Descarbonizar os edifícios para além da tecnologia foi o mote para mais uma conversa entre Jorge Carvalho e Ernesto Peixeiro Ramos na actual edição da revista Edifícios e Energia. Para estes dois especialistas, a iliteracia económica, técnica e operacional poderá ser o grande travão a um avanço tecnológico do sector.
Actualmente, assistimos a um crescimento exponencial no mercado de bombas de calor (BC) ar-água e à sofisticação de sistemas que, há uma década, pareciam futuristas: redes térmicas de quarta e quinta geração que recuperam calor residual de data centers, que aproveitam a inércia térmica de águas residuais ou que exploram o potencial geotérmico profundo do subsolo urbano. Mas este avanço tecnológico, por mais brilhante que seja na teoria, corre o risco de ser travado por um obstáculo invisível e persistente: a iliteracia sistémica.
“Entusiasmo tecnológico sem literacia costuma dar boa retórica e maus resultados”, relembra Peixeiro Ramos numa breve reflexão sobre o passado recente. Para este engenheiro, “a diferença entre os anos oitenta e hoje não está tanto na tecnologia quanto no contexto. Antes era soberania energética, agora é sobrevivência climática. Mas o erro potencial mantém-se elegante e recorrente: acredita-se que a troca da fonte energética resolve um problema que é sistémico. Descarbonizar não consiste em mudar de máquina, temos de redesenhar as relações entre edifício, sistemas e utilizadores. Tudo o resto é cosmética técnica com prazos alargados para falhar”.
Jorge Carvalho acrescenta que é comum “essa simplificação aparecer na economia dos projectos. No contacto assíduo com promotores e projectistas continuo a ver decisões dominadas por análises de CAPEX”. Para este engenheiro, quando a descarbonização passar a ser um critério de competência profissional, “a transição deixará de ser ruidosa. A descarbonização passará a ser simplesmente o resultado esperado de boa engenharia, bem pensada, bem construída e bem operada ao longo do tempo. A própria profissão de engenheiro tem tudo a ganhar e acima de tudo respeito”.
* Leia o artigo completo na recente revista #164 de Março / Abril
Fotografia de destaque: © Shutterstock





