Artigo publicado originalmente na edição de Março/Abril de 2025 da Edifícios e Energia.
Já imaginou viver numa casa onde há conforto térmico, o ar é limpo, os níveis de eficiência energética são elevados e ainda tem uma boa acústica e isolamento? É esta a proposta da Passive House (ou “Casa Passiva”, em português), um conceito que veio para ficar e que quer chegar a mais públicos para que todos possam viver em condições dignas.
O conceito de “Passive House” deriva do alemão “Passivhaus” e os principais focos são a eficiência energética, o conforto térmico e a qualidade do ar interior. Em Portugal, o conceito só começou a surgir em 2012 com a Associação Passive House, uma organização sem fins lucrativos e que tem o intuito de promover o conceito de Passive House, disseminar eventos, entre outros. A Homegrid foi a empresa fundadora desta associação em território nacional e é responsável por fazer a ponte com o Passive House Institute, da Alemanha.

Joana Cortinhas, arquitecta, membro da direcção da Passive House Portugal, designer certificada Passive House e formadora na associação, explica que o surgimento do conceito em Portugal se deveu à iniciativa de João Marcelino, actual presidente da Associação Passive House. Durante a construção da sua própria casa, João enfrentou desafios para equilibrar o conforto térmico, a eficiência energética e a qualidade do ar: “Ele tentou encontrar algo que respondesse às questões que tinha elaborado: como é que podia ter conforto sem gastar tanta energia em casa, como é que podia ter as janelas bem instaladas e como é que podia garantir qualidade do ar dentro de casa.”
Assim, inspirado pelo Passive House Institute, na Alemanha, e juntamente com outros profissionais, João Marcelino trouxe o conceito para Portugal, conseguindo o tal equilíbrio que procurava. “Durante a construção da sua casa, ele encontrou o conceito Passive House e o Passive House Institute. Foi directamente à conferência, tirou os cursos necessários e implementou, desde logo, o modelo na casa dele”, explica Joana Cortinhas.
Desde então, a associação tem-se dedicado a disseminar este conceito. “Temos já uma rede com mais de 60 parceiros, ou seja, empresas que têm já produtos preparados para implementarem a Passive House. O nosso objectivo é fazer esta ligação entre o cliente final, o consumidor final e todas as empresas que já têm soluções preparadas poderem implementá-las no mercado. A nossa ideia é criar e desenvolver esta rede de parceiros, que, no fundo, facilita essa interligação com os próprios projectistas e clientes finais.”

No entanto, a implementação do conceito em Portugal não foi fácil. “O início foi um arranque difícil, porque foi um conceito que não estava nada disseminado em Portugal, e as pessoas receberam a Passive House sempre com muita resistência”, admite. Ainda assim, a arquitecta refere que as pessoas estão cada vez mais informadas sobre este conceito e que a procura é cada vez maior. Havendo já exemplos reais no país, torna-se também mais fácil mostrar resultados. A associação procura mostrar que “não é algo complicado, mas sim uma solução acessível e sustentável.”
Já existem dez edifícios certificados em Portugal. Desde Évora, passando por Mafra e até Penafiel, estes edifícios são, na maior parte, residenciais. Joana Cortinhas dá o exemplo de um cliente, cuja casa ainda está em construção, ou seja, “ainda não tem instalados os sistemas de aquecimento e de ventilação a funcionar, simplesmente tem a casa isolada, com as janelas bem instaladas e o que dizem é que já sentem um conforto fora do comum e que, mesmo em construção, a casa já é mais confortável do que a anterior.”
Embora haja edifícios que foram construídos segundo as linhas orientadoras de uma Passive House, nem todos os clientes finais querem avançar com a certificação. “Temos dezenas ou centenas de edifícios que foram construídos segundo este conceito, mas que depois não avançaram para a certificação”, explica a arquitecta.
REQUISITOS, FLEXIBILIDADE E BENEFÍCIOS
Para construir uma Passive House, existem vários requisitos que têm de ser cumpridos, no entanto, há uma grande abrangência em relação ao caminho a seguir para atingir este tipo de certificação. O local onde é construído e os materiais utilizados não são factores, mas existem alguns limites a ter em atenção, tal como esclarece Joana Cortinhas: “Tem de ser tudo muito organizado. Por exemplo, temos de construir uma parede com um coeficiente de transmissão térmica que não passe determinado limite. Depois, temos de conjugar a construção da parede, dos pavimentos e da cobertura de modo a não ultrapassarmos os 15 quilowatt-hora, que é o limite das necessidades de energia. Temos de usar caixilharia com bom desempenho térmico, porque não é o material em si com que nós fazemos o balanço energético, é com os resultados, os valores, sobretudo, dos coeficientes de transmissão térmica, é com isso que trabalhamos.”

