Ao lado de uma reabilitação que tem sido apontada como um desastre em termos de qualidade construtiva e energética, há um novo mundo que nos dá alento. Hoje, os grandes investidores estrangeiros que alavancam a economia vieram para ficar e não prescindem da qualidade. Aumenta a procura pelos sistemas de certificação voluntária. Uma surpresa cujo estímulo é exterior e que contrasta com a ausência de uma causa nacional para a energia e sustentabilidade.

 

Correr atrás do desígnio da sustentabilidade pareceu-nos um bom ponto de partida por várias razões. Precisamos de saber por onde anda este conceito aparentemente desaparecido e se, de facto, saiu da agenda, se foi esmagado por esta onda de reabilitação urbana ou se já faz parte, idealmente, daquilo que é a prática corrente.

Há quanto tempo não ouvimos falar de edifícios verdes? Carbono zero e net zero energy buildings, entre outros, desviaram-nos, porventura, a atenção para conceitos abstractos ou perto da abstração nos quais ainda não nos sentimos confortáveis. Estávamos focados na sustentabilidade dos nossos edifícios ao nível do desempenho dos sistemas de energia, água, resíduos, aspectos construtivos, integração no local, envolvente, resiliência e, agora, também na mobilidade. Mas onde param estas componentes e esta estratégia?

A boa notícia é que as boas práticas existem e “com mais força”, asseguram-nos os agentes do mercado, mas numa realidade paralela e silenciosa, na qual a falta de comunicação e de sensibilização das entidades responsáveis lhe tiram o brio.

Do outro lado, um contraste esmagador – a ausência total destas preocupações atropeladas por milhares de reabilitações feitas para ontem, onde o preço e a falta de qualidade dominam. Intervenções possíveis uma vez que estão protegidas por legislação que as desobriga de quase tudo – os regimes de excepção, como é o caso do RERU, que empurram este desígnio para debaixo do tapete e privilegiam a alavancagem do sector da construção e dinamização da economia.

Precisávamos desta alavancagem. Estamos todos de acordo. Até porque temos uma notória dificuldade na criação de regras fáceis, ágeis e sem entropias que ajudem as empresas e a economia em geral. Mas o tudo ou nada não é, nem nunca, foi o melhor caminho e, sobre isso, também estamos todos de acordo, só que este vamos pagá-lo caro no futuro. O equilíbrio era possível. Uma conclusão unânime e que hoje, apenas hoje, todos começam a denunciar.

Quando falamos em sustentabilidade, andamos, portanto, a duas velocidade e em dois mundos totalmente diferentes. Ambos marcados pela ausência de um desígnio ou de uma estratégia para o país. Não se vê o Estado a incentivar ou a corrigir. Não se vê o Estado a promover ou a dedicar a sua atenção a estes temas. Há intenções na área do arrendamento e a consciência de que esse é um problema para a classe média actualmente. Vamos ver o que acontece.

Neste momento, estes temas que nos interessam a todos têm outros drivers. Outras forças, que são marioritariamente privadas. Interessa-nos uma força muito positiva e estruturante que parece que está para ficar, sobretudo e para já, nos grandes edifícios.  Espera-se, em breve, também na habitação e de uma forma sistémica. Os novos investidores e promotores, os fundos imobiliários internacionais e as empresas que os representam no nosso país não só alavancaram o sector da construção, como o estão a profissionalizar, a desenvolver e a transformar no sentido da qualidade.

As classes energéticas ou os selos dos vários sistemas de certificação são uma condição indispensável neste mercado como factor de garantia de qualidade e valorização. Um mercado que está a crescer e onde as maiores empresas internacionais se estão a instalar. Não há espaços disponíveis em Lisboa para escritórios que satisfaçam a procura. A lista de espera já é grande e os projectos começam a aparecer em força! Já há muitos edifícios que vão avançar. E edifícios muito bons do ponto de vista da sustentabilidade. Estas empresas querem qualidade até porque, na maioria dos casos, os investidores são também os promotores e os futuros donos dos edifícios que os vão gerir para os próximos anos. Uma mudança que nos poderá ajudar e muito.

