Gerar conhecimento nas áreas da energia e geologia com vista à “construção de um futuro mais limpo e melhor” faz parte da missão do LNEG – Laboratório Nacional de Energia e Geologia. Perante um sector energético em mudança, a entidade tem trabalhado para colocar “à disposição” dos vários agentes e decisores ferramentas que permitam escolher as melhores soluções para responder ao desígnio da descarbonização. Neste processo, alerta Teresa Ponce de Leão, presidente do LNEG, não há uma única resposta certa, já que “este novo mundo da energia é um mundo de sistemas integrados e de mix de soluções”. 

Este é um momento crucial no que toca à transição energética. Qual considera ser o maior desafio que temos pela frente? 

O maior desafio é, sem dúvida, termos uma transição energética que vá ao encontro das metas estipuladas para a descarbonização em 2050 e sermos capazes de o fazer tendo recuperação económica, face ao momento que estamos a passar. Para isso, precisamos de encontrar mecanismos que permitam essa descarbonização de forma muito rigorosa e contabilizando, passo a passo, todos os projectos em que nos envolvemos. 

Qual tem sido o papel do LNEG nesse caminho? 

O LNEG reorganizou-se no final de 2019 com vista à descarbonização e, mais concretamente, a partir do momento em que entramos em pandemia e que se começou a falar do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). Fizemos uma reflexão interna e reorganizámo-nos para tentarmos ser mais eficazes na resposta que era necessária. Temos competências na área da Energia, Eficiência Energética e Energias Renováveis, quer na vertente tecnológica de aplicação dos recursos, quer na vertente de conhecimento dos próprios recursos.

Na área da Geologia, somos o serviço geológico nacional e também temos competências que concorrem para a Energia, como o conhecimento dos critical raw materials necessários para o desenvolvimento de projectos tecnológicos nessa área, do subsolo e das suas características para permitir identificar a viabilidade de projectos de armazenamento – em particular, quando se começou a falar do hidrogénio –, e também na geotermia, nomeadamente a de baixa entalpia para aquecimento e arrefecimento das habitações. Igualmente, temos tido projectos muito interessantes e colaboramos quer com o sector industrial, quer em projectos de investigação em regime de financiamento competitivo na área dos Edifícios, fundamentalmente para garantir que as melhores práticas para o que agora se fala [que são] os novos edifícios, os NZEB, mas também – e mais importante – para a reabilitação de edifícios e para contribuir para reduzir a pobreza energética.  

A eficiência energética nos edifícios é algo que está agora na agenda política e para o qual há verbas avultadas previstas no PRR, uma estratégia nacional de longo prazo para a renovação energética aprovada e outra de combate à pobreza energética a ser ultimada. O LNEG tem participado no trabalho feito para estas acções? 

O LNEG deu contributos para as peças legislativas; uns foram contemplados, outros não. Vai, agora, ter um papel importante contribuindo, com os seus recursos humanos, para a avaliação dos projectos que vêm aí, à medida que forem lançados os avisos, e, aí, vai aplicar os conhecimentos que tem de eficiência energética, melhores práticas nos edifícios. Temos o Edifício Solar XXI, que é um bom exemplo de um NZEB. Porém, nem todos podem ser NZEB, porque, quando falamos de reabilitação, temos de olhar para as características especificas de cada edifício. Grande parte do parque edificado tem grandes problemas ao nível da envolvente. Por coincidência, se actuarmos nesse nível, de forma correcta e com modelos construtivos adequados, é [onde está] a maior fonte de ganhos térmicos – é o que garante que precisamos de menos aquecimento no interior e de menos arrefecimento, pois estamos isolados do exterior e a ponte térmica é mais pequena.   

Considera que aquilo que está previsto ao nível da eficiência energética dos edifícios e, em particular, para a renovação energética é suficiente para suprir as necessidades? 

