A associação Solar Heat Europe saudou o Pacote Energético para os Cidadãos e a Estratégia de Investimento em Energia Limpa da Comissão Europeia, destacando a mobilização de mais de 75 mil milhões de euros para a transição energética. Contudo, a associação alerta que Bruxelas remete o aquecimento renovável para segundo plano.
A Comissão Europeia apresentou o Pacote Energético para os Cidadãos e a Estratégia de Investimento em Energia Limpa, dois instrumentos que procuram acelerar a transição energética na União Europeia. Enquanto um se concentra na adopção de tecnologias livres de combustíveis fósseis, o outro pretende reforçar o fabrico e o investimento em soluções energéticas sustentáveis.
A iniciativa foi recebida com expectativa pelo sector das energias renováveis, embora algumas organizações ligadas ao solar térmico considerem que Bruxelas continua a privilegiar excessivamente a electrificação, deixando em segundo plano o potencial do aquecimento renovável.
A associação europeia Solar Heat Europe considera que os dois documentos seguem uma direcção positiva ao defenderem a descarbonização do consumo energético com tecnologias produzidas na Europa. Durante o debate no Parlamento Europeu, o comissário europeu da Energia, Dan Jørgensen, afirmou que a União Europeia deve “mobilizar todas as ferramentas ao nosso dispor para criar um sistema energético mais limpo, mais seguro e mais acessível”.
Segundo o sector, as tecnologias solares térmicas respondem a esses três objectivos: reduzem emissões, são fabricadas na Europa e apresentam uma vida útil superior a 25 anos, o que contribui para reduzir custos a longo prazo.
Críticas ao foco na electrificação
Apesar do apoio geral às medidas anunciadas, a Solar Heat Europe critica o facto de o Pacote Energético para os Cidadãos centrar grande parte das soluções na electricidade e na electrificação do consumo.
A organização lembra que o aquecimento representa cerca de 65% das necessidades energéticas dos cidadãos europeus, enquanto a água quente corresponde a outros 15%. Na sua perspectiva, ignorar as tecnologias de aquecimento renovável significa não responder à realidade do consumo energético europeu nem ao combate à pobreza energética. “O empoderamento do consumidor e a luta contra a pobreza energética dependem também destas tecnologias”, sustenta a associação.
Entre as principais preocupações identificadas está a chamada “Acção 3”, dedicada à promoção de tecnologias limpas e energeticamente eficientes. O sector defende que esta medida deve incluir soluções fora da rede eléctrica, como o solar térmico, para reduzir os picos de consumo energético através do aquecimento renovável directo.
Outra recomendação incide sobre a “Acção 5”, relativa à autoprodução e partilha de energia entre cidadãos. A Solar Heat Europe propõe que as comunidades energéticas passem igualmente a incentivar a partilha de calor renovável, facilitando a adopção de tecnologias solares térmicas.
Já no âmbito da “Acção 8”, dedicada ao combate à pobreza energética, a associação considera que Bruxelas deve reconhecer que a pobreza energética está fortemente ligada à incapacidade de aquecer habitações. Nesse sentido, defende que a futura recomendação europeia sobre pobreza energética destaque o papel do aquecimento renovável.
Investimento privado ganha destaque
Na Estratégia de Investimento em Energia Limpa, a Comissão Europeia aposta na mobilização de capital privado para acelerar a transição energética. Apesar de o documento dar prioridade às tecnologias eléctricas e às redes de energia, o sector solar térmico considera positiva a abertura ao financiamento de soluções limpas.
Um dos pontos mais relevantes é a intenção do Banco Europeu de Investimento de disponibilizar mais de 75 mil milhões de euros em financiamento ao longo dos próximos três anos para apoiar os objectivos climáticos e energéticos da União Europeia.
A Solar Heat Europe defende que parte desses fundos deve apoiar tecnologias solares térmicas produzidas na Europa, reforçando simultaneamente a indústria europeia e a independência energética do bloco.
O documento europeu destaca ainda iniciativas ligadas à eficiência energética, incluindo um projecto-piloto destinado a mobilizar 500 milhões de euros para acelerar modelos de “eficiência energética como serviço”, bem como programas específicos dirigidos às pequenas e médias empresas.
Ainda assim, o sector alerta para uma lacuna importante na “Acção 3” da estratégia de investimento, dedicada à redução de riscos em tecnologias inovadoras de produção e armazenamento de energia limpa. Segundo a associação, o texto continua demasiado centrado em soluções eléctricas, ignorando que metade das necessidades energéticas europeias está associada ao aquecimento.
Para os defensores do solar térmico, a transição energética europeia só será plenamente eficaz se integrar de forma mais ambiciosa as tecnologias de aquecimento renovável no centro das políticas públicas e dos mecanismos de financiamento.
Fotografia de destaque: © Solar Heat Europe