O turismo e o alojamento local já estam a deixar de ser a estrela da companhia e a nova habitação poderá estar na mira destas empresas. Temos uma classe média que precisa urgentemente de habitação. Tudo indica que o pacote legislativo para a Habitação vai incentivar o arrendamento. Há boas perspectivas. Estamos na moda, temos alma, somos um país seguro e ainda continuamos a ser baratos.

“Para Manuel Duarte Pinheiro, “entre os princípios que se advogam ao nível da regulamentação e respectivas especificações, eventualmente, nem sempre são consistentes ou operacionais. Sabemos que o nosso SCE tem feito caminho e dado passos importantes, mas tudo o que é a componente bioclimática ainda não é estruturalmente integrada, sobretudo, na reabilitação”.

No caminho da sustentabilidade

É este mundo novo de oferta, procura, dramas e oportunidades que interessa desvendar e caracterizar. Não queremos correr o risco de olhar apenas para um lado da moeda. Há uma cadeia de agentes indispensável no rumo da sustentabilidade. “Estamos com mais procura no sentido de responder aos promotores imobiliários com soluções que conduzam a uma melhor qualidade e sustentabilidade dos edifícios”. Quem o afirma é Ricardo Sá da Edifícios Saudáveis. Uma certeza partilhada por Manuel Duarte Pinheiro do LideRA e Almeida Guerra da Rock Building. De facto, tudo tem mudado de uma forma muito rápida. Almeida Guerra trabalha para muitos destes novos players e identifica mais do que duas forças no mercado. “A qualidade não nasce no vácuo e tudo começa nos projectistas, nomeadamente quando são ou não capazes de transmitir ao dono da obra a necessidade de soluções que valorizam o seu empreendimento. É aqui que nascem os maiores problemas e as maiores soluções. Felizmente, existem bons promotores em Portugal que percebem perfeitamente que ter uma certificação A, já lhes dá, por exemplo, uma maior capacidade negocial. Ter um LEED Gold é melhor do que não ter LEED nenhum. Estas forças existem e temos de as situar em vários níveis: ao nível do projectista; ao nível do gestor do projecto, que é o caso da nossa empresa; num terceiro nível, temos o promotor investidor; num quarto nível, muito importante, está o empreiteiro e subempreiteiro. Às vezes, queremos desenhar muito bem as soluções, mas acabam por aparecer os empreiteiros que as inviabilizam com custos elevadíssimos; uma quinta força está, naturalmente, no comportamento do mercado”. Para este gestor, estas forças digladiam-se entre elas e é muito importante que cada uma encontre o seu espaço quando se quer avançar com processos construtivos de melhor qualidade e classificações/certificações elevadas.

Mas onde poderá estar a maior fragilidade? Almeida Guerra identifica “a generalizada falta de conhecimento do lado do projecto para se encontrar soluções financeiramente viáveis”. Uma opinião que pode ser controversa se pensarmos nas limitações de algumas tecnologias que nem sempre são amigas do projecto. “Nas Torres de Lisboa, na altura, não consegui colocar fotovoltaico porque o payback eram 25 anos. As coisas, hoje, estão melhores, mas, com paybacks no fotovoltaico na ordem dos 15 anos, quem vai investir?” E explica o seu ponto de vista: “há tecnológicas de implementação no fotovoltaico que são menos onerosas do lado do investimento. Temos de procurar sempre a qualidade, mas com o preço ajustado de forma a que o mercado a possa ajustar”.

Já Manuel Duarte Pinheiro considera que nem sempre são dadas as condições aos projectistas. “Alguns dos gabinetes do ponto de vista do projecto e da engenharia nem sempre têm a formação para estas temáticas”. E elenca outra realidade: “Fala-se que os valores do projecto são esmagados e isso leva a que os gabinetes tentem normalizar e, muitas vezes, quase replicar outros projectos com pequenas mudanças porque não têm hipótese de o fazer de outra maneira. E isso é o pior sítio onde se pode reduzir o investimento, porque leva a que as pessoas entrem nos edifícios e estes não dêem as respostas mais elementares”.

