IA está a tornar sistemas AVAC mais inteligentes ao antecipar falhas e optimizar consumos de energia

A inteligência artificial (IA) está a abrir novas possibilidades para o sector do aquecimento, ventilação e ar-condicionado (AVAC), na forma como os edifícios são climatizados e geridos. Esta tecnologia já começa a ser integrada nos sistemas de climatização para garantir uma manutenção preditiva e para adaptar os consumos às necessidades reais dos ocupantes. Este foi um dos temas em destaque no V Congresso Internacional da Giacomini, onde se discutiram também a nova directiva europeia para o desempenho energético dos edifícios, uma nova geração de bombas de calor e os desafios do sector da construção em Portugal.

Num contexto em que o sector AVAC é confrontado com a necessidade de melhorar o desempenho dos edifícios e responder a exigências energéticas cada vez mais desafiantes, antecipar falhas, ajustar o funcionamento dos equipamentos às necessidades reais dos ocupantes e optimizar os consumos energéticos são soluções trazidas pela IA que ganham relevância. 

“A inteligência artificial é o tema do momento, é certo, mas a sua aplicabilidade no sector AVAC e, mais concretamente, nos sistemas de climatização não é nova e tem, de facto, colhido resultados muito interessantes”, afirma, à Edifícios e Energia, Vasco Silva, director-geral da Giacomini Portugal.  

Uma das áreas em que esta tecnologia pode fazer a diferença é a manutenção dos equipamentos. “A nível técnico, destaco a capacidade preditiva que permite detectar atempadamente falhas nos sistemas de climatização, possibilitando diagnósticos e respostas mais precisos”, sublinha o responsável.

As oportunidades trazidas pela integração da IA nos sistemas AVAC estiveram no centro do V Congresso Internacional da Giacomini, que decorreu, a semana passada, em Mortágua. Segundo o responsável, esta foi “sem dúvida a maior edição” do encontro, que desta vez reuniu mais de duas centenas de profissionais, nomeadamente instaladores, arquitectos, engenheiros e técnicos de várias zonas do país num dia dedicado à climatização.

Com o mote “construir com inteligência”, o evento focou-se sobretudo na integração da IA nos sistemas AVAC / © Giacomini Portugal

A IA pode também contribuir para que os sistemas deixem de funcionar apenas de acordo com parâmetros predefinidos. “Além da detecção de falhas, a IA permite também antecipar as necessidades de climatização e adaptar o funcionamento dos equipamentos às condições reais de utilização”, sublinha Vasco Silva.

Esta tecnologia está a ajudar a climatização a garantir condições de conforto térmico sem desperdícios de energia e a melhorar a eficiência energética dos aparelhos, sendo estas, actualmente, duas das grandes prioridades do sector. Todavia, note-se que esta não é, por agora, uma transformação já generalizada em Portugal. “Sabemos que ainda há um longo caminho a percorrer nesta matéria, mas é algo em que acreditamos e queremos continuar a investir”, adverte Vasco Silva. 

Sistemas de gestão e controlo inteligentes

Esta tecnologia também começa a ser utilizada em sistemas de gestão e controlo inteligentes que podem permitir aos ocupantes gerir o conforto das suas casas “de forma simples e eficiente”, refere o director-geral da Giacomini Portugal. E acrescenta: “É neste caminho que já estamos inclusivamente a trabalhar e acredito que, num futuro próximo, estas soluções poderão tornar-se uma realidade cada vez mais presente no sector residencial”.

O potencial da tecnologia estende-se além da climatização propriamente dita. A gestão energética dos edifícios é outra das áreas em que a automatização e a análise de informação podem vir a ter um papel relevante, nomeadamente através da optimização dos consumos e da gestão das cargas em função dos sinais da rede eléctrica. “Tudo isto contribui, em larga medida, para o aumento da eficiência energética e redução de custos”, resume Vasco Silva.

Vasco Silva, director-geral da Giacomini Portugal, na abertura do congresso / © Giacomini Portugal

A concretização desse potencial depende, porém, da capacidade de transformar as possibilidades tecnológicas em soluções efectivamente aplicáveis. Além do desenvolvimento tecnológico, reconhece o responsável, a integração da IA nos edifícios exige que os profissionais compreendam as funcionalidades disponíveis, avaliem a adequação desta ferramenta a cada projecto e percebam de que forma podem contribuir para melhorar o desempenho dos sistemas.

Um sector em transformação

A inteligência artificial foi um dos temas centrais do congresso, mas não esgotou a discussão sobre os desafios que se colocam à construção e à climatização. Entre os assuntos abordados estiveram também a nova Directiva de Desempenho Energético dos Edifícios (EPBD) e o estado do sector da construção em Portugal.

“O sector da construção continua a crescer, tem uma rentabilidade adequada e o seu valor acrescentado bruto cresce todos os trimestres. Nesse sentido, diríamos que o sector da construção está bem. No entanto, é um mercado que está a passar por um processo de exigência de eficiência, tanto ao nível da eficiência material, física, de produtividade como ao nível da eficiência do ponto de vista da sustentabilidade. Quanto a isso, há desafios grandes”, considera, José de Matos, ex-secretário geral da Associação Portuguesa dos Comerciantes de Materiais de Construção (APCMC), um dos oradores do congresso. 

O programa incluiu ainda a apresentação de projectos arquitectónicos de referência com sistemas de climatização radiante integrados, uma reflexão sobre os materiais e a sua relação com a natureza, o papel do hidrogénio na produção de energia térmica e a nova geração de bombas de calor com refrigerante R290.

Para Vasco Silva, o valor destas discussões está precisamente na possibilidade de colocar diferentes perspectivas em contacto. “Acredito mesmo que saímos todos deste evento com mais do que trouxemos: mais conhecimento, mais informação, mais contactos e mais motivação para encararmos o futuro que se revela bastante desafiador para este sector”, afirma.

Da tecnologia à aplicação prática

Num contexto de mudança, a actualização dos conhecimentos técnicos e a capacitação dos profissionais assumem particular importância. Para Vasco Silva, iniciativas como este congresso não se tratam apenas de espaços para dar a conhecer novas soluções. “Servem também para desafiar a reflectir, a pensar e sensibilizar os profissionais para a eventual adopção de tecnologias e metodologias que possam fazer sentido e que acabem por simplificar, facilitar e optimizar muitos dos processos de trabalho”.

O desafio é particularmente pertinente num sector que, como reconhece o responsável, “não é imune às mudanças, sejam estas de ordem tecnológica, metodológica ou regulamentar”. Por isso, defende, “esta troca de visões e aprendizagens mútuas” é fundamental junto da comunidade técnica, conclui. 

Fotografia de destaque: © Shutterstock

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