Este artigo foi originalmente publicado na edição nº 162 da Edifícios e Energia (Novembro/Dezembro 2025).
Benidorm, conhecida pela sua marcante verticalidade urbana e pela intensa exposição solar, transformou-se num terreno fértil para implementar estratégias de reabilitação.
Duas torres, com vista privilegiada e a dois quilómetros da praia, foram o local escolhido para um projecto inovador: reabilitar através de sistemas solares fotovoltaicos. José Carlos Antón, director da Solar Earth Innovación y Tecnología SES, S.L., explica que a empresa “impulsiona soluções fotovoltaicas integradas à construção (BIPV), hidrogénio verde e gestão energética inteligente (Synaptia)” e acrescenta que “o objectivo principal é converter a envolvente arquitectónica num activo que produz energia eléctrica, reduz custos e melhora as métricas ESG (Ambiental, Social, Governação, em português) do edifício.”
O projecto insere-se no Plano Benidorm Visão 360, cujos eixos de actuação são a sustentabilidade, digitalização e competitividade. Em 2025, Benidorm venceu o prémio “Pioneiro Europeu Verde de Turismo Inteligente”, equivalente ao prémio “Capital Europeia do Turismo Inteligente”, mas para destinos mais pequenos e sustentáveis.
BENIDORM COMO “A 2.ª ÁREA URBANA MAIS DENSA EM ARRANHA-CÉUS DO MUNDO”
A escolha de Benidorm não foi por acaso. A cidade destaca-se por ter uma elevada concentração de edifícios em altura raramente vista na Europa, o que se traduz num perfil urbano com ainda mais área de fachada disponível por habitante. Mais fachada significa, portanto, mais exposição solar. Benidorm “é a segunda área urbana mais densa em arranha-céus do mundo, apenas atrás de Nova Iorque. Era o local ideal para demonstrar que a envolvente pode gerar energia limpa, melhorar o conforto e projectar uma imagem de cidade inovadora e sustentável”. Esta observação de José Carlos Antón justifica a escolha de um local onde a multiplicidade de superfície de fachada e a intensidade de radiação solar criam um saldo potencialmente favorável entre investimento e rendimento energético.
A selecção das torres Club Médico VI e VII, de 17 andares, com 100 habitações cada, obedeceu a critérios técnicos e de oportunidade. Foram escolhidas por três razões, tal como explica o director da Solar Earth: “viabilidade técnica (duas torres gémeas com orientações favoráveis e superfícies contínuas), vontade de reabilitação por parte da comunidade (momento perfeito para integrar BIPV) e potencial de replicação (mesma tipologia e gestão coordenada para escalar com rapidez).”
INOVAR SEM DEMOLIR
Tecnicamente, a intervenção consiste na colocação, sobre a envolvente existente, de “uma segunda `pele´ de vidro fotovoltaico arquitectónico, integrada num sistema de fachada ventilada e ancorada a uma subestrutura certificada e patenteada”. Além disso, “a intervenção é não invasiva: não se demolem nem se substituem os acabamentos e executa-se superfície a superfície, mantendo a operacionalidade do edifício”. Isto evidencia o enfoque de mínima intrusão, ou seja, a obra realiza-se por painéis, permitindo a continuidade de ocupação e reduzindo o impacto sobre os moradores durante a execução.
Os vidros fotovoltaicos utilizam a mesma tecnologia das tradicionais placas fotovoltaicas, no entanto, conferem uma estética mais agradável ao edifício, já que são transparentes ou semitransparentes. Assim, é possível cruzar design, funcionalidade e inovação. Os vidros utilizados neste projecto são “vidros temperados ou laminados, com células de silício cristalino encapsuladas entre lâminas de segurança, acabamento antirreflexo e, quando necessário, serigrafias cerâmicas” que respondem a exigências estéticas, como explica José. “A energia ´conduz-se` por canalizações protegidas até aos equipamentos de conversão e monitorização para o seu autoconsumo no edifício. Seleccionamos o tipo de célula e o grau de transparência superfície a superfície para equilibrar o desempenho e a homogeneidade estética. O sistema está certificado para uso em fachada e desenhado com critérios de durabilidade”. Desta forma, verifica-se a preocupação simultânea com o desempenho fotovoltaico, requisito construtivo e homogeneidade estética, elementos críticos em BIPV.
