Este artigo foi originalmente publicado na edição nº 162 da Edifícios e Energia (Novembro/Dezembro 2025).
A conversa entre Jorge Manuel Carvalho (JMC) e Ernesto Peixeiro Ramos (EPR) expõe, com franqueza e detalhe, os dilemas centrais da transição digital no sector do AVAC&R e aponta um caminho realista: digitalização escalonada, interoperável e contextualizada — começando pela qualidade das medições.
JMC: Fala-se tanto do Passaporte Digital de Produto (PDP), e também já se falou do Passaporte Digital do Edifício (PDE), mas continuo a sentir um desfasamento enorme entre a ambição e a prática no terreno. A ideia parece boa, rastrear o ciclo de vida, medir o desempenho real, fechar o ciclo da circularidade. Mas quem é que vai medir, com que instrumentos, e com que fiabilidade?
EPR: Essa é uma questão que quase ninguém quer enfrentar. Fala-se em digitalização como se bastasse ligar um sensor e pronto, os dados fluíssem magicamente. Mas medir a energia térmica, especialmente em circuitos de água, é das tarefas mais ingratas. Dois sensores de temperatura e um caudalímetro não bastam se não estiverem no sítio certo. Vês sondas mal instaladas, sem isolamento, ou mal posicionadas, e depois perguntam-se por que é que o Coeficiente de Desempenho (COP) parece instável.
JMC: Exactamente. Já encontrei sensores montados no mesmo troço, sem diferença de potencial térmico. E depois há os caudalímetros: troços rectos curtos, ar, turbulência, e nunca calibrados. No fim, o sistema “mede”, mas mede mal. E é com esses dados que se quer alimentar o Passaporte Digital do Edifício. Ou seja, criamos um edifício digitalmente “transparente”, mas baseado em dados duvidosos. É uma ironia tecnológica.
EPR: Totalmente. E não é por má vontade, é por falta de formação, de tempo e de dinheiro. Se quisermos medições com rastreabilidade metrológica, precisamos de infraestrutura. Um edifício médio com vários circuitos hidráulicos exigiria caudalímetros ultrassónicos ou magnéticos, sondas PT1000 calibradas, isolamento térmico adequado, gateways IoT e um servidor local para recolher e filtrar os dados antes de os enviar para a plataforma europeia. Estamos a falar de algumas dezenas de milhares de euros de investimento inicial, fora a manutenção anual e calibrações.
JMC: E quem é que quer pagar isso? Um hospital ou centro comercial pode absorver, mas nos pequenos edifícios de serviços, ou nos condomínios residenciais é impossível. No fim, o custo da transparência acaba por afastar os pequenos proprietários. O PDP e o PDE só fazem sentido se forem escalonados: exigência mínima para edifícios simples, e máxima para os de alta complexidade. Senão, transformamo-nos em burocratas digitais em vez de engenheiros.
EPR: E ainda há outro perigo: a duplicação de responsabilidades. O Passaporte Digital de Produto fica com o fabricante; o do edifício, com o dono ou promotor. Só que ambos pedem os mesmos dados: rendimentos, consumos, emissões e manutenção. No fim, o técnico de AVAC passa mais tempo a alimentar portais do que a optimizar sistemas. A digitalização devia libertar-nos, não afundar-nos em burocracia.
JMC: Era o que eu dizia antes. O PDP devia ser o bloco de construção do PDE. Cada equipamento, chiller – bomba de calor, ventiloconvector
– teria o seu passaporte digital autónomo, com dados técnicos, ambientais e de desempenho real. O PDE apenas os agrupa, como um “contentor digital” do edifício. Assim, cada actualização de um produto reflectia-se automaticamente no passaporte do edifício.
EPR: Isso seria o ideal. Mas, para funcionar, precisaríamos de interoperabilidade real entre fabricantes e plataformas. Hoje, cada um fala a sua língua: BACnet, Modbus, KNX, protocolos proprietários. E o BIM, que podia ser o elo de ligação, ainda é visto como ferramenta de projecto, não de operação. Fala-se em Digital Twin (DT) (investimento entre 20 e 50 €/metros quadrados), mas poucos percebem que, sem medições fiáveis e sem API (Application Programming Interface) aberta, o DT é só uma bonita maquete.
JMC: E também temos o factor climático, que a regulamentação ignora por completo. A Europa aplica as mesmas métricas de desempenho sazonal – SEER, SCOP – do Báltico ao Algarve. Mas as condições de operação são completamente diferentes. No Sul, o arrefecimento domina quase todo o ano, com grandes variações diárias, principalmente no interior e longos períodos de meia carga. Já no Norte, o aquecimento é estável e previsível. Usar o mesmo indicador é completamente inadequado, é uma distorção técnica e comercial.
EPR: E não é pequena. Um chiller projectado para trabalhar a 35 °C de condensação em Bruxelas chega a Évora e enfrenta 45 °C. O rendimento cai 20 a 25%. E depois querem comparar como se o equipamento do Norte fosse “mais eficiente”. Falta contexto climático. O passaporte devia ter campos obrigatórios: zona CEN (quente, média, fria), temperatura média de condensação e evaporação, horas anuais de operação e perfil de utilização. Sem isso, os dados são inúteis para comparação. Quanto aos edifícios de alta carga interna, como centros comerciais, supermercados, hospitais ou data centers, o comportamento energético é determinado pelo uso, não pelo clima, daí que a parametrização deva ser dupla, por zona climática (EPBD, Eurocodes, etc.) ou por tipologia funcional (retalho, hospitalar, residencial, etc.).
