Associativismo precisa-se! Sim, mas que associativismo?

Numa conversa entre Jorge Carvalho (JC) e Ernesto Peixeiro Ramos (PR) fazemos uma viagem pelo mundo associativo. A união como ponto de partida poderia apontar para uma nova realidade associativa. “Falta um espaço onde todos os profissionais possam trocar experiências entre si, partilhar soluções, discutir problemas reais do terreno, sem barreiras baseadas na formação académica ou hierarquias”.

JMC: Já há décadas que ouvimos a mesma pergunta: “para que é que serve o associativismo?”. No sector do AVAC (aquecimento, ventilação e ar condicionado) a resposta parece óbvia, mas, curiosamente, tudo continua a funcionar como se não fosse. Temos um mercado tecnicamente exigente, com impacto directo no consumo energético, no conforto, na qualidade do ar interior e até na saúde pública, mas continuamos estruturalmente desunidos.

EPR: É um paradoxo clássico. Trabalhamos diariamente com sistemas que só funcionam bem quando todos os componentes estão integrados, equilibrados e coordenados. No entanto, enquanto sector, aceitamos uma lógica fragmentada, quase improvisada. Cada interveniente optimiza o seu “subsistema” e depois espera que o conjunto funcione.

JMC: Depois, ficamos surpreendidos quando não funciona. A verdade é que o associativismo funciona mal, mas não por falta de boas intenções. Funciona mal porque reflecte alguns problemas mais profundos, quase culturais: a dificuldade em criar projectos colectivos duradouros, a tendência para a dispersão e uma visão demasiado centrada no curto prazo.

EPR: Isso nota-se logo na multiplicidade de estruturas com interesses muito específicos. Não é errado existirem associações por áreas, mas quando essas áreas se sobrepõem, competem por atenção e não comunicam entre si, o efeito global é o do enfraquecimento. Em vez de um sector forte, temos várias vozes médias a falar ao mesmo tempo.

JMC: Depois surge a questão recorrente: onde estão os principais players? Empresas com peso real, com capacidade técnica instalada, com experiência acumulada. Muitas participam pontualmente, mas poucas se envolvem de forma continuada. A justificação é quase sempre a mesma: falta de tempo, falta de retorno, excesso de reuniões.

EPR: E é realmente curioso, porque essas mesmas empresas sabem perfeitamente que a formação contínua, a normalização de procedimentos e a reputação do sector não se constroem sozinhas. Beneficiam de um mercado mais organizado, mas hesitam em investir na sua construção.

JMC: Outra tendência é a comparação constante com outros países. Usa-se frequentemente o argumento de que “lá fora o sector está muito mais avançado”. É verdade. Mas o que raramente se diz é que esse avanço foi construído com décadas de trabalho associativo consistente, com erros, conflitos e ajustes sucessivos.

EPR: Muitas vezes tentamos saltar etapas. Importam-se discursos, modelos e exigências sem criar a base que os sustenta. O resultado é um desfasamento entre o que se diz e o que se consegue aplicar no terreno. Isso afasta profissionais experientes que conhecem bem as limitações reais do mercado.

JMC: E isso liga-se directamente à questão geracional. Costuma dizer-se que os mais jovens não se envolvem, mas essa é uma leitura superficial. Eles envolvem-se quando veem utilidade prática, quando sentem que a sua participação tem impacto real. O problema é que muitas estruturas continuam a funcionar com formatos que já não dialogam com essa realidade.

EPR: As ferramentas digitais vieram alterar profundamente a forma como o conhecimento circula. Hoje qualquer técnico consegue aceder a manuais, vídeos, fóruns internacionais e documentação técnica em minutos. Isso é positivo, mas cria a ilusão de que a aprendizagem é um processo solitário.

JMC: Mas não é. Na nossa actividade, a aprendizagem mais valiosa vem da prática partilhada: discutir um erro de instalação, perceber porque é que um sistema nunca atinge o desempenho previsto, trocar experiências sobre soluções que funcionaram num contexto real. Isso não acontece num ecrã; acontece entre as pessoas.

EPR: O digital, quando é mal utilizado, só isola. Reduz a presença, o convívio e aquelas conversas informais que tantas vezes resolvem problemas complexos. Quantas vezes uma solução surge num intervalo de uma reunião ou num café depois de um evento? Isso não se agenda, mas é preciso um contexto para que possamos vislumbrar essa solução.

JMC: Outro ponto crítico é a forma como as associações comunicam entre si. Ou melhor, como não comunicam. Falta coordenação, respeito por calendários, articulação de temas. Repetem-se eventos, sobrepõem-se datas, diluem-se audiências. Todos perdem, mas o sector perde mais.

EPR: Essa desorganização reflecte-se na participação dos associados. Assembleias gerais com meia dúzia de pessoas, grupos de trabalho reduzidos, sempre os mesmos a discutir os mesmos temas. Não é falta de massa crítica; é falta de mobilização eficaz.

JMC: Isso gera muito desgaste. O trabalho associativo é voluntário e muitas vezes é ingrato. Quem se envolve acaba por acumular funções, responsabilidades e frustração. Chega a um ponto em que a pergunta deixa de ser “quem quer ajudar?” e passa a ser “quem é que ainda aguenta?”.

EPR: Sem renovação, as estruturas envelhecem — não em idade, mas em dinâmica. Tornam-se previsíveis, pouco atractivas para quem está de fora, e incapazes de captar novas perspectivas. O sector muda, mas as associações nem sempre acompanham esse ritmo.