Ricardo Sá, da Edifícios Saudáveis, identifica a crescente procura do lado dos promotores especulativos. Isto é, aqueles que “constroem para comercializar e, portanto, apenas beneficiam da eficiência se a conseguirem transformar em valor no momento da comercialização”. Uma nova tendência, para este consultor, que “sofreu um importante impulso por via do grande reconhecimento internacional de alguns selos, nomeadamente o LEED e o BREEAM”.

 

BREEAM

O BREEAM – Building Research Establishment Environmental Assessment Method foi o primeiro programa de certificação ambiental, inicialmente pensado para o Reino Unido, mas que rapidamente ganhou escala mundial. Aplica-se a edifícios individuais (novos, reabilitações ou existentes), comunidades e projectos de infra-estruturas, e nas várias fases do ciclo de vida, desde a concepção à operação e reabilitação. O BREEAM classifica a sustentabilidade dos empreendimentos com base em dez áreas: energia, saúde e bem-estar, inovação, uso do solo, materiais, gestão, poluição, transportes, resíduos e água.

 

LEED

LEED, ou Leadership in Energy and Environmental Design, é, provavelmente o sistema de avaliação e certificação de sustentabilidade com mais escala e prestígio internacional. Surgiu nos anos 2000, pelas mãos do US Green Building Council, e reconhece as boas práticas no âmbito da sustentabilidade em edifícios e comunidades, classificando-os de acordo com nove critérios: 1) processo de integração; 2) localização e transporte; 3) locais sustentáveis; 4) eficiência hídrica; 5) energia e ambiente; 6) materiais e recursos; 7) qualidade do ar interior; 8) inovação; 9) prioridade regional. Com base nos pontos alcançados, a certificação final poderá ter a classificação Platinum (>80 pontos), Gold (60-79 pontos), Silver (50-59) ou simplesmente Certified (40-49 pontos). O LEED está presente em mais de 165 países e territórios e pode ser aplicado a todo o tipo de edifícios, inclusivamente aqueles que estão ainda em fase de projecto.

 

Mas não são só os privados que estão no leme. A Edifícios Saudáveis sublinha algum interesse do Estado neste tema, nomeadamente pela certificação LEED, “quer directamente, optando pela certificação de edifícios que estão a promover, quer indirectamente, optando por condicionar determinadas operações urbanísticas à obtenção deste tipo de selos”. Uma abordagem muito séria, do ponto de vista de Ricardo Sá, “na medida em que estas entidades, reconhecendo que não têm competências internas para aferir da sustentabilidade de um determinado empreendimento, delegam essa função a entidades internacionais, independentes e especializadas no tema”.

Regras vs. qualidade

As directivas de Bruxelas apontam a direcção, ou apontavam eventualmente com mais determinação antes da crise. Com curvas e contracurvas, há uma orientação, mas será que há um desígnio europeu real do ponto de vista da operacionalidade? Ou seja, será suficiente criar um modelo e esperar que ele seja replicado de igual maneira em todos os países? E serão as metas suficientes para que as coisas se façam? Não deveria a legislação dos Estados-Membros ser mais activa e

 

RERU – DL 53/2014

Em vigor desde Abril de 2014, o Regime de Excepção para a Reabilitação Urbana (RERU) teve como objectivo promover a reabilitação de edifícios de uso habitacional com mais de 30 anos ou localizados em áreas de reabilitação urbana, estimando-se uma redução de até 40 % nos custos da reabilitação. Durante um período de sete anos, os projectos de reabilitação ficam dispensados de cumprir com requisitos mínimos de eficiência energética desde que se verifiquem incompatibilidades de ordem técnica, funcional ou de valor arquitectónico. Já no caso da qualidade térmica, está prevista a isenção por incompatibilidades de viabilidade económica, e, no uso de tecnologias renováveis aplicam-se tanto as razões técnicas, como as económicas. A aplicação destas excepções exige, em qualquer dos casos, um termo de responsabilidade subscrito pelo técnico autor do projecto.

