Vasco Peixoto de Freitas: “A impressão 3D está a percorrer um caminho que poderá ser um contributo para a construção de edifícios de habitação”

A inauguração, em Matosinhos, do primeiro edifício público impresso em 3D em Portugal demonstra o potencial da industrialização na construção civil, mas a tecnologia continua longe de responder plenamente às exigências de eficiência energética e conforto interior. O alerta é de Vasco Peixoto de Freitas, que aponta limitações térmicas, riscos de condensações e a necessidade de maior investigação antes da aplicação generalizada desta solução na habitação. 

Com um investimento de cerca de 800 mil euros, a infraestrutura foi desenvolvida pela Havelar no Ecocentro de Perafita e construída em apenas cinco dias através de uma impressora 3D de grande dimensão. A estrutura, com cerca de 600 metros quadrados, foi erguida sem recurso a tijolos ou telhas tradicionais, recorrendo sobretudo a betão, terra e argila. 

O edifício destina-se ao projecto Recircular, dedicado à reciclagem e reutilização de resíduos electrónicos, mobiliário, roupa e outros materiais, promovendo a economia circular e permitindo dar uma nova vida a equipamentos antes da sua entrega a famílias carenciadas e instituições do concelho. 

Além da vertente ambiental, o espaço irá também promover acções de formação dirigidas a desempregados e jovens em risco, através de workshops de costura, carpintaria e aproveitamento de desperdícios alimentares. 

O projecto de arquitectura e o acompanhamento científico ficaram a cargo da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, que irá também monitorizar o comportamento técnico do edifício impresso em 3D. 

Ouvido pela revista Edifícios e Energia, para Vasco Peixoto de Freitas, professor catedrático de Construções da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, a impressão 3D “apresenta um elevado potencial”, embora continue a colocar desafios importantes ao nível da eficiência energética e da qualidade do ambiente interior. 

Segundo o especialista, um dos principais obstáculos está relacionado com o desempenho térmico das fachadas. “Os materiais de impressão 3D, por si só, mesmo para maiores espessuras, não permitem atingir os valores exigidos”, explica, referindo que as argamassas cimentícias actualmente utilizadas apresentam uma condutibilidade térmica elevada. Por essa razão, torna-se necessária a utilização de soluções multicamada que integrem materiais de isolamento térmico capazes de garantir o cumprimento dos requisitos regulamentares. 

Vasco Peixoto de Freitas admite, contudo, que a evolução tecnológica poderá alterar este cenário no futuro. “Admito que possam ser desenvolvidos materiais com características térmicas, acústicas, de reacção ao fogo, de elevado desempenho face à água e com adequado comportamento mecânico que dispensem sistemas multicamadas”, afirma. 

Outro dos aspetos críticos prende-se com o tratamento das pontes térmicas, nomeadamente nas ligações entre painéis e caixilharias. O especialista alerta que uma má compatibilização destas soluções pode originar condensações superficiais e o desenvolvimento de bolores, comprometendo a qualidade do ambiente interior dos edifícios. 

Apesar dos desafios técnicos, Vasco Peixoto de Freitas considera que a industrialização e a inovação serão determinantes para o futuro do sector da construção. Na sua perspectiva, a impressão 3D poderá vir a desempenhar um papel relevante em futuros projectos de habitação social e reabilitação urbana, embora admita que ainda existe “um importante caminho a percorrer”. 

“A industrialização exige sistemas construtivos compatíveis, flexíveis e integrados, bem como maior detalhe e pormenorização em projecto”, refere. O especialista sublinha ainda que a pré-fabricação e os processos industrializados poderão permitir uma redução significativa dos prazos de obra, com impacto económico relevante para o sector. 

Numa primeira fase, considera, a impressão 3D poderá afirmar-se sobretudo através da pré-fabricação de componentes para posterior montagem em obra. “A impressão 3D está a percorrer um caminho na área dos edifícios que poderá, não hoje, mas no futuro, ser um contributo para a construção de edifícios de habitação. Numa primeira fase poderá passar pela pré-fabricação de componentes que serão montados em obra num sistema construtivo integrado. Há, no entanto, ainda um importante caminho a percorrer ao qual a investigação e a tecnologia terão de responder”, conclui.

Fotografia de destaque: © FEUP

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