Começamos mais um ano e, como de costume, se quisermos fazer um balanço do ano anterior ou antever o que se vai passar a partir deste mĂŞs, nada Ă© igual. Todos os anos, as nossas expectativas sĂŁo diferentes. Olhamos para trás e, nesta mesma altura, nĂŁo imaginávamos que 2017 seria um ano tĂŁo positivo em vários domĂnios. Já vĂnhamos embalados, mas ainda carregados de muito pessimismo. NĂŁo era para menos, mas os resultados superaram-nos. A fasquia era baixa, sim, e a conjuntura deu uma forte ajuda, tambĂ©m. Fartos de recessĂŁo, com um Governo optimista, um paĂs que deve ter ganho todos os prĂ©mios que havia para ganhar e um turismo que rebentou por todos os lados foram algumas coisas boas. Baixámos o dĂ©fice, as exportações aumentaram na ordem dos 4 % e devemos fechar o ano com um crescimento econĂłmico a rondar os 3 % em relação ao ano anterior. Nos edifĂcios e segundo dados do INE de Dezembro, no terceiro trimestre de 2017, os edifĂcios licenciados aumentaram 6,7 % face ao perĂodo homĂłlogo, correspondendo a 4,5 mil edifĂcios. Nos edifĂcios licenciados para construções novas, registou-se um acrĂ©scimo de 14,7 %. No entanto e quanto ao licenciamento para reabilitação registou-se uma diminuição de 5,4 %. Ainda há muito para reabilitar e esse problema poderá vir sĂł mais tarde.
A economia está viva e a criar emprego, como apregoa o Executivo (eu diria trabalho). Estes dados ajudam-nos a olhar com satisfação para a frente. Sem quereremos ser pessimistas, neste inĂcio de ano, existem algumas reflexões e cautelas que sĂŁo necessárias. Desde logo, mais alguns dados: as importações subiram o triplo das exportações, ou seja, continuamos a gastar aquilo que nĂŁo temos, agravado pelo nĂvel de endividamento no crĂ©dito Ă habitação que está a voltar a valores proibidos. O Governo já cumpriu quase todas as medidas que anunciou e “aprovou” com os partidos que o apoiam. Eram 1100 e a taxa de execução está nos 80 %. O que Ă© que isto quer dizer? Que ainda falta metade da legislatura e podemos ter dois problemas: precisamos de mais medidas e de uma estratĂ©gia para os prĂłximos anos. E da boa vontade dos partidos da esquerda daqui para a frente.
É bom que o Governo se concentre na dinamização da economia. Nesta altura em que tudo corre bem, é uma tentação ficar quieto em cima do pódio e deixar a economia a andar sem incomodar o BE ou o PCP. É também uma tentação ficarmos deslumbrados com o cadeirão do Eurogrupo, a achar que estamos a gerir alguma coisa na Europa. Sucede que os confrontos cá em Portugal vão existir inevitavelmente. Seja pelos camarões que se pagam com dinheiro do Instituto da Segurança Social, seja pelas horas que o ministro das Finanças está em Bruxelas e não no Terreiro do Paço. O estado de graça de António Costa já terminou e, na Europa, já sabemos quem manda e quem fica calado.
Iniciamos 2018 com a sensação de que estamos presos com pinças e de que nada Ă© sĂłlido ou robusto. O paĂs, a economia, o investimento, a engenharia, a arquitectura, as intervenções que se tĂŞm feito nos edifĂcios… Todos tĂŞm em comum uma palavra: fragilidade.
Uma Ăşltima reflexĂŁo: as taxas de juro vĂŁo subir, mesmo que nĂŁo se saiba quando. E, nessa altura, a classe mĂ©dia vai abanar. Este crescimento nĂŁo Ă© estrutural se olharmos para o endividamento do paĂs. Estado, famĂlias e empresas continuam a aumentar o seu endividamento em relação ao exterior de forma galopante. É aqui que precisamos de mĂŁo forte. Inverter esta tendĂŞncia passa por ter coragem e fazer as reformas necessárias na Administração PĂşblica, criar estratĂ©gias para aumentar o investimento e olhar para as cidades e para a habitação. NĂŁo há casas para arrendar e os preços de compra estĂŁo totalmente desajustados Ă s nossas possibilidades. Como sempre, a classe mĂ©dia Ă© a principal vĂtima.
Iniciamos 2018 com a sensação de que estamos presos com pinças e de que nada Ă© sĂłlido ou robusto. O paĂs, a economia, o investimento, a engenharia, a arquitectura, as intervenções que se tĂŞm feito nos edifĂcios… Todos tĂŞm em comum uma palavra: fragilidade. 2017 foi um ano bom, mas de uma enorme fragilidade. NĂŁo Ă© uma boa sensação para iniciar o ano mas será que poderia ser outra? Uma coisa Ă© certa: estamos melhor hoje do que estávamos a esta mesma hora há um ano. E isso, todos sabemos. E isso Ă© uma coisa boa.
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