VIDROS FOTOVOLTAICOS COMO APOSTA GANHA
Comparada com painéis solares tradicionais, a solução BIPV em vidro traz vantagens claras, tanto funcionais como normativas. José Carlos Antón destaca que a abordagem “aproveita grandes superfícies de fachada, gera de forma mais estável ao longo do ano e reduz a procura de climatização. Além disso, não é um `painel´ adaptado, mas sim um material de fachada homologado: vidro temperado/ laminado com ensaios de resistência, impacto e durabilidade”. Segundo o director da Solar Earth, este produto está em conformidade com as normas europeias (marcação CE) como produto de construção (CPR – Regulamento de Produtos para a Construção, em português) e reacção ao fogo conforme a EN 13501-1. Quanto à parte fotovoltaica, cumpre a IEC 61215/61730, que se focam, respectivamente, na qualificação do design e performance, e na segurança eléctrica e mecânica da construção. Cumpre também a normativa específica IEC 63092 para BIPV, com documentação técnica e manutenção previstas para as envolventes do edifício. Além da produção energética, o vidro BIPV integra requisitos de segurança e certificação típicos de materiais de fachada, o que o distingue de um módulo fotovoltaico convencional fixado em cobertura.
As torres Club Médico VI e VII terão fachadas ventiladas de vidro fotovoltaico no total de cerca de 1200 metros quadrados integrados, além de pequenas instalações solares em coberturas e marquises. Serão ainda instaladas 688 unidades de vidro fotovoltaico, perfazendo cerca de 203 kWp (quilowatt-pico) de potência.
DESAFIOS EM ALTURA
Num projecto desta dimensão, a trabalhar em arranha-céus, há desafios técnicos inerentes ao trabalho, como a altura e o vento. José Carlos Antón ainda acrescenta a “integração eléctrica segura e estética de conjunto”, como outro desafio. “Resolveu-se com cálculo estrutural específico, rotas protegidas e uma engenharia por superfícies que cuida de alinhamentos e acabamentos”. Assim, verifica-se que o projecto acaba por trabalhar em três frentes: redimensionamento estrutural face às cargas de vento em altura, rotas seguras para a cablagem e uma engenharia por painéis que assegura alinhamentos e acabamentos, medidas essenciais para fiabilizar intervenções em fachadas expostas a condições marítimas e dinâmicas de pressão aerodinâmica”, o que é o caso destes edifícios que se encontram junto à orla costeira.
O director da Solar Earth, com anos de experiência na área, recorda que é importante analisar caso a caso. “Cada edifício é único, por isso, desenhamos soluções personalizadas e à medida, acautelando o detalhe estético, construtivo e operacional de cada secção ou superfície.”
“RENDIMENTOS PASSIVOS PARA A COMUNIDADE DURANTE 35 ANOS”
Os benefícios a curto e longo prazo são claros. Comparando com os painéis tradicionais, estes não necessitam de espaço adicional para serem colocados e confundem-se até com a estética do edifício, reduzem o consumo energético dos edifícios, melhoram o conforto térmico e acústico e, apesar do investimento inicial, a factura energética a pagar no final do mês pode trazer poupanças bem-vindas. “Este é considerado o único material de construção que é autossustentável, graças à poupança energética que vai alcançando ao longo dos anos. Consegue-se ter rendimentos passivos para a comunidade durante mais de 35 anos”, refere. O investimento em envolvente BIPV é aqui posicionado não apenas como custo de reabilitação, mas como activo gerador de rendimento ao longo de décadas.
O isolamento térmico e acústico das fachadas ventiladas reforça o conforto interior e protege contra intempéries. Como se trata de 100% de opacidade, as fachadas funcionam como `pele´ geradora de energia limpa, reduzindo ganhos de calor no verão e perdas térmicas no inverno. Este isolamento natural diminui cargas de ar condicionado e contribui para economia adicional de energia.
As estimativas de produção e de poupança colocam o projecto em patamares relevantes para a escala de um condomínio vertical. “Estimamos uma produção anual em torno dos 190 000 kWh (quilowatt-hora) e uma diminuição de 10 a 20% da procura de climatização nas fachadas tratadas. Estes números combinados traduzem reduções significativas na factura energética e na pegada carbónica do edifício”.
