A indústria dos equipamentos de AVAC&R – metas e desafios

Artigo publicado originalmente na edição de Maio/Junho de 2025 da Edifícios e Energia.

Sobre esta temática e recorrendo ao muito que já se tem dito e escrito pelas diversas partes interessadas, que no fundo são os diversos agentes económicos e instituições do setor em apreço, proponho-me também complementarmente a expor as minhas reflexões!

Atualmente, a indústria de equipamentos de aquecimento, ar condicionado, bombas de calor e solar defrontam-se com a imposição de importantes metas e relevantes desafios. A indústria de AVAC&R (Aquecimento, Refrigeração, Ventilação e Ar Condicionado & Refrigeração) está a passar por uma transformação significativa e a tentar adaptar-se rapidamente às exigências normativas comunitárias, visando reduzir emissões e aumentar a eficiência energética.

A indústria está em franco crescimento e a procura futura adivinha-se muito promissora. A Agência Internacional de Energia (AIE) prevê que o número de sistemas AVAC em todo o planeta aumente dos cerca de dois mil milhões atuais para mais de seis mil milhões em 2050. Muitos desses sistemas serão instalados em novos edifícios residenciais multifamiliares de grande escala e em empreendimentos de utilização mista, à medida que as pessoas começam a trabalhar mais em casa e/ou a uma curta distância das suas habituais residências. Muitos edifícios poderão ligar-se a grandes centrais de aquecimento e arrefecimento urbano, se disponíveis, e a instalações de armazenamento de energia.

Além disso, o Global Status Report das Nações Unidas estima que cerca de 2,5 mil milhões de metros quadrados de edifícios existentes — a maioria com mais de 20 anos — terão de ser renovados. Os projetos de edifícios existentes requerem ainda mais pessoas envolvidas nesse trabalho do que a construção de novos edifícios. A renovação é um trabalho complicado e por vezes muito difícil de concretizar. Temos de conceber e renovar estes edifícios para que sejam saudáveis, energeticamente eficientes e neutros em termos de carbono. Consequentemente, precisamos de uma força de trabalho alargada, mais diversificada e com competências nas tecnologias mais recentes.

Vejamos sucintamente quais as exigências e tendências para o setor anteriormente referido, enumerando algumas das principais questões-chave com que o setor se irá deparar:

1. REGULAMENTAÇÕES MAIS RIGOROSAS

A Comissão Europeia tem vindo a impor regulamentos como o novo Regulamento F-Gas, que visa reduzir o impacte ambiental dos gases fluorados utilizados em sistemas de refrigeração e climatização. Este novo regulamento originou grandes transformações legislativas e regulamentares que, num processo de evolução sistémica, levará a indústria de AVAC&R para patamares de eficiência energética ainda mais elevados, níveis de classificação e etiquetagem superiores, face ao respeito pelas exigências ambientais e ecológicas em vigor e que não deixarão de ser atualizadas através de uma permanente e contínua reavaliação.

2. TECNOLOGIAS INOVADORAS

O recurso a tecnologias de menor impacte ambiental vem incrementar a utilização de bombas de calor, acabando por favorecer a eletrificação. Também se explora, em alternativa, a utilização de gases renováveis, nomeadamente o hidrogénio.

Constata-se haver uma crescente procura com o foco em bombas de calor como uma solução mais eficiente e ecológica para aquecimento e arrefecimento. Apesar de representarem um investimento inicial elevado, ou mesmo muito elevado, estas tecnologias estão a ganhar popularidade devido à sua eficiência energética e impacto neutro em carbono.

Neste momento, existe forte pressão do setor para que os decisores políticos se comprometam inequivocamente com as tecnologias das bombas de calor, criando condições económicas favoráveis para a solução de climatização considerada a mais limpa que existe. As bombas de calor constituem um forte argumento para que Portugal continue a apostar numa estratégia baseada em fontes de energia renovável rumo a uma economia neutra em carbono.

Reconhecendo a imperativa necessidade de existência de departamentos de Investigação & Desenvolvimento (I&D), alguns dos fabricantes de equipamentos mais conceituados, que se apresentam no mercado internacional e que paralelamente se estendem ao mercado nacional, avisadamente dispõem de departamentos próprios, de modo a garantir a confiabilidade técnica dos seus equipamentos. Eventualmente, se não dispuserem desses departamentos, certamente que procurarão outros similares disponíveis no mercado, contratando, para o efeito, Laboratórios especializados credenciados, Institutos ou Universidades. Em prol da seriedade de processos, é fundamental que esses procedimentos sejam seguidos!

