Este artigo foi originalmente publicado na edição nº 161 da Edifícios e Energia (Setembro/Outubro 2025).
O potencial geotérmico em Portugal continental é limitado, mas Chaves destaca-se por ser uma cidade pioneira na exploração geotérmica no país.
A energia geotérmica é classificada conforme a entalpia do recurso térmico (temperatura) e o modo de exploração. Existem três tipos de sistemas: baixa entalpia (até cerca de 100 °C), média entalpia (entre os 100 e 150 °C) e alta entalpia (mais de 150 °C). O caso de Chaves é de baixa entalpia, ou seja, recorre-se a bombas de calor geotérmicas (Ground Source Heat Pump – GSHP), instaladas a poucos metros de profundidade, que transferem calor do subsolo para aquecer edifícios (ou arrefecer no Verão) por meio de um fluido em circuito fechado.
A construção desta nova rede no interior do país começou em 2021, embora já nos anos 80 se tivesse verificado a utilização de energia geotérmica em edifícios. A solução diferenciadora está na utilização de permutadores de calor: a água termal passa apenas pelos permutadores, cede calor a um circuito de água de rede em circuito fechado, e só depois é arrefecida e consumida no balneário e no complexo de piscinas termal. A previsão original de 24 edifícios ligados à rede de calor mantém-se, apesar de, até agora, só estarem seis ligados à rede e a funcionar na totalidade.
A rede urbana geotérmica cobre cerca de 2,6 km de tubagens na cidade, fornecendo aquecimento 100% limpo e renovável. Apesar de atrasos causados pela pandemia da Covid-19, em 2020, e pela descoberta de achados arqueológicos, o sistema está agora operacional e em fase de contratação dos consumidores.
Este longo percurso, desde a década de 80 até 2025, consolidou Chaves como um caso de referência no aproveitamento geotérmico urbano.
O PODER DA GEOTERMIA EM CHAVES
A rede urbana de Chaves integra as captações termais existentes e vários edifícios públicos e privados no centro histórico. A água termal é captada a 76 °C e conduzida a permutadores térmicos numa central de produção. Joaquim Esteves, da Câmara Municipal de Chaves e engenheiro mecânico, explica que “o elemento diferenciador foram os permutadores, porque a água termal só chega até aí”. Assim, o calor é transferido para a rede de aquecimento urbano, preservando a termalidade das águas para uso balnear. A água volta depois à fonte térmica a cerca de 64 °C, fazendo com que o sistema consuma apenas a diferença térmica necessária.
O caudal de água disponível é de cerca de 15,6 metros cúbicos/hora, aproveitado ao máximo pelos permutadores na central geotérmica. A infraestrutura do sistema inclui um software de gestão avançado, que recolhe dados em tempo real sobre consumos, potências e temperaturas. “Temos um software espectacular que nos vai dar todos os dados, todos os consumos, todos os valores”. Cada edifício ligado surge identificado e monitorizado: o sistema mostra o setpoint de potência autorizado e a percentagem de ocupação, bem como a disponibilidade energética (por exemplo, o balneário termal dispõe de 350 kW (Kilowatt) e consome 86 kW, neste momento). A rede total dispõe de cerca de 3,3 MW (Megawatt) térmicos de capacidade (potência térmica dos furos), valor que atende confortavelmente à actual procura.
A operação diária faz-se por gestão automática. Em cada edifício há válvulas de controlo que podem fechar progressivamente a distribuição, caso a carga total exceda a capacidade. De acordo com o engenheiro mecânico da Câmara Municipal de Chaves, “já está gerada a fórmula de gestão de picos no Inverno”: quando o consumo ultrapassa a oferta, todos os consumidores vão perdendo, de forma gradual, o acesso (primeiro a 5%, depois a 10% e assim sucessivamente) para equilibrar a rede. Esse algoritmo de controlo já está implementado no software e apenas entraria em acção durante o Inverno em situações extremas.
Em conjunto, a rede de calor de Chaves funciona como uma enorme instalação central de aquecimento, alimentando os edifícios (hotéis, escolas, museus, serviços públicos) com água quente. Todos eles estão equipados com permutadores secundários individuais (já concluídos a 100% nos 24 edifícios), de modo que cada edifício receba apenas a água da rede (não termal), usando-a nos “radiadores, ventiloconvectores ou unidades de tratamento de ar, as chamadas UTAMs, não funcionam em sistemas de ar-condicionado”.
Características principais (redes e sistemas):
Comprimento da rede: aproximadamente 2,6 km de condutas enterradas;
Temperaturas de serviço: cerca de 76 °C de fonte termal e, aproximadamente, 65 °C na rede de consumo;
Caudal termal: 15,6 m³/h (proveniente das captações termais);
Potência térmica total das captações: aproximadamente 3,3 MW;
Gestão e contagem: software SCADA com medição de caudal e temperaturas, implantação de contadores de entalpia nos edifícios (para facturação).
O projecto sofreu alguns atrasos, mas aquilo que encontraram valeu a pena: achados arqueológicos. O engenheiro relembra também que, há uns anos, durante a construção de um parque de estacionamento se encontrou termas milenares, “um achado a nível mundial, devido à volumetria e conservação – um complexo de duas piscinas, zonas de hidromassagem, zonas de águas limpas, zonas de águas sujas”. Deste achado, nasceu o Museu das Termas Romanas, que pode visitar-se de forma gratuita.