 

crítica quando se trata de transpor e adequar essas metas à nossa realidade? Uma teia de perguntas que, no nosso caso, resulta, muitas vezes, num emaranhado de diplomas difíceis, exigentes e que, na maioria dos casos, desincentiva qualquer prática. Espera-se mais dos nossos governantes, sobretudo, em termos de comunicação. Neste aspecto particular, o vazio é gritante. Para Manuel Duarte Pinheiro, esta é uma enorme fragilidade. “A sustentabilidade não saiu da agenda” porque, considera, houve uma evolução importante em vários aspectos, mas existe também uma realidade na qual a “reabilitação é feita à pressa com o objectivo de colocar os imóveis no mercado, por vezes, sem a preocupação quanto ao seu desempenho a vários níveis”. A margem de manobra em relação à reabilitação é enorme, como todos sabemos. Metade do parque edificado nas grandes cidades ainda está por reabilitar. No resto do país, o potencial é ainda maior. Mas que impacto vão ter estas intervenções no futuro? Para Manuel D. Pinheiro, por um lado, “há alguns problemas e não é invulgar sabermos de edifícios premium na Av. da Liberdade e outros com valores de 6 000 euros/m2 nos quais algumas medidas, como os isolamentos, e desempenho nem sempre são adequadamente considerados em desfavor do timing de os conseguir colocar no mercado. Por outro lado, tem havido muita reabilitação que tem procurado esta qualidade, embora isso ainda não seja sistémico”.

Para Almeida Guerra, são vários os obstáculos ao desenvolvimento das boas práticas e da qualidade e ironiza. “Tenho pena de que o A+ (SCE – Sistema de Certificação Energética) seja tão exigente. Nunca consegui fazer nenhum! Nem sei se alguém já o conseguiu em grandes edifícios!”. Para Duarte Pinheiro, “entre os princípios que se advogam ao nível da regulamentação e respectivas especificações, eventualmente, nem sempre são consistentes ou operacionais. Sabemos que o nosso SCE tem feito caminho e dado passos importantes, mas tudo o que é a componente bioclimática ainda não é estruturalmente integrada, sobretudo, na reabilitação. Ou seja, há um gap. Há uma limitação entre aquilo que são os princípios e aquilo que é a operacionalização do SCE. E quando falamos dos drivers, o primeiro é a legislação. A legislação é óptima nos princípios, mas, depois, na prática, não é. E começa pelo próprio Estado, que não a aplica!”. Para este especialista – professor do DECivil do Instituto Superior Técnico e responsável pelo desenvolvimento do LiderA: Sistema Voluntário para a Avaliação da Construção Sustentável –, a nossa legislação devia focar-se mais no desempenho do que noutras componentes, nomeadamente em termos energéticos, carbono, água, e integrar a componente vegetação e outras dimensões. “Somos poucos práticos e, como a legislação é cheia de boas intenções, por vezes, criam-se facilmente obstáculos. Não sei quantas pessoas acham que a CE é útil. Eu acho que é útil. Ajudou a melhorar o desempenho, mas ainda poderia fazer melhor. Vai continuar a fazê-lo com a mobilidade eléctrica e eficiência hídrica. Estas coisas vão ter de entrar na legislação, mas não de uma forma prescritiva. A comunicação está na sensibilização para a criação de valor. Em dizer às pessoas que, em vez de terem o mínimo, podem ter mais e isso pode ser vantajoso. É isto que falta. O problema não é legislativo. Não há um problema de investimento, mas de mentalidades”.