3. DIGITALIZAÇÃO E AUTOMAÇÃO

Também não podemos ignorar os avanços que se têm feito sentir com a digitalização que está a permitir o controlo remoto e a monitorização dos sistemas AVAC&R, tornando-os mais inteligentes e adaptáveis às necessidades dos utilizadores, favorecendo a economia de energia e evitando desperdícios energéticos.

As novas tecnologias, ao englobarem sistemas inteligentes de gestão de energia, dispositivos de Internet das Coisas (IoT), sensores, análise de dados e inteligência artificial (IA), nunca se revelaram tão cruciais. As digitalizações começam a estar presentes nos edifícios para responder aos desafios de descarbonização e transição digital. Existe assim uma maior exigência técnica e de interoperabilidade entre sistemas técnicos e instalações, o que traz uma maior necessidade de preparação e colaboração entre todos os intervenientes associados e as demais entidades presentes nos edifícios. Um exemplo disso são os designados SACE, que atualmente começam a tornar-se indispensáveis, mesmo nos edifícios de menor dimensão.

4. TENDÊNCIAS QUE VÃO MOLDAR O SETOR AVAC&R NOS PRÓXIMOS ANOS

Permitimo-nos sintetizar algumas opiniões sobre o tema recolhidas junto dos vários fabricantes:

Eletrificação e bombas de calor – a transição energética está a acelerar a adoção de sistemas de alta eficiência como bombas de calor. Esses sistemas oferecem alta eficiência energética e uma redução significativa das emissões de carbono;

Integração das energias renováveis – os sistemas de climatização são cada vez mais projetados e direcionados de modo a integrarem-se com fontes de energia renováveis, nomeadamente energia solar térmica ou fotovoltaica. Sistemas híbridos que combinam bombas de calor com painéis solares ou soluções de armazenamento que permitem maximizar a eficiência energética e reduzir a dependência da rede;

Sistemas inteligentes, ligados e gémeos digitais – a Internet das Coisas (IoT), estando a revolucionar o setor AVAC&R com sistemas inteligentes e conectados que monitorizam e otimizam o desempenho em tempo real. Esses sistemas, em alguns casos, já incluem recurso a IA ou machine learning para prever necessidades de manutenção, reduzir o consumo de energia e, simultaneamente, melhorar o conforto dos ocupantes dos edifícios, garantindo a conformidade com os padrões de sustentabilidade. Por outro lado, com os gémeos digitais, podemos simular o comportamento do sistema em ambientes virtuais, e por essa via, otimizar o uso de energia e prever falhas, minimizando o tempo de inatividade e estendendo a vida útil do equipamento;

Indicador de Prontidão Inteligente para edifícios – a revisão de 2018 da Diretiva Europeia relativa ao Desempenho Energético dos Edifícios (EPBD) visa promover ainda mais as tecnologias de edifícios inteligentes, em particular através da criação de um Indicador de Prontidão Inteligente para edifícios (SRI, na sua sigla em inglês). Este indicador permitirá classificar o grau de preparação inteligente dos edifícios, ou seja, a capacidade dos edifícios (ou unidades de edifícios) para adaptar o seu funcionamento às necessidades dos ocupantes, otimizando também a eficiência energética e o desempenho global, e para adaptar o seu funcionamento em reação a sinais da rede (flexibilidade energética). O Indicador de Prontidão Inteligente deve sensibilizar os proprietários e ocupantes dos edifícios para o valor subjacente à automatização dos edifícios e à monitorização eletrónica dos sistemas técnicos dos edifícios e deve dar confiança aos ocupantes quanto às poupanças efetivas dessas novas funcionalidades melhoradas;

Neutralidade do Carbono e Fluidos Frigorigéneos Verdes – a indústria está muito focada em soluções neutras em carbono, adotando fluidos frigorigéneos com baixo potencial de aquecimento global (GWP) ou mesmo, fluidos naturais como CO e propano;