Este é um processo longo – penso que a própria Comissão Europeia disse isso. Com o PRR e as verbas que aí vêm, vamos começar a actuar ao nível dos edifícios e, muito provavelmente, perceber se estamos no bom caminho. Devemos ser capazes, em todos os projectos em que estamos envolvidos, de perceber e definir o objectivo que queremos atingir, se a forma como estamos a actuar vai no sentido desse objectivo e corrigir trajectórias, se necessário. Portanto, [há que] monitorizar e avaliar o que vai acontecendo. Esta primeira fase de projectos, que é num período muito curto, até 2026, vai-nos preparar para o futuro, porque o edificado urbano não vai ficar todo tratado [neste espaço de tempo], mas vai seguramente dar-nos conhecimento para que possamos continuar as medidas a partir de 2026. 

Vemos hoje também um grande interesse nas comunidades de energia renovável (CER). A descentralização da produção é o modelo seguir? 

No futuro, vamos necessitar de duas formas de energia: a descentralizada, que, sempre que fizer sentido, é a preferível, mas também a centralizada. Este novo mundo da energia é um mundo de sistemas integrados e de mix de soluções. No médio prazo, teremos sempre centrais centralizadas – por exemplo, temos uma grande central fotovoltaica no Alentejo – e também soluções descentralizadas, ao nível das habitações, condomínios e das CER. Penso que as CER, cuja legislação, mesmo a nível europeu, precisa de ser acompanhada e melhorada, vão ser uma grande solução para combater a pobreza energética. Se as pessoas começarem a perceber que com pequenos investimentos, nas suas possibilidades, podem ser parte de uma comunidade mais abrangente e de uma CER, isso é uma forma de colocar determinado conjunto populacional a trabalhar para o mesmo fim e virá a acelerar a procura por esses projectos através das CER. E, ao mesmo tempo, temos também de combater a iliteracia energética. Mas é preciso melhorar: não podemos dizer que a nossa legislação está bem ou mal; foi o que fizemos e seguramente com todo o empenho e muito bem para o estado presente, mas também é uma legislação que vai ter de evoluir.  

Quais são as fragilidades? 

O que se tem identificado na Comissão Europeia é que ainda não é muito fácil para as pessoas com menos literacia energética e menos possibilidades participarem neste tipo de projectos. Este processo necessita de um outro empenho mais ao nível da comunicação, da disseminação e de ir junto das populações. Não estou a colocar nenhuma fragilidade na nossa legislação, mas no facto de que todos estes processos são dinâmicos e que vão precisar de evoluir, sendo que cientistas, investidores, fornecedores de tecnologias vão aprendendo. E assim melhoram-se os processos e acelera-se a transição energética. Vai ser, seguramente, um processo exponencial. 

 Até porque, neste novo contexto, temos um consumidor que participa de outra forma, é também produtor. 

Exactamente, e essa entrada não se faz de um momento para o outro. Não se vai conseguir que alguém que nunca ouviu falar disto, de repente, esteja com muita apetência para entrar numa CER. Isto tem de se ir ensinando, disseminando, discutindo com as populações, aos níveis regional e local, e atraindo as pessoas, fazendo-as ver que têm vantagens em participar nesse processo.  

“Todos os processos que concorrem para a flexibilidade do sistema para garantir que há uma maior penetração de renováveis são, sem dúvida, muito importantes. O hidrogénio é a peça do puzzle que faltava para que consigamos acelerar a descarbonização do nosso sistema de energia pelo facto de ter capacidade de armazenamento (…).”

Há actualmente um grande enfoque no hidrogénio. Como o LNEG integrou o tema? 

Quando a Agência Internacional de Energia começou a falar da importância do hidrogénio para garantir a flexibilidade do sistema e algum armazenamento mais fácil do que o armazenamento a partir de electrões, das baterias eléctricas – sendo o hidrogénio um gás constituído por moléculas, é mais fácil de armazenar –, olhámos para as nossas competências internas e formámos um grupo de trabalho transversal para identificar de que forma é que podíamos agregar todas essas competências, quer da bioenergia, quer dos materiais, quer da nova unidade que criámos de avaliação económica de recursos. Juntando tudo isso, criámos um grupo multidisciplinar que tem tido muito resultado, nomeadamente a partir de contratos com empresas que querem investir em projectos de hidrogénio.