Quanto ao impacte energético e ambiental global, o projecto aponta para reduções substanciais: “A combinação de geração própria e menor necessidade de climatização reduz de forma directa o consumo eléctrico do edifício. Em termos de pegada ambiental, falamos da ordem das 45 a 60 toneladas de dióxido de carbono evitadas por ano, e quanto a consumos poder-se-iam atingir reduções de até 35% da procura energética das habitações.”
A energia gerada será orientada para o autoconsumo do próprio edifício, como zonas comuns, elevadores, climatização/ventilação e sistemas de aquecimento de águas. E acrescenta que, “quando aplicável, procede-se ao repartimento entre os vizinhos e à compensação de excedentes segundo a normativa em vigor”. Este é também um ponto crucial, que contribuiu para a aceitação comunitária do projecto. Os moradores veem, assim, mais benefícios directos.
POSSIBILIDADE DE REPLICAR O MODELO EM OUTROS EDIFÍCIOS
No plano regulamentar e de alinhamento com políticas energéticas, a intervenção enquadra-se nas directivas e metas europeias: “Alinha-se com o activo com a EPBD/ CTE (Directiva sobre o Desempenho Energético dos Edifícios/Código Técnico de Edificação Espanhol) e os objectivos ‘Fit for 55’, facilitando a elegibilidade na Taxonomia da União Europeia (UE) e abre a porta a certificações como LEED (Leadership in Energy and Environmental Design) ou BREEAM (Building Research Establishment Environmental Assessment Method)”. O Objectivo 55 (Fit for 55, em inglês) integra um conjunto de leis destinadas a reduzir as emissões de gases com efeito de estufa da UE em, pelo menos, 55% até 2030. O objectivo final é fazer com que a UE alcance a neutralidade carbónica em 2050. Quando questionado sobre a replicabilidade deste projecto inovador na Europa, a resposta é perentória: “Sim, claro. A metodologia por secções permite adaptar densidade, transparência e acabamentos a cada tipologia (residencial, hoteleira, escritórios) e orientar a produção para as horas de maior consumo e requisitos específicos.”
Do ponto de vista urbano, a aplicação de fachadas solares em contextos densos tem efeitos positivos que ultrapassam o edifício em si, uma vez que contribui para a redução da carga térmica urbana e contribui para mitigar ilhas de calor (pode chegar a diminuir 2 a 3 °C), diminui picos de procura na rede eléctrica local, potenciando, desta forma, a resiliência energética da cidade. A ambição de transformar fachadas em activos produtivos articula-se com estratégias municipais e regionais de descarbonização, e a experiência de Benidorm pode servir como referência para programas de reabilitação integrados que combinem eficiência, produção renovável e qualidade urbana. A modernização destas torres ilustra um passo concreto na meta de reabilitar energeticamente 1,2 milhões de habitações em Espanha até 2030, conforme a directiva 2018/844/EU.
Para que o projecto atinja os resultados prometidos, a monitorização e a validação operativa serão decisivas. José admite que as magnitudes são estimativas de engenharia “sujeitas a verificação final e monitorização”, e a recolha de dados em serviço permitirá validar os modelos, optimizar estratégias de operação e calibrar os modelos financeiros que sustentem a replicabilidade. A conjugação com armazenamento local, bombas de calor e gestão inteligente potencia o aproveitamento de excedentes e a redução de consumo em horas críticas, cenários que fazem parte do horizonte de desenvolvimento de soluções integradas.
A intervenção nas torres Club Médico VI e VII cristaliza uma visão clara: a envolvente deixa de ser apenas elemento passivo de protecção e passa a “ser um activo” que gera energia, reduz custos e melhora o conforto. Como resume o director da Solar Earth, “a envolvente deixa de ser um custo para se converter num activo: gera energia, melhora o conforto e comunica compromisso ambiental. Essa é a nova arquitectura: eficiente, bela e produtiva”.
O projecto recebeu apoio público institucional, com contribuições do Ministério espanhol de Habitação e da Generalitat Valenciana, através de fundos Next Generation EU, com um subsídio de cerca de dois milhões de euros para reabilitação energética. Esse financiamento cobre até 80% do investimento em tecnologias BIPV no âmbito do plano de recuperação europeu. Prevê-se que o projecto esteja concluído em Junho de 2026.
Benidorm poderá servir de exemplo para outras cidades mediterrânicas com tipologias semelhantes, demonstrando que a arquitectura tecnológica é um vector tangível para a construção sustentável do futuro.
Fotografia de destaque: © Solar Earth Innovación y Tecnología SES, S.L.





