A Comissão Europeia prepara-se para apresentar um pacote de medidas para responder à crise energética na União Europeia, num contexto de forte instabilidade nos mercados internacionais provocada pela escalada do conflito no Médio Oriente. A proposta, a divulgar esta quarta-feira, combina medidas imediatas de contenção com orientações estratégicas para reforçar a resiliência energética.
Para além de recomendações de curto prazo de apelo à redução do consumo, incluindo o incentivo ao teletrabalho e à utilização de alternativas ao transporte individual e aéreo, Bruxelas sugere ainda ajustes técnicos com impacto imediato, como a optimização dos sistemas de ar condicionado em edifícios públicos e a regulação da temperatura das caldeiras domésticas abaixo dos 50 °C.
O pacote de medidas inclui também apoios dirigidos às famílias mais vulneráveis, como vales de energia, preços regulados temporariamente e reduções selectivas de impostos sobre a electricidade. Está igualmente prevista a possibilidade de proibir cortes no fornecimento de energia em períodos críticos. No caso das empresas, o foco passa por acelerar investimentos em eficiência energética, energias renováveis e substituição de equipamentos obsoletos.
Estas medidas surgem num momento em que a UE enfrenta os efeitos indirectos dos ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irão, e da resposta iraniana, que têm provocado volatilidade nos preços da energia. Apesar de não existirem, para já, falhas no abastecimento, os impactos já se fazem sentir nos custos suportados por famílias e empresas.
Aproxima-se um Verão “bastante difícil”
Numa entrevista recente ao jornal espanhol La Vanguardia, o comissário europeu para a Energia e Habitação, Dan Jørgensen, deixou um alerta sobre a evolução da crise. “Na melhor das hipóteses, temos que nos preparar para um Verão bastante difícil”, afirmou, acrescentando que a situação energética é “muito grave” e poderá deteriorar-se ainda mais devido às perturbações nos mercados globais.
O responsável foi mais longe ao admitir que os efeitos da crise poderão prolongar-se mesmo após o fim do conflito: “Mesmo que a paz seja declarada amanhã, enfrentaremos semanas, meses e até anos de dificuldades no que diz respeito aos preços da energia”. Jørgensen destacou ainda os danos em infraestruturas de gás natural na região do Catar, que poderão demorar anos a recuperar, mantendo a pressão sobre os preços.
No sector petrolífero, o comissário reconheceu que a estabilização poderá ser mais rápida, mas alertou para riscos imediatos: “Apenas algumas semanas podem ser cruciais se ficarmos sem combustível de aviação ou diesel, ou se enfrentarmos problemas de abastecimento”. Entre os impactos mais visíveis, apontou o aumento dos custos no transporte aéreo, avisando que “voar ficará mais caro e, em alguns casos, poderemos até ver cancelamentos”.
Perante este cenário, Bruxelas pretende reforçar a coordenação entre os Estados-Membros, nomeadamente no enchimento das reservas de gás e na eventual utilização de reservas estratégicas de petróleo. Está também em cima da mesa uma maior flexibilidade nas regras de auxílios estatais para apoiar sectores mais expostos.
A crise atual evidencia, uma vez mais, a vulnerabilidade da União Europeia, que continua altamente dependente de importações de combustíveis fósseis. Segundo dados referidos pelo próprio comissário, o bloco gasta anualmente mais de 370 mil milhões de euros nessas importações, um valor que aumentou significativamente desde o início do conflito com o Irão.
Para Dan Jørgensen, esta crise deve ser encarada como um ponto de viragem: “Numa situação de escassez, o objectivo deve ser reduzir o consumo, não aumentá-lo”, afirmou, defendendo que o momento actual deve servir de alerta para acelerar a transição para energias renováveis.
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