JMC: Exacto. E se formos justos, o Sul da Europa está em desvantagem. O custo da electricidade é alto, a amplitude térmica é enorme, e a poupança potencial dos sistemas de monitorização é menor. Instalar instrumentação custa o mesmo, seja em Portugal, seja na Alemanha, mas o payback cá é o dobro. No Norte, o sistema funciona mais horas, há contratos de desempenho energético e tarifas estáveis. No Sul, temos sazonalidade e ocupação flutuante. O business case da digitalização é mais fraco e a regulação não reflecte isso.
EPR: Essa é a parte que mais me incomoda: legislar como se a Europa fosse homogénea. As normas falam em “indicadores médios”, mas o clima, o uso e até a cultura de operação mudam tudo. Na Escandinávia, ninguém desliga sistemas; aqui, a primeira coisa que o utilizador faz é desligar o ar condicionado para poupar. O comportamento dos ocupantes influencia tanto quanto o equipamento e ninguém o modela. Se queremos passaportes que reflictam a realidade, temos de incluir a variável humana.
JMC: Falaste em comportamento e lembrei-me de outra coisa: o ruído de dados. Quando se ligam sensores em massa, há medições erradas, atrasos, falhas de comunicação. Sem validação, o sistema aprende com erros. O machine learning que devia optimizar, acaba por distorcer. Um passaporte digital baseado em dados crus é tão falível quanto um certificado energético teórico. A diferença é que agora o erro é automático e instantâneo.
EPR: Sim, temos o erro em tempo real! É por isso que insisto que a base tem de ser metrológica, não burocrática. Cada sensor deve ter rastreabilidade e calibração verificável. Caso contrário, teremos edifícios “inteligentes” que tomam decisões com base em dados fictícios. A engenharia tem de manter o pé na realidade física. O digital deve ser um espelho fiel, não uma fantasia bem formatada. Mas isto acarreta custos, só a calibração ronda os 50 a 200 euros por sensor por ano. Por exemplo, em edifícios comerciais e supermercados, se pensarmos só nos sensores críticos – temperatura, humidade relativa, caudal, energia, CO2, pressão –, teremos investimentos para sensores e implementação entre 10 mil euros e os 50 mil euros, aos quais acresce a manutenção anual entre os 5 mil euros e os 20 mil euros, dependendo do número de sensores e complexidade. Isto para garantir a conformidade contínua e a actualização dos dados. Repara que estes valores não incluem o fornecimento do sistema de gestão nem a sua manutenção anual.
JMC: Sabes, esta conversa resume o dilema actual do sector. Estamos entre a necessidade de modernizar e o risco de nos perdermos na complexidade. A Europa quer transparência total, mas não define quem assegura a qualidade dos dados. Quer rastreabilidade, mas não oferece interoperabilidade. Quer comparabilidade, mas ignora o clima e o uso. São só paradoxos.
EPR: E a consequência é previsível: excesso de plataformas, ficheiros redundantes, e técnicos desmotivados. Já vejo colegas a dizer “isto é mais papelada digital”. E no fundo têm razão. O Passaporte Digital do Edifício só fará sentido se conseguir unir o digital e o físico: o BIM com o BMS, o projectista com o técnico de campo, o dado com o contexto.
JMC: Para isso, talvez o caminho seja gradual. Começar pelos produtos — PDP automatizado e fiável — e evoluir para o nível do edifício quando já houver maturidade. A digitalização deve ser incrementada passo a passo, mas nunca imposta por decreto. E o investimento precisa de estar alinhado com o benefício, devemos medir o que faz a diferença, não tudo o que é possível.
EPR: Bem, o que me motiva ainda é acreditar que podemos usar esta transição para mudar mentalidades. Se o Passaporte Digital for bem implementado, pode valorizar o trabalho de quem mede e comissiona. Pode dar visibilidade ao desempenho real, e não apenas ao catálogo. Mas, para isso, temos de garantir que os dados são confiáveis, contextualizados e úteis.
JMC: Concordo totalmente. No fim, a tecnologia deve servir a engenharia, não substituí-la. O Passaporte Digital só será credível se reflectir o edifício real — com as suas perdas, incertezas e comportamento humano. Caso contrário, será apenas mais um PDF digital bonito, pendurado numa nuvem europeia qualquer.
EPR: Bonito, mas vazio. Se quiserem realmente avançar, que comecem por algo simples: formar técnicos em metrologia térmica, obrigar fabricantes a disponibilizar APIs abertas, e incluir no PDE um campo de “confiabilidade de dados”. A transparência começa por reconhecer o que ainda não sabemos medir bem.
JMC: Brilhante. Afinal, o verdadeiro passaporte do edifício não é digital — é a competência de quem o projecta, instala e mantém. O resto são carimbos electrónicos.
EPR: O digital só fará sentido quando a precisão térmica se tornar cultura — não obrigação. O sensor será o novo lápis do engenheiro; mas, tal como o lápis que só bem afiado fará um melhor controle das linhas, o sensor só é útil se estiver bem instalado e no local adequado.
RESUMO DOS DILEMAS CENTRAIS
Medição real: falhas práticas em sensores, caudalímetros e calibração comprometem a veracidade dos dados. Infraestrutura e custos: instrumentação e digitalização têm custos elevados e retorno desigual entre edifícios e regiões.
Desigualdade climática: as métricas europeias ignoram variações térmicas e perfis de uso entre o Norte e o Sul.
Interoperabilidade: falta de normalização entre protocolos e plataformas ameaça a utilidade dos passaportes digitais.
Risco burocrático: sem integração entre os passaportes digitais do produto e do edifício, o processo duplica-se e desvia o foco da engenharia para a administração.
As conclusões expressas são da responsabilidade dos autores.
Fotografia de destaque: © Freepik