Assim, qualquer tipo de construção pode atingir o desempenho Passive House se, desde o início, houver esta consciência. “Se é uma parede de alvenaria, se é uma parede LSF (light steel framing ou estrutura de aço leve, em português), madeira, o que importa é o desempenho da casa e como é que depois se monta tudo para não haver falhas no isolamento, pontes térmicas na instalação das janelas, por exemplo.”
Viver numa Passive House é não ter de lidar com os problemas comuns das casas portuguesas: “Os edifícios não têm patologias, não há bolor nem humidade, tão infelizmente característica das casas portuguesas. Não temos pessoas a morrer de frio no Inverno, temos as casas frescas no Verão”. Além de tudo isto, a qualidade do ar interior é filtrada, através de um sistema de ventilação, o que permite que se respire um ar mais saudável dentro da casa. “Filtra-se o ar, removem-se as partículas e também se recupera calor, ou seja, estamos a insuflar ar filtrado e limpo dentro de casa”, remata Joana Cortinhas. Assim, existe uma recirculação do ar, o que não permite que ele se torne pesado. “O ar é extraído de onde ele fica mais sujo, ou seja, casas de banho, cozinhas ou zonas técnicas, zonas de arrumo.
Estamos a extrair ar e a insuflá-lo onde as pessoas passam mais tempo, isto é, salas, quartos, escritórios, bibliotecas. Isto garante uma taxa de renovação suficiente dentro daquele edifício o que faz com que o ar tenha oxigénio suficiente”. Acrescenta ainda que descrever estes benefícios não se compara a senti-los em primeira mão: “Podia descrever mil e uma coisas, mas só mesmo sentindo é que se percebe o que é respirar ar com qualidade suficiente.”

A importância da regeneração do ar deve-se ao facto de existir demasiado dióxido de carbono, o que é prejudicial para a saúde. “Estudos que já foram feitos mostram que se num espaço existir acima de mil ppm, ou seja, mil partes por milhão, de CO2, há uma quebra enorme no desempenho das pessoas, na capacidade de tomar iniciativa, entre outras, e isto também pode ser uma explicação pela qual nas escolas, que têm uma concentração de CO2 acima de mil/dois mil ppm, os alunos não se mantêm atentos, não conseguem ter bom desempenho escolar. O mesmo nos escritórios.”
O conforto térmico é um ponto essencial do projecto. A arquitecta explica que, quando uma Passive House é planeada, tem em conta a sua temperatura, sendo que “no Inverno tem no mínimo 20.ºC e no Verão não ultrapassa os 25.ºC”. O conforto acústico é outro benefício a ter em conta. Actualmente, a maior parte da população vive em cidades, onde o barulho é, por vezes, incomodativo e excessivo. Joana Cortinhas diz mesmo que “nas grandes áreas metropolitanas as pessoas não conseguem descansar, não conseguem ter um sono tranquilo, regenerar durante a noite, o que é muito importante para termos energia para o dia seguinte. Já há vários estudos feitos que concluem que dentro de uma Passive House se consegue reduzir o ruído para cerca de metade do que aquilo que é um edifício convencional”.
A arquitecta conta até a sua experiência pessoal. Vive numa Passive House há dez anos e diz que estava preparada para o conforto térmico de que tanto se fala, mas não para o conforto acústico: “não vais preparado para sentir silêncio dentro de casa; é estranhamente silencioso entrar numa Passive House.”
Outra vantagem deste tipo de solução é que é economicamente acessível. Portugal tem o denominado “clima feliz” e, por isso, não é caro construir uma casa segundo este conceito. “Os custos são practicamente os mesmos de uma construção convencional, mas depois temos, obviamente, as poupanças mensais na factura da electricidade”. Joana Cortinhas, que experiencia estas vantagens em primeira mão, revela que no seu T2, no pico do Inverno, o máximo que pagou de electricidade foram 37€. Na casa antiga chegava a pagar entre 100€ e 150€ e não tinha conforto térmico. “Estava no quarto, ligava o aquecedor no quarto, ia para a sala, ligava o aquecedor na sala, ia tomar banho, ligava o aquecedor na casa do banho…, numa Passive House isso não acontece, porque funciona como um todo, o ambiente da casa está à mesma temperatura, tem a mesma qualidade do ar.”
Um dos destaques do conceito é a durabilidade dos edifícios, que exigem pouca manutenção ao longo dos anos. Por exemplo, o “pai” da Passive House, Wolfgang Feist, “continua a viver numa e a ter os mesmos resultados desde o início da construção, dos anos 90”, observa Joana Cortinhas. Como a casa não está exposta a grandes variações de temperatura e humidade, “não tem tantos problemas e não precisa de tanta manutenção”. A única exigência é a troca de filtros da unidade de ventilação e manutenção normal dos sistemas. “Se for bem feito, vai durar uma vida toda, sem grandes problemas de manutenção.”
IMPACTO E ADAPTAÇÃO ÀS NORMAS EUROPEIAS
Com a implementação da Directiva Europeia de Desempenho Energético dos Edifícios, Portugal caminha para uma construção mais sustentável. No entanto, as casas Passive House já estão alinhadas com essas exigências. “Uma Passive House consegue ser sempre um edifício de energia quase zero, mas um edifício de energia quase zero nem sempre consegue ser uma Passive House”, explica Joana Cortinhas, enfatizando que o conceito está à frente das regulamentações actuais.
A IMPORTÂNCIA DA FORMAÇÃO: PASSIVE HOUSE CENTER, EM POMBAL
O Passive House Center, em Pombal, nasceu em 2023. Surgiu a necessidade de existir um local dedicado a formação práctica sobre a Passive House, como forma de aproximar clientes, empresas e de disseminar o conceito. A formação teórica já existe quase desde o início da criação da Associação Passive House em Portugal, mas passado quase dez anos a formação deu mais um passo em frente. “Estávamos a sentir cada vez mais esta necessidade de ter um sítio onde as pessoas pudessem fazer, elas próprias, com a mão na massa, e passarem um bocadinho da teoria para a práctica, terem contacto directo com os materiais, com as empresas que fornecem os materiais e aplicam o produto e tentarmos desmistificar alguns aspectos que podem ainda persistir”. Quem já frequentou, recomenda e é isso que faz com que a equipa portuguesa se mantenha motivada para continuar a trabalhar. “O feedback tem sido fantástico, as pessoas participam, montam janelas, aplicam isolamento; têm mesmo uma percepção de como é que é a realidade em obra e isso é muito bom, porque depois, tanto se forem donos de obra ou projectistas, podem estar no local e perceber como é que a solução é aplicada.”

