Do lado das coisas públicas, há uma preguiça colectiva que, ao longo dos anos, nos tem deixado politicamente cristalizados em ideias que hoje não têm qualquer aderência com aquilo que queremos ou precisamos. A nós, e a uma grande parte dos europeus. Esta é, pelo menos, a ideia que se instalou e que foi sendo interiorizada. Mas será mesmo assim? Não haverá uma nova vida a acontecer? Uma nova vida que nos começa a inspirar e a fazer ambicionar um mundo melhor? Há uma nova geração que ignora completamente ou quase completamente a política como ela existe. Aquilo que verdadeiramente interessa não será o bem-estar, a harmonia, o ambiente e muitas outras causas, sobretudo, sociais, inclusivas e sustentáveis?
 
Fora das nossas fronteiras, as eleições europeias deitaram cá para fora este ímpeto. Fizeram barulho, muito barulho e, cá dentro, há quem ainda não o queira ouvir. Veja-se o caso da Alemanha, onde os Verdes chegam aos 25 % do eleitorado. Fora das nossas fronteiras, as eleições europeias foram um bom exemplo de cidadania activa. Várias coisas aconteceram. Ficámos a saber que aquelas ideias de que a Europa já não tinha espaço e de que as pessoas já não têm causas, afinal, não são verdade. Veja-se o fracasso do Brexit ou a onda Verde que invadiu a Europa dominada apenas por uma agenda ambientalista. E foram os países ditos “mais evoluídos” que não hesitaram em aderir e liderar. Para além da Alemanha, a França, a Finlândia ou a Dinamarca já são bases fortes para uma nova política que esperamos se torne madura rapidamente. E essa é a grande lição que se tira destas eleições. As pessoas estão fartas de um sistema político e económico viciado que provocou grande parte da crise que passámos há muito pouco tempo. As pessoas e, sobretudo, os jovens estão a organizar-se e a querer sair da agenda política e financeira dominante. Nada disto tem a ver com cores ou partidos, mas sim com uma consciência e cidadania que estavam adormecidas e que são transversais a todas as ideologias políticas. Não são de esquerda, nem de direita e não há quem as rejeite. As causas ambientais, a sustentabilidade e as renováveis em particular estão a ganhar uma voz maior.

 As pessoas estão fartas de um sistema político e económico viciado que provocou grande parte da crise que passámos há muito pouco tempo. As pessoas e, sobretudo, os jovens estão a organizar-se e a querer sair da agenda política e financeira dominante. Nada disto tem a ver com cores ou partidos, mas sim com uma consciência e cidadania que estavam adormecidas e que são transversais a todas as ideologias políticas.

Somos inundados por soundbites com cimeiras sobre o clima, mas há aspectos estruturais que temos de resolver. Precisamos de eliminar os interesses económicos que bloqueiam estas questões. Que bloqueiam o crescimento das renováveis como ponto de partida para tudo o resto em matéria de energia. E é por isso que o relatório Mundial sobre o empenho político (ou falta dele) para as causas da sustentabilidade não podia ser mais oportuno.

De acordo com o Global Status Renewables 2019 da REN21, “a inércia em políticas de energia sustentável é responsável pela falta de progresso no alcance das Metas de Clima e Desenvolvimento” definidas pela ONU. E porquê? Talvez por algumas razões que poucos conhecemos: segundo este relatório, 26 % de toda a energia eléctrica mundial já é proveniente de fontes renováveis. Destes 26 %, apenas 10 % correspondem ao aquecimento/arrefecimento. Uma tendência exponencial, não fosse esbarrar com “as políticas erráticas e pouco ambiciosas” quanto à descarbonização; segundo este relatório, as peças regulatórias não são suficientes para criar condições favoráveis e competitivas ao sector renovável.

Passados tantos anos, o progresso é mínimo ou manifestamente insuficiente, tendo em conta aquilo que poderia existir. “É difícil exagerar na urgência” – fica-nos do discurso dramático de Guterres, no final do ano passado. Passados seis meses, o secretário-geral da ONU é capa da Time, onde grita este tema dentro de água. Do que estamos à espera?! 

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