Melhorias na recuperação, eficiência energética e foco na qualidade do ar interior – os sistemas de ventilação de recuperação de energia (ERV) começam a ganhar popularidade ao permitir melhorar a qualidade do ar interior, minimizando a perda de energia. A adaptação dos sistemas AVAC existentes com componentes e controlos de elevada eficiência é também uma tendência e um passo crítico na redução do consumo de energia em edifícios mais antigos. Por outro lado, a pandemia levou à consciencialização e desenvolvimento de tecnologias avançadas de filtragem, ventilação e purificação do ar. Muitos sistemas AVAC integram agora sensores e ferramentas de monitorização em tempo real para garantir ambientes interiores mais saudáveis sem sacrificar a eficiência energética;

Sistemas descentralizados e modulares – sistemas AVAC descentralizados, incluindo bombas de calor modulares, permitem responder à crescente procura por soluções flexíveis e escaláveis. Esses sistemas melhoram a redundância e a distribuição de energia, reduzindo os custos operacionais.

5. IMPACTO DAS ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS

As mudanças climáticas estão a influenciar o desempenho dos sistemas AVAC&R, exigindo soluções mais resilientes e adaptadas a cenários climáticos extremos. Este tema tem sido debatido persistentemente em fóruns internacionais desde a segunda metade do século passado, onde se tem procurado refletir sobre qual o papel que os engenheiros podem ter na mitigação e ajuda à sociedade na adaptação às alterações climáticas.

Somos tentados a reconhecer que estas preocupações, nos dias de hoje, não merecem, provável e infelizmente, especial atenção devido aos conturbados momentos que atravessamos e correspondente impacto dos múltiplos fatores que perigosamente se combinam – pandemia, guerra na Europa, dirigentes governamentais retrógrados e consultores influenciadores negacionistas, escassez energética e o aumento galopante dos preços do gás e petróleo -, formando, no seu conjunto, um cocktail explosivo.

Temos sido testemunhas de tragédias indescritíveis que vão durando sem fim à vista. Também se reconhece que a humanidade tem sido capaz de ultrapassar as enormes dificuldades e sobreviver às várias tragédias, explorando para tal todos os recursos ao seu dispor e saberes acumulados ou em franco desenvolvimento.

Muitos cientistas e engenheiros, legisladores e políticos a nível mundial têm estado envolvidos na busca de respostas e chegarão certamente a conclusões sensatas.

6. SUSTENTABILIDADE E CONFORTO

Além da eficiência energética, há cada vez mais uma maior preocupação com o conforto térmico e a qualidade do ar interior, impulsionando o desenvolvimento de sistemas mais avançados.

O setor das instalações térmicas e de conforto está a passar por uma frenética etapa de transformação e mudanças, devido à revolução energética em curso e às regulamentações publicadas sempre em forte crescendo e cada vez mais revelando uma maior exigência.

Se bem que a pandemia promoveu uma maior consciência em torno da qualidade do ar nos espaços interiores, com uma procura de soluções para proporcionar ambientes mais saudáveis, os objetivos da descarbonização promovem, por sua vez, o uso de tecnologias de menor impacte ambiental, como a bomba de calor, que favorece a eletrificação, e os gases renováveis, como o biogás e hidrogénio. Também não podemos esquecer, conforme anteriormente referido, os avanços que têm ocorrido na digitalização, que favorecem a poupança de energia dos equipamentos e evitam desperdícios obviamente desnecessários.

7. O PAPEL DA COMISSÃO EUROPEIA

O seu papel passa por sustentar os objetivos e em sequência, através de instrumentos financeiros, apoiar a sua implementação, pois seria muito difícil considerar um modelo de autogestão.

Existe uma pressão sobre os mercados, abrangendo principalmente os fabricantes para se reduzir tudo o que tem impacto ecológico. Nesse sentido, a Comissão Europeia despoletou tudo o que acima é referido – descarbonização e a mudança para fluidos com GWP com zero impacto no ambiente e obviamente a melhoria da eficiência energética. Pelo que, sem dúvida, a Comissão tem e terá um grande impacto no setor. Esta é a convicção também dos responsáveis das grandes marcas presentes em Portugal, reconhecendo que os impactos serão sentidos inicialmente nas tecnologias aplicadas nos produtos, no entanto, e desta vez, com maiores implicações a nível de projeto, mas principalmente também a nível dos serviços de manutenção e assistência técnica. Recorde-se de que o Plano de Ação para Bombas de Calor irá conter recomendações e orientações sobre a forma de incentivar a adoção de bombas de calor sustentáveis para cumprir os objetivos da Lei Indústria de Impacto Zero. Na mesma linha de preocupações se refere que a Comissão Europeia (CE) estabeleceu políticas e diretivas abrangentes para promover a eficiência energética e reduzir as emissões de carbono no setor AVAC, nomeadamente com a Diretiva de Desempenho Energético dos Edifícios (EPBD), que determina que todos os novos edifícios devem ter energia quase zero até 2020, enfatizando a integração de fontes de energia renováveis e sistemas de AVAC de alta eficiência.