Além disso, destes workshops surgem novas soluções que depois são implementadas. Joana Cortinhas dá o exemplo de um que envolvia vários parceiros e onde as várias empresas trabalharam em conjunto algo que ainda não existia relacionado com a instalação de janelas, de continuidade do isolamento e de garantir a estanquidade do ar. “Isso foi trabalhado naquele workshop e acabou por ficar desenhada uma nova solução que funciona”. Todos podem participar e os workshops são gratuitos para os sócios da Passive House Portugal.
Outras iniciativas incluem formações em parceria com a Ordem dos Arquitectos e a certificação de edifícios de grande escala. “Estamos a finalizar a certificação da sede da Danosa em Portugal, o primeiro edifício não residencial certificado. Achamos que este pode ser um projecto que impulsione outros com características semelhantes.”
O FUTURO DA CONSTRUÇÃO
Na Escócia, a partir de 2028, todos os edifícios que forem construídos têm de seguir os critérios de uma Passive House. Existe um período de adaptação entre 2026 e 2028 para que todas as empresas se adaptem e comecem a mudar a forma como antes pensavam os edifícios e a adoptar uma alternativa mais duradoura e saudável para todos. Também outros países como a Alemanha, o berço da Passive House, a Irlanda ou o Luxemburgo estão a criar leis nesse sentido. Em Portugal, ainda não existe nada semelhante. A arquitecta espera que com a disseminação do conceito e com o aumento da preocupação da qualidade de vida se esteja cada vez mais perto de que todos vivam nestas condições. E acrescenta: “só não fazemos, se não quisermos.”
The House of Bavarian History, na Alemanha, é o maior museu do mundo certificado como uma Passive House. Desde Agosto de 2022 que este museu poupou, no total, durante o processo operacional, 65 mil quilowatts por hora. O maior desafio encontrado foi a manutenção da temperatura dentro do museu, independentemente do número de visitantes em cada sala. Uma temperatura mais estável acaba também por ajudar a preservar as exposições a longo prazo.
O movimento, já consolidado em outros países, começa a ganhar força em Portugal, trazendo a promessa de um futuro onde casas sustentáveis sejam a norma, não a excepção. “A Passive House é mais do que uma certificação; é um conceito que garante conforto, sustentabilidade e qualidade de vida”, conclui Joana Cortinhas.