JMC: O resultado é um sector que raramente fala a uma só voz. Quando surgem temas críticos — regulamentação, exigências técnicas, formação, sustentabilidade — as posições aparecem fragmentadas. Um sector fragmentado tem pouca influência e pouca capacidade de se fazer ouvir.

EPR: Talvez esteja na altura de olhar para o problema de outra forma. Em vez de perguntar apenas “como melhorar o associativismo existente?”, devíamos talvez perguntar “quem é que está estruturalmente fora dele?”. E quando fazemos essa pergunta, a resposta é evidente.

JMC: Uma parte significativa dos profissionais do sector de AVAC não tem um espaço natural de agregação. Falamos dos técnicos que fazem a montagem de tubagens e condutas, que instalam equipamentos, que realizam manutenção, os preparadores de obra, os que fazem comissionamento, operação e ajuste fino dos sistemas. No final, são eles que garantem que o projecto funciona.

EPR: Importa esclarecer um ponto fundamental: a inexistência de uma associação transversal destes técnicos não significa falta de formação ou de competência. Pelo contrário. Muitos têm formação especializada, certificações de fabricantes, anos de experiência acumulada e um conhecimento prático que não se aprende em livros.

JMC: O problema não é técnico, é estrutural. Falta um espaço onde todos os profissionais possam trocar experiências entre si, partilhar soluções, discutir problemas reais do terreno, sem barreiras baseadas na formação académica ou no cargo hierárquico.

EPR: Uma associação com esse perfil não serviria apenas para representar interesses. Serviria para criar comunidade técnica, promover eventos práticos, workshops focados na realidade do terreno, divulgar boas práticas e informação técnica actualizada. Seria um espaço de construção colectiva de conhecimento. O único interesse seria o do enriquecimento técnico do sector.

JMC: Isso teria impacto directo na qualidade global do sector. Quando o conhecimento circula, a variabilidade de procedimentos diminui. Os erros repetem-se menos. As equipas comunicam melhor entre si. O sector pode tornar-se mais consistente e mais credível.

EPR: No fundo, voltamos ao início da conversa. Um sector forte constrói-se com união, coordenação e partilha. E isso não acontece espontaneamente. Exige estruturas adequadas à realidade do mercado e das pessoas que nele trabalham.

JMC: Associativismo não é um fim em si mesmo. É uma ferramenta. Uma infraestrutura invisível que só se nota quando falha. Talvez o maior desafio seja aceitar que os resultados não são imediatos, mas acumulativos.

EPR: A ironia é inevitável: passamos a vida a corrigir falhas em sistemas técnicos complexos, mas continuamos a adiar a intervenção no sistema mais crítico de todos — o próprio sector.

JMC: Há um ponto que raramente é abordado com frontalidade que é a ausência de espaços onde os técnicos possam discutir falhas, sem receio de julgamento. No nosso sector, o erro continua a ser tratado como falha individual, quando na maioria das vezes é consequência de processos mal definidos ou de falta de comunicação entre intervenientes.

EPR: Isso é crítico. A cultura de melhoria contínua constrói-se precisamente na análise estruturada do erro e não na sua estigmatização. Nos mercados mais maduros, os técnicos reúnem-se para discutir problemas reais, estudar causas, comparar abordagens. Não para apontar culpados, mas para melhorar o sistema. Aqui, essas conversas acontecem… mas de forma privada, quase clandestina.

JMC: E isso é um desperdício enorme de conhecimento. Cada instalação problemática, cada arranque difícil, cada sistema que nunca atingiu o desempenho previsto contém lições valiosas. Sem um espaço colectivo, essas lições morrem com a equipa que as viveu.

EPR: Uma associação técnica transversal poderia funcionar como catalisador desse conhecimento. Não como entidade fiscalizadora, mas como plataforma segura para partilha de experiências reais. Estudos de caso práticos, apresentados por técnicos para técnicos, sem filtros comerciais nem discursos formatados.

JMC: Outro aspecto pouco discutido é o impacto disso na atractividade do sector. Falamos muito em falta de mão de obra qualificada, mas raramente reflectimos sobre a imagem que o sector projecta para o exterior. Um mercado desorganizado, fragmentado e pouco colaborativo dificilmente atrai jovens com ambição técnica.

EPR: Exato. Os profissionais mais novos procuram evolução, reconhecimento e pertença. Uma associação activa, dinâmica, tecnicamente relevante pode ser um factor decisivo para fixar talento. Não substitui a empresa, mas complementa o percurso profissional.

JMC: E atenção, isto não é criar mais uma estrutura pesada. Pelo contrário. Uma associação moderna teria de ser ágil, orientada para os conteúdos técnicos, com forte componente presencial, mas bem apoiada por ferramentas digitais. O digital como meio, não como fim.

EPR: Eventos pequenos, focados, bem preparados. Grupos de trabalho temporários para temas concretos. Produção de documentação técnica simples, prática, baseada na realidade do mercado. Nada de excesso de burocracia. Técnica pura e aplicada.

JMC: No fundo, estamos a falar de maturidade sectorial. Um sector maduro reconhece que a concorrência não impede a cooperação técnica. Pelo contrário: cooperação eleva o nível geral e torna a concorrência mais saudável.

EPR: E talvez esse seja o ponto mais difícil – aceitar que ninguém perde espaço por partilhar conhecimento técnico. O que se perde é o medo, o isolamento e a repetição dos mesmos erros. O que se ganha é um sector mais sólido, mais respeitado e mais preparado para os desafios futuros.  hierárquico.

Fotografia de destaque: © Shutterstock

PARTILHAR

PUBLICIDADE

REVISTA

AGENDA

SOBRE O AUTOR