Por outro lado, convém referir que também a Diretiva Ecodesign contém exigências que estabelecem requisitos ecológicos obrigatórios para produtos relacionados com a energia, incluindo sistemas AVAC, para garantir que cumprem normas específicas de eficiência energética e ambientais. A Diretiva Ecodesign é, pois, uma ferramenta poderosa para impulsionar a indústria para uma maior eficiência energética e sustentabilidade.

Também convém destacar o impacto da Diretiva relativa às Energias Renováveis, na qual a CE adotou novas regras, incentivando a utilização de fontes de energia renováveis em sistemas AVAC.

Mais se refere que a 31 de outubro de 2023 foi publicada no Jornal Oficial da União Europeia (JOUE) a Diretiva (UE) 2023/2413 do Parlamento Europeu e do Conselho da União Europeia, de 18 de outubro de 2023, que altera, nomeadamente, a Diretiva (UE) 2018/2001 (Diretiva RED III) no que respeita à promoção da energia proveniente de fontes renováveis.

A Diretiva RED III aumenta o compromisso dos Estados-Membros em aumentar a quota do consumo final bruto de energia proveniente de fontes renováveis de 32% para 42,5% até 2030. Para atingir este objetivo, a diretiva incorpora novos desenvolvimentos de interesse para os setores das energias renováveis e dos combustíveis renováveis de origem não biológica (RFNBO, na
sua sigla em inglês).

8. OS GRANDES DESAFIOS. O QUE SE PODE ESPERAR?

Acontece que todas estas exigências legislativas, regulamentares e normativas, inevitavelmente, obrigam os fabricantes a inovar, a acompanhar e apoiar os instaladores, parceiros imprescindíveis ao sucesso das instalações, quer de grande, quer de pequena dimensão.

Será necessário que os fabricantes, comercializadores, distribuidores e demais profissionais do setor se coloquem na linha da frente no desenvolvimento de equipamentos e soluções adequadas à defesa da qualidade do mercado.

A UE, atenta que está a toda esta temática, lançou um novo pacote de incentivos, que sabiamente denominou NextGenerationEU.

9. O IMPULSO DA NEXTGENERATIONEU

A iniciativa NextGenerationEU está a impulsionar a economia europeia e a tornar as nossas sociedades mais fortes e resilientes, produzindo resultados tangíveis para os europeus através dos seus inúmeros projetos. Trata-se do maior pacote de incentivos jamais empreendido na UE, que constitui um exemplo de referência para um novo modelo de crescimento baseado numa economia limpa, inovadora e inclusiva e na soberania digital e tecnológica:

• Ao investir nos cuidados de saúde, o NextGenerationEU contribui para uma sociedade mais justa e mais solidária, devidamente preparada para os desafios que se avizinham;

• Ao apoiar a educação e as competências, ajuda a preparar a nossa mão de obra para novas oportunidades num mundo orientado pela tecnologia;

• Ao apoiar as nossas PME e os nossos jovens empresários, também fomenta a inovação, cria empregos e estimula o crescimento futuro.

No entanto, feito o balanço, talvez o mais difícil será transformar a economia para reduzir a pegada da humanidade. Cada cidadão do nosso planeta deve necessariamente desempenhar a sua função, adotando desde iniciativas mais básicas, como combater o desperdício de alimentos e o descarte inadequado de resíduos, até ações mais complexas, como evitar o consumo excessivo de energia.

Também hoje tive um sonho… levando-me a acreditar que tudo isto poderá ser POSSÍVEL!

As conclusões expressas são da responsabilidade dos autores.

Fotografia de destaque: © Shutterstock

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