IMPACTO ECONÓMICO E ENERGÉTICO JÁ SE FAZ SENTIR
A utilização da geotermia traz ganhos económicos e energéticos substanciais. Joaquim Esteves sublinha que, embora não tenham definido ainda o tarifário final, a energia geotérmica será cobrada, “garantidamente, abaixo dos 50% [do custo actual]”. Em consequência, espera-se que os consumos sejam drasticamente mais baratos. Como exemplo, o engenheiro refere o Hotel Aquae Flaviae: actualmente, consome cerca de 40 mil euros mensais em gás ou electricidade, mas com o sistema geotérmico passará a “pagar 20% do valor da energia de que necessita.”
Estima-se, assim, que os edifícios ligados à rede reduzam os seus gastos de energia térmica em, aproximadamente, 80%, produzindo poupanças de dezenas de milhares de euros por ano. Essa redução de custos é vista como uma âncora para a economia local: hotéis e comércio beneficiam de tarifas mais baixas, o que torna a estadia e as actividades em Chaves mais competitivas e atractivas.

Tal como explica Joaquim Esteves, “um hotel que tem energia mais barata, consegue promover melhor a cidade”, fortalecendo o turismo termal e o dinamismo económico da região. Além das poupanças directas, o sistema poderá gerar receitas para o município. Embora ainda sem valores finais, prevê-se cobrar um preço de fornecimento inferior às energias convencionais, mas não gratuito, de modo a viabilizar o investimento. A nova rede pode reduzir em, pelo menos, 200 mil euros por ano a factura energética do município, que, actualmente, ronda os três milhões de euros por ano.
Estes ganhos energéticos e financeiros são motivadores para replicar o modelo noutras cidades frias ou regiões térmicas, mas a sustentabilidade do sistema de Chaves continua dependente da sua gestão técnica e tarifária cuidadosas.
Durante este processo, nasceu o complexo de termas Aquae Salutem. “É mesmo um projecto fora da caixa. É um complexo de piscinas termais, sobre uma rocha artificial. Como são piscinas dinâmicas, existe uma casa de máquinas tremenda, com 53 bombas, tem saunas, turcos, jacuzzis, depois tem uma zona dos sensoriais, com som, luz, simulando trovoadas, vento, fontes de gelo.”
MENOS DIÓXIDO DE CARBONO, MAIS ÁREAS VERDES
O projecto geotérmico de Chaves destaca-se pelo significativo ganho ambiental associado. Primeiro, porque substitui combustíveis fósseis de elevado impacto. Como enfatiza o engenheiro, “este projecto prevê uma redução superior a 1400 toneladas de dióxido de carbono por ano”. Esta redução é significativa: compara-se a uma “mini-barragem em termos de potência de produção energética, mas sem os impactes ambientais negativos” inerentes às grandes centrais térmicas. O recurso geotérmico é limpo e renovável, não poluente: “em Chaves, nota-se que o ambiente é puro, limpo, não há smogs, não há poluição.”

Na área circundante das captações e tubagens existem hoje muitos espaços verdes. Além disso, o projecto reforça a estratégia de descarbonização a nível local e nacional. Joaquim Esteves reforça que o município faz a sua parte quanto à redução das emissões de dióxido de carbono. Cada tonelada deste gás poupada é relevante para ajudar no combate às alterações climáticas, cada vez mais evidentes.
No âmbito do Pacto Ecológico Europeu e das metas climáticas definidas, a União Europeia comprometeu-se a atingir a neutralidade carbónica até 2050. A geotermia, por ser uma fonte renovável constante e de baixa emissão, entra como solução estratégica nessas metas.
A própria Direcção-Geral de Energia e Geologia realça que a geotermia é uma “solução sustentável para a descarbonização, reduzindo a dependência de combustíveis fósseis” nos sectores residencial, industrial, serviços e agrícola.
Assim, nos cenários de energia de 2050, a geotermia contribuirá para a segurança do sistema (fonte estável de electricidade renovável e calor) e para a neutralidade carbónica, complementando energia solar, eólica e outras renováveis.
E PARA O FUTURO? EXPANDIR A REDE É O OBJECTIVO
O projecto de Chaves não se limita aos 24 edifícios iniciais. O próximo passo será expandir a rede de calor na cidade. Essa expansão poderá incluir consumidores residenciais (condomínios) e sectores hoje fora do sistema. Entretanto, o crescimento enfrenta desafios técnicos e logísticos. Um problema sazonal imediato é o desnível de consumo Inverno/Verão: no Verão, o calor urbano praticamente desaparece e a rede fica com capacidade ociosa. Para evitar desperdício, o sistema passou a injectar a água termal excedente nas piscinas da cidade (garantindo assim uso 24h).
Outro desafio futuro é o alcance geográfico da rede. Para levar a geotermia a bairros mais distantes, seria preciso estender quilómetros de tubagem subterrânea, o que implica custos altos e interferências urbanas. Na fase actual, optou-se por clientes como hotéis, museus, escolas, justamente porque “a água termal está sempre a ser consumida” nesses edifícios. Levar tubos a habitações isoladas num bairro periférico pode não ser economicamente viável até haver volume crítico de adesão.
As perspectivas de expansão da rede geotérmica de Chaves são positivas, mas dependerão de equilibrar investimentos e consumos. Os principais desafios – sazonalidade dos usos, custos de extensão de redes, gestão de capacidade – estão a ser enfrentados com ferramentas técnicas (software de regulação, contagem remota, planeamento de expansão) e medidas de apoio local. Conforme conclui o engenheiro, “sim, é possível” crescer além desta fase inicial, desde que a estrutura técnica e tarifária evolua paralelamente.