O LNEG, por natureza, conhece os recursos naturais. Fomos, aliás, responsáveis pelo mapeamento do Atlas eólico sustentável para Portugal, do Atlas dos recursos solares do Sul do país, entre outros. Aproveitando os conhecimentos de cartografia georreferenciada e de gestão de informação georreferenciada do nosso geoportal, que vem da geologia, decidimos, em conjunto com as entidades nacionais que concorrem para os projectos de hidrogénio, seja de licenciamento, seja de gestão do território ou ambiental, desenvolver o projecto do Atlas do hidrogénio para Portugal. É o mais emergente.

Mas não descuramos também a parte da electricidade. Na vertente das baterias eléctricas, iniciámos muito recentemente um consórcio de um projecto mobilizador nesta área em que as nossas competências principais vão para a aplicação de novos materiais e para os centros de reciclagem de baterias e reutilização de baterias.  

Acredita que o hidrogénio será um game changer

Participei recentemente numa discussão sobre isso com peritos internacionais e chegámos a um consenso: todos os processos que concorrem para a flexibilidade do sistema para garantir que há uma maior penetração de renováveis são, sem dúvida, muito importantes. O hidrogénio é a peça do puzzle que faltava para que consigamos acelerar a descarbonização do nosso sistema de energia pelo facto de ter capacidade de armazenamento, sendo passível de ser armazenado quer nas condutas de hidrogénio, quer nos postos de abastecimento ou mesmo em tanques ou em armazenamento geológico – e daí ter referido a cartografia geológica.

Mas o hidrogénio tem uma outra vantagem muito importante: a possibilidade de descarbonizar sectores que, até agora, eram considerados muito específicos para descarbonizar, como a aviação, os transportes marítimos e a indústria pesada. Quanto ao transporte pesado, este poderá ser ou não o game changer, já temos visto que há desenvolvimentos ao nível das baterias para os transportes pesados, mas uma coisa é certa: qualquer destes projectos só terá sucesso se for devidamente avaliado ex ante.  Isto é, sabermos para onde queremos ir e que indicadores queremos identificar e [estes] serem permanentemente monitorizados numa perspectiva de garantir que aquela será a solução ideal para aquele problema concreto.

No sistema de energia, vamos ter problemas regionais, de cidades; umas soluções serão mais globais, outras serão desenhadas para problemas concretos e é essa inteligência que temos de emprestar aos nossos projectos, garantindo sempre que estamos a ir no bom sentido. Outra questão muito importante é que o financiamento, seja público, seja privado, também seja responsável e orientado por indicadores de sustentabilidade. Quando se colocam a financiamento, os projectos devem ter [definidos], à partida, os objectivos que querem atingir e as entidades financiadoras devem ser capazes de os monitorizar e avaliar no bom sentido.  

No acesso aos fundos comunitários, os requisitos não são já rígidos nesse sentido? 

São. Deixou de ser possível ter financiamento, por exemplo, para projectos a gás. Uma coisa curiosa é que, há 10-12 anos, falava-se da era da idade dourada do gás, e, de repente, com toda a evolução tecnológica que ocorreu, a percepção que foi possível ter com a pandemia, a redução enorme de consumos, e uma vez que as renováveis têm prioridade de entrada no sistema, foi possível verificar que era possível gerir o sistema com uma forte penetração de renováveis. Toda a mentalidade, quer dos cientistas, quer dos políticos, começou a modificar-se e daí também essa emergência muito recente do hidrogénio. Foi resultado de uma conjuntura favorável nesse sentido.  

Não corremos o risco de estar demasiado focados numa única solução e isso levar-nos a desinvestir em tecnologias que poderiam fazer sentido no nosso contexto? Veja-se, por exemplo, o que aconteceu com solar térmico, que tem sido pouco visado. 

Esse é um dos problemas e que tem sido objecto de discussão. Nós temos de olhar para as soluções todas. O solar térmico é uma solução importante que deve ser considerada porque pode resolver problemas, incluindo também de armazenamento, e vir a representar soluções mais promissoras ou sustentáveis – isto é, que são melhores para o ambiente, para a sociedade e melhores economicamente. Todos esses projectos têm de ser avaliados tendo em conta a evolução do sistema, dos consumos, mas numa perspectiva muito dinâmica.