Legislação vs. operacionalidade

Em resumo, poderemos ter uma legislação excessivamente exigente em alguns aspectos mas que, eventualmente, não incorpora holisticamente as componentes e os degraus necessários que dêem resposta a uma visão mais integrada daquilo que queremos em termos de sustentabilidade. E as fragilidades são muitas. A denúncia é pública em vários domínios. São muitas as vozes que reclamam a forma como resolvemos as situações. Andamos a mascarar as soluções “verdes” com equipamentos eficientes. Uma realidade que agora começa a ser corrigida, mas que não está resolvida. Depois, criam-se regimes de excepção, como o RERU (ver caixa), que deitam por terra todos estes temas. O objectivo: reabilitar rápido nos centros urbanos sem constrangimentos burocráticos e obrigações que retirem a rentabilidade ao produto! Há que dar resposta à procura do turismo e animar a economia! Tudo certo, mas, à boa maneira portuguesa, não houve equilíbrio. Somos o tudo ou nada. “Por alguma razão o LNEC e o Instituto Superior Técnico se insurgiram contra esse regime de excepção”, denuncia Almeida Guerra. “Há que ver caso a caso. Há muitas circunstâncias onde não há alternativa mas, na maioria dos casos, há. Portugal não tem problemas de legislação. Só precisamos de pôr o bom senso a trabalhar. O principal drama está nas estruturas. As câmaras municipais e a Direcção Geral do Património Cultural não querem deixar mexer nas estruturas e nas fachadas e, quando houver um sismo, corremos o risco que caia tudo, porque há mais cargas nos edifícios e as estruturas estão mais frágeis. A reabilitação urbana é um desastre em termos de qualidade estrutural. É tudo muito bonito, mas a saúde do edifício é o chassi. As entidades estão a cometer um erro muito grande que tem a ver com a falta de diferenciação entre proteger o edificado e fazer o bem para o futuro e para a sua reconstrução. Confunde-se aquilo que é o património cultural com o guardar religiosamente o que está feito”. E é por estas e outras razões que, para este gestor, os edifícios de serviços estão muito mais adiantados em relação à qualidade energética, de desempenho e de sustentabilidade, no geral.

Por sua vez, Ricardo Sá desmistifica a dificuldade em reabilitar bem. “Alguns promotores que nos procuram expressam preocupação pelas limitações que estão associadas a um processo de reabilitação. Mas essa é uma falsa questão, os sistemas reconhecem naturalmente os méritos ambientais de uma reabilitação (uso do solo, materiais, etc.) e estas partem frequentemente com algum avanço face a intervenções de construção de edifícios de raiz. É claro que, pontualmente, nos deparamos com modelos de negócio em que a qualidade não é salvaguardada. Imagine-se uma parceria em que a construtora projecta e constrói um edifício com base num programa funcional em que o dono-de-obra irá suportar os custos de exploração… Se esta operação não for suportada por um bom caderno de encargos, rigoroso, detalhado e competente, não vão estar criadas as condições no sentido da eficiência. Mas, uma vez mais, a culpa é de quem não salvaguarda devidamente a sua posição”.

 

LiderA

O LiderA é o sistema de certificação de sustentabilidade made in Portugal. Desenvolvido por Manuel Duarte Pinheiro, professor do Instituto Superior Técnico em 2005, incide em três níveis – estratégico, projecto e gestão do ciclo de vida – e pode ser aplicado a edifícios, ambientes construídos e comunidades sustentáveis. A avaliação é feita com base em seis princípios: integração local; recursos; cargas ambientais; conforto ambiental; vivência sócio-económica; e uso sustentável.  

 

HQE

Originário de França, a certificação HQE (High Quality Environmental) surgiu há mais de 20 anos, com base numa norma com o mesmo nome. Pode ser aplicada a moradias isoladas, edifícios residenciais e não residenciais, assim como a projectos urbanísticos, nas várias fases do ciclo de vida. Este sistema de certificação francês foca-se nos temas da eficiência energética, respeito pelo meio ambiente, saúde e conforto dos ocupantes.

