Construção civil continua longe da neutralidade carbónica, alerta relatório da ONU 

O sector da construção civil continua a ser um dos maiores responsáveis pelas emissões globais de carbono, apesar dos avanços na eficiência energética e na construção sustentável. Um novo relatório das Nações Unidas alerta que o investimento na transição verde terá de mais do que duplicar até 2030 para manter viva a meta das emissões líquidas zero até meados do século. 

De acordo com o décimo Relatório Global sobre o Estado da Construção Civil 2025-2026, divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Ambiente (PNUMA) e pela Aliança Global para Edifícios e Construção (GlobalABC), o sector representa entre 11% e 13% do Produto Interno Bruto global e emprega cerca de 9% da força de trabalho mundial. 

Ainda assim, o peso económico contrasta com o impacte ambiental. O sector é responsável por aproximadamente 37% das emissões globais de dióxido de carbono, por 28% do consumo mundial de energia e por quase metade da extracção global de materiais. 

O relatório foi apresentado durante a 13.ª sessão do Fórum Urbano Mundial e analisa os desafios da descarbonização de um sector em rápida expansão, num contexto marcado pela crise climática e pelas dificuldades de acesso à habitação. 

Crescimento urbano mantém pressão sobre o ambiente 

A expansão da construção continua a acelerar em várias regiões do planeta. Em média, são adicionados diariamente cerca de 12,7 milhões de metros quadrados de área construída, o equivalente a construir uma cidade do tamanho de Paris quase todas as semanas. 

Em 2024, a área construída global aumentou 1,7%, atingindo os 273 mil milhões de metros quadrados. O crescimento foi impulsionado sobretudo pelas economias emergentes da Índia e do Sudeste Asiático. 

Os autores do relatório alertam que metade dos edifícios que existirão em 2050 ainda não foram construídos ou necessitarão de renovação, tornando as decisões actuais determinantes para o futuro das emissões globais. 

Eficiência energética melhora, mas continua insuficiente 

O documento reconhece alguns progressos registados na última década. Desde 2015, a intensidade energética dos edifícios, medida pelo consumo de energia em relação à área construída, diminuiu 8,5% a nível global. No mesmo período, as certificações de edifícios sustentáveis quase triplicaram. 

Apesar disso, o ritmo de transformação permanece abaixo do necessário. Em 2024, as emissões operacionais dos edifícios aumentaram 1%, alcançando os 9,9 gigatoneladas de CO₂. 

As energias renováveis continuam igualmente com um peso reduzido no sector, representando apenas 17,3% do consumo energético dos edifícios, longe da trajectória exigida para atingir emissões líquidas nulas até 2050. 

ONU pede reforço urgente do investimento 

O relatório identifica o financiamento como um dos principais obstáculos à transição energética no sector. O investimento global em eficiência energética nos edifícios atingiu os 275 mil milhões de dólares em 2024, elevando o total acumulado desde 2015 para 2,3 mil milhões de dólares. 

No entanto, as Nações Unidas consideram este valor insuficiente. Para alinhar o sector com as metas climáticas internacionais, o investimento terá de atingir os 5,9 mil milhões de dólares até 2030, o equivalente a cerca de 592 mil milhões anuais. 

Segundo o PNUMA e a GlobalABC, o abrandamento registado desde 2020 demonstra que a transição verde não está a acompanhar o crescimento da construção civil. 

Habitação sustentável pode reduzir custos e desigualdades 

Além da redução das emissões, o relatório defende que a acção climática nos edifícios pode trazer benefícios sociais directos. Edifícios mais eficientes poderão diminuir os custos da energia, melhorar as condições de habitabilidade e aumentar a resistência das comunidades aos fenómenos climáticos extremos. 

As Nações Unidas sublinham ainda que a sustentabilidade poderá desempenhar um papel importante na resposta à crise da habitação, ao reduzir despesas energéticas e melhorar a qualidade de vida das populações. 

Países aceleram políticas para edifícios sustentáveis 

O relatório destaca exemplos de medidas já implementadas em diferentes regiões: a União Europeia tem reforçado políticas relativas às emissões operacionais e incorporadas nos edifícios, enquanto Japão e Suíça melhoraram o desempenho energético do parque edificado. 

Austrália, Alemanha, Índia e Paquistão registam avanços na integração de energias renováveis nos edifícios. Já países como Bahamas, Camboja e Colômbia começaram a incorporar estratégias sectoriais nos seus planos nacionais de acção climática. 

O documento refere igualmente a actualização de códigos de eficiência energética na Califórnia, Quénia, Japão e Singapura, bem como a expansão das certificações verdes na China, Índia, Turquia e Colômbia. 

Próxima década será decisiva 

O PNUMA e a GlobalABC defendem que os próximos anos serão determinantes para o futuro climático das cidades e da construção civil. As duas organizações prometem continuar a apoiar governos e decisores políticos na criação de políticas públicas, metodologias e instrumentos de financiamento que permitam acelerar a descarbonização do sector. 

O objectivo, concluem, passa por compatibilizar o crescimento urbano, a sustentabilidade ambiental e o acesso a habitação digna e acessível.

Fotografia de destaque: © Unsplash

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