Veja-se o que aconteceu com a dispersão: com a pandemia, vimos que as pessoas podem facilmente trabalhar, muitas vezes melhor, remotamente. Isso poderá ter um impacto muito importante na distribuição populacional e está em linha com a possibilidade de atrair gente jovem, alguns deles seguramente com instrução muito elevada, para outras regiões [de baixa densidade]. É uma oportunidade para desenvolver os territórios, povoá-los de forma harmonizada e retirar aquela pressão de que todos ouvimos falar e que aponta que, em 2050, mais de 75 % população mundial estaria a viver em cidades e no litoral.  

Por esse motivo, precisamos de que o sistema energético seja dinâmico? 

Exactamente. Temos de olhar para a dinâmica das circunstâncias e olhar para as soluções de abastecimento local, a partir das energias locais. Por exemplo, na região do Alentejo, onde há muitas suiniculturas, aproveitar o metano libertado pelas suiniculturas, que são tão poluentes, para produzir energia para os locais, reduzindo simultaneamente as emissões e facilitando o abastecimento energético.  

Para escolher a melhor solução, é preciso olhar para as características e recursos de um território? 

Sim. Se olharmos para o que a Europa propõe no Pacto Ecológico Europeu, temos um gráfico, no qual há uma grande caixa exterior que representa a eficiência energética – é a nossa primeira preocupação, a de não consumir, são os negajoules. Dentro dessa caixa grande, temos outra mais pequena, que é a electrificação do sistema, e dentro desta, outra ainda mais pequena que é referente aos gases renováveis, que devem ser aproveitados para resolver os problemas que a electrificação não resolve.

Discute-se muito o porquê de produzir hidrogénio para produzir energia eléctrica, uma vez que é um processo muito pouco eficiente – claro que sim, só é justificável quando há necessidades de armazenamento para dar flexibilidade ao sistema que permitam que essas perdas em eficiência sejam compensadas nos ganhos do bom funcionamento do sistema, de forma menos poluente e mais económica. Não nos esqueçamos de que temos agora a taxa de carbono, que está sempre a ser revista em alta, e a tendência é a de continuar a subir. A unir estas caixas, temos a digitalização, que também vai permitir ganhos de eficiência.   

Tendo em conta as competências e o conhecimento que o LNEG tem, podemos esperar que esta entidade tenha algum papel em assegurar que são escolhidas as melhores soluções ou projectos? 

Nós trabalhamos para isso mesmo, para pôr à disposição, quer do sector industrial e do processo produtivo, quer do Governo, as ferramentas que permitem avaliar os projectos numa óptica de ciclo de vida. Quando estamos a construir uma central fotovoltaica, nós já temos emissões poluentes na construção dos painéis e também nos devemos preocupar sobre onde é que foram construídos, como e com que energia. Tudo isso tem de ser visto em toda a cadeia de valor do projecto e até ao final do seu ciclo de vida. Conhecendo a tecnologia e como a aplicar, temos também forma de avaliar os diferentes projectos, garantindo que eles são optimizados, e de dar a informação de que os projectos vão no bom sentido para a sociedade, criando mais emprego, menos poluição, menos impacto visual – que nem sempre é possível –, menos custos e menos emissões. 

Para este novo modelo, independentemente da tecnologia, a digitalização é muito importante. O que está previsto no LNEG nesse tema? 

Nós temos competências tecnológicas, não temos competências digitais. Mas, para que os processos tenham sucesso, não precisamos de ter todos as mesmas competências, temos é de saber fazer boas parcerias, trabalhar em processos colaborativos, fazer bons consórcios. O LNEG não precisa de ir, agora, procurar ter competências internas na área da digitalização, [mas] tem de saber unir-se a quem tem essas competências e transferir o seu conhecimento ao nível da energia – esse, sim, temo-lo com muitas valias – e partilhá-lo com quem tem o conhecimento na área digital, por sua vez, com muitas valias. Todo este conhecimento em conjunto terá seguramente projectos integrados e articulados. A palavra-chave muito importante neste processo que temos à frente é integração – integração do conhecimento e dos sistemas.