 

A cadeia de produção é decisiva nestes temas. Tudo tem de funcionar desde o princípio. Para Manuel D. Pinheiro, “o que acontece é que ainda hoje muitos arquitectos não executam as boas práticas de forma completamente holística do ponto de vista da sustentabilidade. Fazem-no frequentemente pela forma ou pelas outras dimensões. Por outro lado e não menos importante, temos o mercado que nem sempre está preparado para dar resposta. Por exemplo, num edifício que temos em colaboração com os serviços municipalizados de água, em determinada altura, foi aprovada a reutilização e a reciclagem de água tratada. Foram aprovados dois edifícios com essas características. Mais tarde, mudaram os técnicos que já recusaram o mesmo sistema em novos edifícios. Isto revela que há alguma dificuldade e, sobretudo no sector da construção, que nem sempre é estruturalmente inovador. Mesmo com um projecto interessante, nem sempre é fácil fazer a sua implementação. Falta um controlo estrutural do ponto de vista da qualidade”. De facto, e se falarmos em termos de valores, a construção sustentável quer no nosso país, quer fora, ainda não é dominante. Mesmo nos países de origem dos mais conhecidos sistemas de certificação como o LEED ou o BREEAM. Acontece o mesmo com o HQE francês, DGNB, apesar de estes estarem a ganhar dimensão. “É provável que, a médio prazo, [estes] tenham um papel mais importante. Não estou seguro de que os consumidores tenham consciência da qualidade daquilo que compram e esse é um factor que, nalguns países nórdicos, alavanca o aumento da procura da sustentabilidade, mas que, em Portugal, ainda não”. Nos grandes edifícios e quando os promotores são os gestores, normalmente a procura aumenta, nomeadamente a preocupação sobre os custos no ciclo de vida do edifício. “Cerca de 20 a 30 % dos promotores/gestores já têm essas preocupações e intenções. Depois, surgem as dificuldades na cadeia de produção. O que significa, na prática, que, muitas vezes, essas boas ficam reduzidas para 2 % a 5 % em termos de concretização”.

 

“Estamos com mais procura no sentido de responder aos promotores imobiliários com soluções que conduzam a uma melhor qualidade e sustentabilidade dos edifícios”. Quem o afirma é Ricardo Sá da Edifícios Saudáveis.

Os sistemas de certificação voluntários

A primeira questão que se coloca está em saber se estas soluções compensam o investimento porque a pertinência não se questiona. Para Manuel Pinheiro do LiderA, “fazer uma classe A+ está ao preço de uma boa prática desde o momento em que tenha havido um bom investimento. Ou seja, onde o projecto possa ter sido mais caro mas a construção tenha resultado mais barata. Este processo é normalmente mais caro entre 5 % a 15 %, com um payback que ronda os oito a dez anos nos edifícios novos e dez nas reabilitações. É importante ganharmos escala e introduzirmos outros sistemas, como o fotovoltaico, a mobilidade eléctrica… Estas intervenções têm de ser dinamizadas como a primeira linha estratégica. A segunda é uma linha de incerteza e é a criação de valor. As pessoas podem ser mais exigentes para que, eventualmente, os edifícios acabem por satisfazer as suas várias necessidades e flexibilidade. A reabilitação não é só um problema de má funcionalidade, mas também de mutação do mercado e os edifícios nem sempre são parametrizados para esta flexibilidade. Estamos muito focados num mercado do turismo com uma determinada tipologia que nada garante que se vá manter de uma forma tão significativa”.

 

DGNB

Desenvolvido na Alemanha, o DGNB System é, hoje, uma marca global, cujos requisitos são adaptáveis aos vários países em que é aplicado. O sistema dispõe de 50 critérios de sustentabilidade, avaliando a qualidade dos projectos (que podem ser espaços interiores, edifícios e bairros) nas áreas ambiental, económica, sociocultural, técnica, processual e ainda o impacto no ambiente envolvente. Em 2018, o DGNB lançou uma nova versão, que inclui parâmetros inovadores como o foco nas pessoas, a economia circular, a inovação ou ainda a conformidade com as regras europeias.

