Artigo publicado originalmente na edição 163 (Janeiro/Fevereiro de 2026) da Edifícios e Energia.
Como é notório estamos a assistir a um grande momento de prosperidade do sector da construção em Portugal, que não se via desde a crise do subprime em 2008 e que reduziu as cerca de 21 grandes empresas de construção em Portugal para a actual meia dúzia. Uma realidade que resultou no afastamento dos quadros técnicos de produção. Os antigos “Mestres” grandes sabedores do fazer desapareceram por completo das empresas, criando um enorme vazio na formação contínua dos profissionais.
Em simultâneo, a engenharia de construção perdeu atractividade junto dos jovens engenheiros portugueses, levando muitos a optar por áreas consideradas mais dinâmicas e apelativas, como as tecnologias de informação.
A formação e o ensino nas áreas das especialidades técnicas do sector da construção sempre assumiram um papel central no desenvolvimento sustentável, na eficiência energética e na qualidade do ambiente construído em Portugal. Estas áreas são determinantes para a sustentabilidade do planeta, conforto térmico, harmonia no ambiente visual, saúde pública, redução do consumo energético e para o cumprimento das metas ambientais nacionais e europeias.
No entanto, o sector enfrenta uma escassez crescente de quadros técnicos qualificados, com impactos significativos na capacidade de resposta do mercado, na qualidade das construções e na competitividade da economia.
Historicamente, o ensino da engenharia em Portugal privilegiou uma formação de base generalista, muitas vezes excessivamente teórica, deixando as especialidades técnicas ligadas aos edifícios numa posição precária e secundária.
Embora existam cursos de engenharia mecânica, electrotécnica e civil que abordam parcialmente estas matérias, a formação específica em AVAC (aquecimento, ventilação e ar condicionado), luminotecnia e sistemas energéticos é frequentemente limitada, dispersa ou opcional. Esta realidade conduz a um desfasamento entre o perfil dos diplomados e as necessidades reais do mercado de trabalho com impacto directo nas empresas esmagadas financeira e economicamente pelo Código de Contratação Pública.
No caso do ar condicionado e ventilação, a complexidade crescente dos sistemas, a integração com a automação, os requisitos de eficiência energética e as exigências regulamentares (como o SCE e os regulamentos europeus) obrigam à existência de técnicos altamente especializados. Contudo, o número de engenheiros e técnicos intermédios com formação sólida nesta área é insuficiente.
Situação semelhante ocorre na área das águas quentes sanitárias (AQS), onde o correto dimensionamento, a eficiência energética, a integração com energias renováveis e a prevenção de riscos sanitários, como a Legionella, requerem competências específicas que nem sempre são devidamente ensinadas.
Entretanto, o decreto que regula os sistemas prediais de distribuição de água está em vigor desde Agosto de 1995 (DR 23/95).
A luminotecnia, por sua vez, continua a ser uma das áreas mais negligenciadas na formação em engenharia, apesar do seu impacto directo no consumo energético e no bem-estar dos utilizadores e na produtividade. A evolução tecnológica, com a generalização da iluminação LED, dos sistemas inteligentes e do controlo dinâmico da luz, aumentou a necessidade de profissionais com conhecimentos técnicos, normativos e de projecto, que o sistema de ensino ainda não consegue fornecer em número suficiente.
Adicionalmente, a diversa legislação de licenciamento urbano remete este importante estudo para fases do projecto que vão além do tempo desejável.
A falta de quadros técnicos qualificados tem consequências claras no mercado: atrasos em projectos, erros de conceção e execução, aumento de custos, dificuldade no cumprimento da legislação e menor capacidade de inovação. As empresas do sector da construção, da engenharia e da manutenção enfrentam dificuldades em recrutar profissionais preparados, enquanto muitos jovens engenheiros sentem dificuldades em integrar-se rapidamente no mercado, optando pela emigração ou outras tecnologias de engenharia, abandonando o sector da construção por falta de motivação e no qual os salários são menos atractivos.
Do lado do Estado, apesar de existirem iniciativas pontuais ligadas à eficiência energética, à transição climática e à requalificação profissional, continua a faltar uma estratégia integrada para o reforço da formação técnica nestas especialidades. O ensino profissional e tecnológico ainda sofre de falta de valorização social, com recursos limitados, fraca articulação com o ensino superior e com o tecido empresarial. Além disso, a regulamentação e as exigências legais aumentam, sem que exista um investimento proporcional na capacitação dos profissionais responsáveis pela sua aplicação.
Face ao exposto, torna-se fundamental implementar um conjunto de medidas estruturais:
1. Reforço da formação especializada nos cursos de engenharia, com unidades curriculares obrigatórias em AVAC, luminotecnia e AQS, incluindo forte componente prática e laboratorial, motivação e interesse nas novas ferramentas de modelação da informação.
2. Criação de cursos de especialização e pós-graduações focados nestas áreas técnicas, em articulação com ordens profissionais, associações do sector e empresas.
3. Valorização do ensino profissional e dos técnicos intermédios, fundamentais para a execução, instalação e manutenção dos sistemas.
4. Maior ligação entre universidades, politécnicos e empresas, promovendo estágios, projectos reais e formação dual.
5. Apoio governamental à requalificação profissional, através de incentivos à formação contínua e certificação técnica ou de acesso fácil a outras infraestruturas académicas existentes na ADENE a custos baixos.
6. Campanhas de valorização das engenharias da construção junto dos jovens, destacando as oportunidades de carreira e o seu papel na sustentabilidade.
7. Formação contínua dos técnicos do SCE a baixo custo através da Academia ADENE.
Só através de uma aposta clara e concertada na formação técnica e na valorização dos profissionais será possível responder às necessidades do mercado, melhorar a qualidade do edificado e cumprir os desafios energéticos e ambientais que Portugal enfrenta.
As conclusões expressas são da responsabilidade dos autores.
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