Na última nota de abertura, falámos de fragilidade. Falámos num início de ano de 2018 preso por fios nos mais variados domínios. Uma sensação estranha. Haja boa disposição, mas estamos sempre à espreita com aquele sentimento de que tudo pode mudar muito rapidamente. Viver e trabalhar com pouca ou nenhuma rede de segurança torna-nos especialistas em muitas coisas mas nenhuma delas nos interessa verdadeiramente. Preferíamos estar de outra forma e de viver de outra maneira. E não falo de segurança cómoda. Falo em haver condições para se trabalhar bem, com responsabilidade e criar valor. Criar valor agora e para o futuro. Qualquer um destes factores é uma raridade neste momento.
O problema é que esta fragilidade instalou-se completamente. Na economia, na política e nos mais variados sectores de actividade. A construção e reabilitação furam a escala. Já ninguém acredita na mão do Estado, quando as cedências aos grupos económicos são chocantes e até criminosas. Nesta nossa área da energia e dos edifícios, sabemos do que falamos. E não podemos ter medo de apontar o dedo. É inacreditável o que deixámos que acontecesse. Como vamos agora inverter esta fragilidade ou esta irresponsabilidade? A principal dificuldade está no paradoxo do actual momento que vivemos. Uma realidade quase bipolar. É que esta fragilidade está disfarçada de contrastes esmagadores. Está disfarçada de euforias descontroladas à volta daquilo que o turismo está a trazer.
A principal dificuldade está no paradoxo do actual momento que vivemos. Uma realidade quase bipolar. É que esta fragilidade está disfarçada de contrastes esmagadores. Está disfarçada de euforias descontroladas à volta daquilo que o turismo está a trazer.
Talvez tenha chegado a hora de pormos os pés no chão. Sair desta esquizofrenia da inovação, dos “summits à la carte” e voltarmos a pensar nas coisas com critério e estratégia. Temos duas oportunidades de imediato que podemos agarrar, haja lucidez e boa vontade. O tema das auditorias da Qualidade do Ar Interior (QAI) é muito mais abrangente porque toca numa série de vectores. Neste tema de capa, procuramos falar daquilo que é realmente importante. Podemos começar a endireitar a mão por aqui. Porque, muito em breve, a nova Directiva para os Edifícios vai chegar e terá de ser transposta para a regulamentação nacional. Que tal voltar a pegar no desígnio da Eficiência Energética? Uma estratégia a longo prazo que faça uma reflexão do que vai mal e apenas corrija alguns pontos essenciais. Não precisamos de muito. Já temos quase tudo. Precisamos só de colocar as coisas no sítio certo e garantir que funcionam de facto e bem! Infelizmente, no nosso país, têm de existir duas figuras para que as coisas se façam com qualidade: aquele que executa e aquele que fiscaliza. Não há volta a dar.
Não nos interessa o número de certificados emitidos se, pelo caminho, o que vemos é assustador. Esta directiva não vai mudar muito daquilo que já temos em termos formais. Vai incluir a ligação da mobilidade eléctrica aos edifícios com a obrigatoriedade de carregamentos, mas isso já temos para os novos edifícios. À boa maneira portuguesa, temos tudo. Também tínhamos a QAI! Enquanto andamos distraídos com o boom do turismo e com as reabilitações mal feitas e à pressa, os outros países avançam com projectos inovadores na área da sustentabilidade com benefícios para as comunidades locais. Aí, a inovação e as políticas públicas são sociais. São feitas em benefício da comunidade e das pessoas. Nós, por cá, voltámos para trás!
Adrian Joyce (pág.46 nesta revista), secretário-geral da EuroACE (European Alliance of Companies for Energy Efficiency in Buildings), deixa um aviso: “O Governo português deverá garantir que todas as intervenções são à prova de futuro e que cumprem com os requisitos de eficiência energética e de qualidade mais elevados, ainda antes da introdução e implementação da estratégia de longo prazo obrigatória. Não o fazer irá conduzir a um bloqueio do potencial lamentável e que, no futuro, custará caro a Portugal!
Será que é em 2018 que vamos dar a volta a isto?
As opiniões expressas são da responsabilidade dos autores.