 

Recorrer aos sistemas de certificação é uma prática comum da Rock Building. “Fazemos questão de os promover junto dos promotores com quem trabalhamos. É muito urgente ter certificações de qualidade. A primeira coisa que os fundos americanos e alemães que compram muito em Portugal, como investidores, pedem é a classificação dos imóveis. Há uma enorme oportunidade para investir em edifícios de serviços e escritórios. Os escritórios são destinados ao mercado do arrendamento e os investidores internacionais valorizam muito estas coisas. Até porque há outro agente recente que são as empresas internacionais que fazem as diligências técnicas para os fundos, e essas organizações já estão muito avançadas nestes temas. Mas também pedem a certificação das fachadas, a resistência ao vento, etc.”, refere Almeida Guerra. Aqui, as competências nacionais são um ponto de honra para a Rock Building. “Temos sempre o acompanhamento do LNEC na certificação das fachadas, porque elas são o maior drama para se construir com qualidade um edifício. Esta componente tem a ver com a energia, com a luminosidade… E se não for um bom sistema testado no LNEC pode dar asneira. O LEED, ou outro sistema, é uma consequência da qualidade que queremos implementar e, se o conseguirmos fazer, a classificação aparece. Já trabalhámos com o LiderA num projecto com a EPAL. Vamos aplicar o BREEAM num projecto de grande dimensão muito importante que vai avançar em breve e temos o edifício de escritórios da Fontes Pereira de Melo, que já está a avançar com o LEED”.

 

5 a 15%

é quanto acresce normalmente a construção sustentável. O payback anda nos oito a dez anos nos edifícios novos e dez nas reabilitações.

Mas será que os sistemas internacionais são facilmente implementados e adequados ao nosso país? Para o responsável do LiderA, “dá algum jeito que os sistemas sejam ajustados à realidade onde existem. Para além disso, em termos de custo não se compara. Mas o marketing lá de fora é muito bom, de facto. Neste momento, temos cerca de 500 assessores certificados pelo LiderA e um sistema que é ajustado à realidade portuguesa, embora já esteja em Angola e Brasil. Nestes países, o sistema teve mudanças estruturais grandes”, relata Duarte Pinheiro.

“A quantidade de solicitações que temos tido para aplicação dos sistemas LEED e/ou BREEAM até a nós nos deixou surpreendidos!”, exclama Ricardo Sá. O pipeline de certificação actual da Edifícios Saudáveis inclui um conjunto de edifícios “cuja área ascende a cerca de 500 000 m2 das mais diversas tipologias (escritórios, hotelaria, retalho, indústria, etc.)”. Ricardo Sá elenca quatro vantagens destas soluções: eficiência no uso de recursos (economia na operação), qualidade do ambiente interior (conforto térmico, qualidade do ar interior, etc.), reconhecimento (que, nomeadamente no caso de operações especulativas – construir para comercializar –, permite transformar a eficiência e a qualidade do ambiente interior em valor no momento da comercialização) e contributo para a imagem de marca”.

Quando falamos em custos, “é difícil associar um investimento a estes processos de certificação porque no final aquilo que sabemos é quanto custou o edifício que foi construído e não quanto é que custaria um edifício diferente que não tivesse beneficiado do processo de certificação. Por isso, prefiro falar em custos totais: a título de exemplo, o primeiro edifício certificado pelo LEED em Portugal (edifício de escritórios, inaugurado em 2010) custou cerca de 900 euros/m2, o mais barato cerca de 700 euros/m2 (edifício de ensino superior, inaugurado em 2013). Quem conhece os custos específicos da construção sabe que não são valores elevados. A título de exemplo, no caso do edifício que custou cerca de 700 euros/m2, a certificação induziu ganhos de eficiência que se traduziram em economias de energia e água que se estimam em 45 000 euros/ano (cerca de 20 % dos custos totais)”, conclui Ricardo Sá.