitantes. Os programas em curso, Edifícios Mais Sustentáveis e Vale Eficiência, com as dotações existentes, são uma oportunidade única para Portugal, que deve ser optimizada o mais possível.  

No que diz respeito à questão da pobreza energética, há muito que a ANFAJE tem vindo a defender, junto das entidades públicas, a necessidade de reforço das exigências legais e regulamentares para aumentar a qualidade da construção em Portugal. Considerando as péssimas condições de habitabilidade dos edifícios portugueses  estima-se que sejam cerca de 3,5 milhões de fogos [nestas condições] –, é necessário definir e executar programas e medidas ambiciosos e eficazes que permitam a todos os portugueses o acesso aos incentivos às obras de melhoria e a uma eficiente reabilitação energética. 

Os fundos e apoios são suficientes para as necessidades existentes ou para, pelo menos, dar resposta à procura no mercado? Que outras medidas poderiam fazer sentido? 

O PRR prevê uma dotação de 610 milhões de euros para aumentar a eficiência energética dos edifícios e existem outras fontes de financiamento para as medidas de investimento económico e social para o período de 2021-2029, como o Portugal 2030 ou o Quadro Financeiro Plurianual. Assim, a ANFAJE considera que as verbas disponibilizadas são uma oportunidade única, nunca existente, para dar uma resposta adequada às necessidades dos portugueses. 

No entanto, as necessidades de reabilitação também são muitas e profundas e, no que diz respeito ao combate à pobreza energética, provavelmente, serão necessárias medidas complementares. Para a ANFAJE, estas deveriam considerar a possibilidade de existir um mix entre apoios directos a fundo perdido com programas de financiamento com diversas modalidades (sob a forma de subvenção, reembolsável num determinado período, empréstimos a taxas de juro próximas de 0 %, através do Banco do Fomento). Pensamos ainda que podiam existir condições de aplicação de benefícios fiscais a quem com os meios financeiros procede a obras de melhoria das suas habitações. 

Além disso, a ANFAJE defende que é indispensável existirem campanhas de informação a todos os portugueses, comunicando de forma clara os programas e as medidas existentes. Neste âmbito, defende ainda que haja uma campanha de comunicação a envolver as associações e as empresas dos sectores, bem como um call center devidamente dimensionado para apoio técnico no esclarecimento de questões. 

“(…) Esperamos que esta situação de aumentos dos custos dos materiais de construção, e, neste caso das janelas eficientes, não signifique uma redução da procura por parte dos portugueses.”

Na altura em que vivemos, ainda afectada pela situação pandémica, alguns sectores têm sido confrontados com disrupções em cadeias de abastecimento. Isto tem sido um problema? 

Sim, as disrupções nas cadeias de abastecimento começaram a afectar o sector das janelas, portas e fachadas durante o ano de 2021, provocando escassez e falhas na entrega de matérias-primas essenciais, significando atrasos na produção. Assistimos igualmente ao aumento permanente do custo das principais matérias-primas (perfis de caixilharia, vidros, ferragens e selantes), indispensáveis na produção e instalação de novas janelas eficientes. Neste quadro, esperamos que esta situação de aumentos dos custos dos materiais de construção, e, neste caso das janelas eficientes, não signifique uma redução da procura por parte dos portugueses. 

Perspectivando o futuro, quais são as principais oportunidades para o sector? 

As principais oportunidades imediatas do sector advêm da execução dos programas e medidas inscritas no PRR, bem como das políticas europeias relacionadas com a Renovation Wave, as quais fazem da reabilitação urbana e da promoção da eficiência energética dos edifícios apostas fortes e claras para a recuperação económica e para o combate às alterações climáticas 

Tendo em conta que um dos componentes indispensáveis para obter melhores condições de conforto e eficiência energética são as janelas, as empresas do sector contam com um futuro bastante positivo para a manutenção e o crescimento da sua actividade. Os programas e as medidas públicas de incentivo à instalação de novas janelas eficientes, ao estimularem a procura por produtos com elevado desempenho energético (classes A+), permitem assegurar o lançamento de produtos inovadores no mercado português.  

E os desafios? 

Os principais desafios do nosso sector estão relacionados com a falta de mão-de-obra qualificada e requalificada nas diversas áreas do negócio, sobretudo ao nível dos instaladores, e com os constrangimentos relacionados pela escassez e disrupção nas cadeias de abastecimento das principais matérias-primas. 

A falta de mão-de-obra, conjuntamente com a falta de qualificações, tem sido uma das enormes preocupações do nosso sector, afectando negativamente a capacidade de resposta das empresas face à crescente procura. Por isso, a ANFAJE conta com a possibilidade de criar, nos próximos anos e em conjunto com as entidades públicas, programas de formação que permitam qualificar e requalificar milhares de trabalhadores. 

Temos ainda os desafios relacionados com a possibilidade de obter maiores ganhos de produtividade com a introdução das oportunidades que surgem com a Economia 4.0: a digitalização, a robotização e a automatização.   

Houve uma actualização recente dos regulamentos nacionais para os edifícios e, em Dezembro, a Comissão Europeia apresentou uma nova EPBD. Como encaram estas alterações legislativas e qual o impacto no futuro do sector? 

A ANFAJE acompanhou e participou, por diversas vezes, nos trabalhos desenvolvidos para a actualização da legislação nacional e para a revisão da EPBD e do Regulamento dos Produtos de Construção, através da confederação europeia EuroWindoor. Consideramos que as recentes alterações são muito positivas para o nosso sector, permitindo valorizar ainda mais o contributo das janelas no desempenho energético dos edifícios. 

No caso de Portugal, apesar de não terem existido alterações significativas nos requisitos técnicos relativos aos vãos envidraçados, as empresas do sector são desafiadas a manter o lançamento de novos produtos e serviços que permitam continuar a dar resposta às exigências da nova legislação em matéria de desempenho térmico e eficiência energética (Decreto n.º 101-D/2020) e que transpõe a EPBD, sublinhando ainda a importância de produtos que dêem uma resposta às exigências dos edifícios NZEB. Contamos, assim, que as alterações à legislação nacional acompanhem o aumento das obrigações e exigências da nova EPBD, para um aumento da qualidade da envolvente construtiva dos edifícios, melhorando o conforto e a eficiência energética dos edifícios portugueses.