Este artigo foi originalmente publicado na edição nº 161 da Edifícios e Energia (Setembro/Outubro 2025).
Numa altura em que a Europa acelera a transição energética, os Açores assumem-se como um caso único no contexto nacional no que toca à geotermia — e um exemplo relevante a nível europeu. O arquipélago tem explorado a energia geotérmica para garantir uma maior independência energética, reduzir emissões e tirar partido dos seus recursos naturais. Situado numa das regiões geológicas mais activas do planeta, o arquipélago tornou-se referência na produção eléctrica a partir do calor do subsolo.
A o contrário do território continental, não existe interligação entre os sistemas eléctricos das nove ilhas dos Açores, essencialmente pela ausência de tecnologias viáveis que o permitam. Cada ilha tem o seu próprio sistema de produção e distribuição, o que obriga à adopção de soluções energéticas adaptadas à escala e características locais. Esta realidade trouxe consigo alguns desafios técnicos e económicos, que também se transformaram em oportunidades. Abrindo espaço à inovação, a geotermia destacou-se como uma resposta de excelência.
O CONTEXTO ENERGÉTICO DOS AÇORES
As primeiras experiências e prospecções iniciaram-se na década de 70 do século passado. Desde então, o calor que o subsolo açoriano tem para oferecer ganhou força e o seu potencial tem vindo a ser cada vez mais explorado. Actualmente, contabilizam-se três centrais geotérmicas no arquipélago: a Central Geotérmica do Pico Vermelho, a da Ribeira Grande, ambas em São Miguel, e a Central Geotérmica do Pico Alto, localizada na ilha Terceira.
Em entrevista à Edifícios e Energia, Paulo André, presidente do conselho de administração da EDA Renováveis, a entidade responsável pela produção de energia eléctrica a partir de fontes renováveis nos Açores, explicou que, por enquanto, “a EDA Renováveis não tem planos para a instalação em outras ilhas, uma vez que a dimensão dos restantes sistemas eléctricos destas ilhas, que são isolados entre si, não tornam economicamente viável estes investimentos”.
A ilha de São Miguel, a maior dos Açores, é também aquela onde a geotermia tem maior expressão – em 2024, a energia geotérmica foi responsável por 35,6% da produção de electricidade na ilha. A Central Geotérmica do Pico Vermelho, actualmente, tem 11 MW (Megawatt) de potência instalada. Já a Central Geotérmica da Ribeira Grande tem 8 MW de potência instalada.
Paulo André conta que é esperado que estas potências venham a ser aumentadas em 2026: “Estamos, no momento, com projectos de ampliação nas centrais da ilha de São Miguel e esperamos, em 2026, ter um aumento de potência instalada de mais 12 MW no Pico Vermelho e mais 5 MW na Ribeira Grande”.
Já na ilha Terceira, a segunda maior ilha do arquipélago, a Central do Pico Alto tem uma potência instalada de 3 MW, correspondendo a 3,7% da produção de electricidade nesta ilha. Ainda assim, o potencial é promissor, com a EDA Renováveis a pretender expandir a potência desta central. Neste sentido, estão em curso estudos de prospecção que, explica Paulo André, ainda não foram concluídos e, por isso, ainda não são conhecidas conclusões sobre este processo.
Quanto às restantes ilhas, o cenário é mais limitado. A escala reduzida do consumo energético torna os investimentos em geotermia pouco viáveis neste momento. No entanto, “prevê-se prospecção geotérmica com aprofundamento de estudos geofísicos na ilha do Faial”, diz o presidente da administração da EDA Renováveis.
UM POTENCIAL EM CRESCIMENTO
Apesar do enorme potencial térmico do subsolo açoriano, as centrais geotérmicas são, actualmente, usadas apenas para produção de energia eléctrica. Ainda assim, Paulo André assegura que têm sido desenvolvidos estudos no sentido de potenciar a utilização do calor, por exemplo, no sector da agroindústria. “Apesar do potencial identificado, a necessidade de uma extensa rede de tubagens para o transporte do fluido geotérmico desde os poços até ao ponto de utilização e o seu retorno para reinjeção tem inviabilizado, até ao momento, a obtenção de rentabilidade económica”, elabora o responsável.
Acrescenta que alguns estudos-piloto exploram a utilização do calor geotérmico para o aquecimento de habitações, mas, com o clima temperado dos Açores, “estas soluções não têm sido implementadas”. E, embora o aproveitamento do calor geotérmico revele algum potencial em determinadas aplicações, “a reduzida escala das mesmas tem limitado a sua concretização prática”.
ENTRE RISCOS E BENEFÍCIOS
Embora exista um elevado potencial de geotermia nos Açores, a exploração deste recurso natural envolve riscos consideráveis, sobretudo do ponto de vista económico, como explica Paulo André: “Os riscos são sobretudo financeiros, uma vez que são investimentos avultados e só após o investimento inicial nos poços geotérmicos é que é possível perceber a viabilidade dos projectos”.
Para mitigar esses riscos, a EDA Renováveis tem recorrido ao apoio de fundos comunitários “para apoiar o estabelecimento dos investimentos e os actuais projectos em curso estão a ser financiados pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR)”.
Existe uma outra questão frequentemente associada à exploração da energia geotérmica: o risco sísmico. O arquipélago dos Açores está localizado na confluência de três grandes placas tectónicas e a extracção de vapor e água do interior da Terra provoca uma pressão. Num processo de libertação da pressão, podem registar-se micro-sismos. Contudo, é feita uma monitorização sísmica das explorações para detectar e avaliar o risco de micro-sismicidade.
Apesar dos desafios, os benefícios associados à geotermia são amplamente reconhecidos e estratégicos para o futuro do arquipélago. “Os benefícios são sobretudo o reforço da independência energética da região, a redução das emissões de carbono para a atmosfera e a contribuição para a segurança do abastecimento, fruto de ser uma fonte renovável estável e previsível”, elucida o responsável.
Ao contrário de outras fontes renováveis, como o vento ou o sol, cuja produção depende das condições meteorológicas, a geotermia apresenta uma estabilidade rara, com produção contínua ao longo das 24 horas do dia. Esta característica contribui para a fiabilidade da rede eléctrica insular, especialmente num território que é disperso e onde não existem interligações entre as ilhas.
Com os olhos postos no futuro, Paulo André assegura que a EDA Renováveis “continua a realizar diversas campanhas exploratórias que incidem sobre os recursos geotérmicos disponíveis, com vista à maximização da sua utilização”. Sendo uma fonte endógena e limpa, a geotermia é assim encarada como uma solução estratégica de longo prazo para a resiliência e independência energética dos Açores.
Fotografia de destaque: © EDA Renováveis





