Gémeo Digital de Lisboa vai simular o impacto das políticas nas ilhas de calor antes de as aplicar 

Lisboa vai poder testar no computador o efeito das políticas climáticas nas ilhas de calor antes de as aplicar na cidade. É esse o objectivo do NexTCity, projecto europeu coordenado pela NOVA IMS que está a desenvolver um Gémeo Digital da Zona de Emissões Reduzidas de Lisboa. 

É sabido que as cidades estão a sobreaquecer. O fenómeno é global, mas em Lisboa já é sentido de uma forma muito concreta: os Verões são mais quentes e mais secos, e os edifícios têm dificuldade em responder ao desafio climático. Segundo o estudo “Cartografia de Vulnerabilidade Térmica – Mapeamento dos efeitos das ondas de calor em Lisboa, face às projeções climáticas”, promovido pela Câmara Municipal de Lisboa com o cofinanciamento do programa europeu PO SEUR (Programa Operacional Sustentabilidade e Eficiência no Uso de Recursos), com dados referentes a 2020, a Área Metropolitana de Lisboa tem cerca de 11 dias de onda de calor por ano, número que pode chegar aos 38 dias em 2050, com temperaturas na ordem dos 40 ºC. 

As ilhas de calor e o papel dos edifícios 

Na origem do problema está a chamada ilha de calor urbano: zonas da cidade onde a temperatura é superior à média. Um fenómeno que se tem agravado com a densificação urbana. Mais construção, menos áreas verdes e menos ventilação significam mais superfícies que absorvem calor durante o dia e o libertam durante a noite, dificultando o arrefecimento nocturno. 

Recordamos, a este propósito, um artigo de opinião de Helder Gonçalves, director do Laboratório de Energia do LNEG (Laboratório Nacional de Energia e Geologia), publicado na revista Edifícios e Energia em 2022, no qual apontava a perda de espaços abertos como uma das causas das ilhas de calor. “A densidade urbana aumentou nas últimas décadas e, consequentemente, as zonas ‘abertas’ das cidades, as zonas verdes, arejadas, que permitiam uma circulação de massas de ar, foram diminuindo, o que fez aumentar a concentração de calor”, defendeu. O resultado são “volumetrias com elevada capacidade de armazenamento térmico e elevado coeficiente de absorção da radiação solar – isto é, absorve o calor durante o dia e mantém-se quente durante a noite”. A este quadro somam-se as ondas de calor, que ocorrem “quando, num período de seis dias consecutivos, a temperatura máxima é 5 ºC maior do que o valor da temperatura média”. 

Os edifícios são parte central desta equação. Grandes vãos envidraçados, sobretudo a poente, aumentam os ganhos solares no Verão; coberturas sem isolamento ou sombreamento recebem grande parte da radiação; superfícies escuras retêm calor. As consequências vão do desconforto térmico nas habitações a um problema de saúde pública, que afecta em especial a população mais idosa. Para Helder Gonçalves, “os edifícios não estão preparados para este verdadeiro ‘inferno’ que se aproxima no período de Verão e, consequentemente, as famílias passam mal ou utilizam o ‘ar condicionado’ (aqueles que o podem pagar)”. Com o recurso ao ar condicionado, alertou, “a temperatura do ar exterior ainda aumenta”. 

O responsável considera que o cenário é inevitável. Numa entrevista à Edifícios e Energia, em Julho de 2024, afirmou que “independentemente do que acontecer nas políticas sectoriais, com mais ou menos automóveis, as cidades já estão a sobreaquecer globalmente e a formar ilhas de calor em zonas específicas”. E acrescentou: “Temos de preparar as cidades em termos urbanos para resistirem a estas ondas de calor – sobre as quais nos habituámos a ouvir na comunicação social – e para minimizarem os seus impactos.” 

Testar antes de decidir 

Surge, assim, o NexTCity. A NOVA Information Management School (NOVA IMS) coordena este projecto europeu, que está a desenvolver um Gémeo Digital da Zona de Emissões Reduzidas de Lisboa. A plataforma integra e cruza dados sobre clima, ambiente e mobilidade, e permite simular diferentes cenários, antecipando efeitos nas ilhas de calor urbano, na qualidade do ar e na saúde da população. 

Através de uma réplica digital dinâmica, será possível visualizar o funcionamento deste território em tempo real, criar cenários e avaliar antecipadamente o impacto de diferentes medidas, reduzindo a incerteza na decisão de quem gere a cidade. 

“As cidades enfrentam hoje desafios cada vez mais complexos, desde a gestão da mobilidade e da pressão turística até à adaptação às alterações climáticas e à melhoria da qualidade de vida dos cidadãos. Responder a estes desafios exige novas ferramentas para apoiar a decisão pública. Com o NexTCity, Lisboa passa a dispor de uma plataforma capaz de testar diferentes cenários antes da implementação de políticas urbanas, permitindo uma tomada de decisão mais informada, eficiente e baseada em evidência. O conhecimento e a tecnologia desenvolvidos neste projecto poderão, no futuro, ser replicados noutras cidades portuguesas e europeias”, afirmou Miguel de Castro Neto, director da NOVA IMS e coordenador do projecto, em comunicado. 

Um consórcio europeu 

Financiado pelo programa Horizon Europe, o NexTCity reúne a NOVA IMS, como entidade coordenadora, a KU Leuven (Bélgica) e a Universitat Jaume I (Espanha), com a colaboração da Lisboa E-Nova no desenvolvimento do projecto-piloto. Além do Gémeo Digital de Lisboa, o projecto pretende reforçar as competências científicas e tecnológicas da NOVA IMS na área dos Gémeos Digitais Urbanos e consolidar Portugal como referência europeia em soluções para cidades mais inteligentes, sustentáveis e resilientes. 

Fotografia de destaque: © Magnific

PARTILHAR

PUBLICIDADE

REVISTA

AGENDA

SOBRE O AUTOR