Depois de a Estratégia Nacional para a Implementação da Metodologia BIM – PortugalBIM ter sido aprovada em Conselho de Ministros, José Carlos Lino, presidente da buildingSMART Portugal, contou à Edifícios e Energia as expectativas da associação para esta estratégia e os avanços da implementação da metodologia BIM em Portugal.
O Conselho de Ministros aprovou, no final do mês de Setembro, um novo conjunto de medidas integradas na estratégia Construir Portugal, um plano que, segundo o Governo, visa “dinamizar e reforçar a oferta de habitação, em especial no mercado privado”. Entre as decisões tomadas, destaca-se o anúncio da Estratégia Nacional para a Implementação da Metodologia BIM – PortugalBIM.
O BIM (Building Information Modeling) trata-se de uma abordagem de trabalho colaborativa baseada em modelos digitais que acompanha todas as fases de vida de um edifício — do projecto à construção, passando pela utilização e pela desconstrução. Segundo dados do Governo, a digitalização dos processos “permite economias entre 10 e 20% nas despesas de capital dos empreendimentos de construção de edifícios e de infraestruturas”.
Num contexto internacional em que o BIM é já uma prática consolidada, Portugal prepara-se para tornar a sua utilização obrigatória nos próximos anos. A buildingSMART Portugal, uma associação sem fins lucrativos, tem unido esforços para promover a eficiência no sector da construção através da utilização de normas abertas de interoperabilidade no BIM para alcançar novos níveis de redução de custos, tempos de execução e aumentar a qualidade das construções.
Conversámos com o presidente da buildingSMART Portugal, José Carlos Lino, sobre a Estratégia Nacional para a Implementação da Metodologia BIM e para perceber como está a correr a implementação desta abordagem a nível nacional:
Quais são as principais expectativas da buildingSMART relativamente à Estratégia Nacional para a Implementação da Metodologia BIM? Acredita que poderá trazer mudanças significativas na forma como se planeiam e executam projectos de construção em Portugal?
Foi anunciada publicamente pelo Governo a Estratégia Portugal BIM, mas ainda há que esperar pela versão final em Diário da República. Mas as expectativas são altas. Desde logo, a buildingSMART Portugal congratula-se por constatar que a implementação do BIM a uma escala nacional entra na agenda política. Por tudo o que se tem desenvolvido nas últimas duas décadas neste sector e pelo que se está a fazer a nível internacional e, em particular, na União Europeia, sempre considerámos esta implementação uma inevitabilidade, mas que tem tardado em Portugal.
É nossa expectativa que esta estratégia nacional, à semelhança de muitas outras, abranja as principais áreas de implementação do BIM: políticas, processos, tecnologias e pessoas. Como recomendação, o Manual de apoio à Contratação Pública em BIM, emitido pela União Europeia, elenca o âmbito que pode abranger cada uma destas componentes, nomeadamente aspectos jurídicos e contratuais, trocas de informação, aspectos técnicos de validação e utilização, bem como aumento das competências e apoio à capacitação, sendo só alguns dos vectores a considerar neste tipo de estratégias.
Outro aspecto muito importante é o da interoperabilidade. Uma implementação desta natureza deveria ter como denominador comum o uso de formatos abertos que permitam o trabalho integrado e colaborativo, numa metodologia conhecida como OpenBIM. Estamos muito expectantes relativamente a este ponto.
Além disso, é importante que seja constituída uma pequena equipa profissional, mas exclusivamente dedicada à implementação da estratégia e conhecedora do tema, que assegure a gestão e a curadoria de todos os eixos e objectivos e garanta o cumprimento de um plano de acções. É ainda importante que o faça envolvendo todo o sector e todos os actores. O risco de tentar uma implementação a esta escala, confiando os processos aos departamentos estatais que já estão sobrecarregados e não têm competências nem experiência neste novo tópico, deveria ser evitado.

Se assim for, ficaremos com um planeamento onde a legislação, o conhecimento, e as exigências contratuais vão gradualmente aumentar a sua maturidade até chegarmos a um ponto em que todo o ecossistema da construção estará a projectar, licenciar, construir e operar de modo integrado em BIM e OpenBIM.
Sabendo que o custo da habitação é um dos maiores desafios actuais, como avalia o potencial da implementação do BIM para reduzir os custos associados à construção e ao preço final das habitações?
Estão mais do que identificados e cientificamente comprovados os benefícios do BIM e os ganhos que esta metodologia acarreta. Seja em reduções directas de custos e prazos devido à antecipação de conflitos e à correcção de erros e omissões, seja na redução do risco por meio de um rigoroso modelo de objectos, seja na integração de trabalho colaborativo ou na aceleração dos processos de licenciamento. Mas também existem múltiplos ganhos indirectos, como uma colectânea de informações sobre o nosso activo, a capacidade de determinarmos e optimizarmos gastos energéticos e o custo do ciclo de vida da construção, até à possível redução de seguros e responsabilidades por termos uma base de dados garante do construído, são apenas alguns exemplos.
Agora, o que não podemos fazer é construir o mesmo edifício duas vezes com e sem BIM para, no final, fazermos a comparação de quanto poupamos. Então, é preciso que os donos de obra, os promotores e todos os empreendedores conheçam e compreendam estes ganhos e os imponham aos seus fornecedores e às suas equipas. Se houver esta vontade e compreensão, e todos trabalharmos integradamente para esse objectivo final, é seguro dizer que uma construção em BIM será mais barata que uma sem BIM. Depois, só nos resta esperar que estes ganhos tecnológicos e a optimização do processo não sejam indevidamente ocultados e absorvidos por tantas margens que fazem com que o preço final da construção, muitas vezes, não tenha correlação directa com o preço de construção.
De um modo geral, como está a correr a adesão ao BIM? Os gabinetes de projecto e a as empresas estão mais sensibilizadas?
Quem está a pugnar pela inovação através do BIM e tem consciência da sua inevitabilidade tende a achar que a adesão integral poderia sempre ser mais rápida, mas temos evidências de que o conhecimento e a prática estão a aumentar progressivamente. Os membros e associados da buildingSMART Portugal têm crescido continuamente, e os eventos e as formações em BIM têm cada vez mais interessados, que chegam com um nível de maturidade cada vez mais elevado.
Os gabinetes de projecto já estão sensibilizados, até porque começa a ser relativamente comum os projectos já serem solicitados, com maior ou menor detalhe, em BIM. Os construtores também já iniciaram muitos dos seus processos em BIM, em particular, os de controlos de custos e tempos, mas também a aplicação em tecnologias no local da obra. As fases de operação e manutenção não estão tão avançadas, mas talvez sejam as que demorarão menos tempo a transitar. Mas, se tivermos que escolher onde deveríamos investir na divulgação, disseminação e convencimento, é, sem dúvida, nos donos de obra. Sejam públicos ou privados. Só com a sua adesão teremos todo o ecossistema integrado e a produzir activos em que simultaneamente teremos o seu gémeo digital, tal como já temos em muitas outras indústrias.
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