Este artigo foi originalmente publicado na edição nº 167 da Edifícios e Energia (Setembro/Outubro 2026)
Braga quer acelerar a renovação energética do seu parque edificado, colocando os edifícios no centro da estratégia municipal com o objectivo de reduzir emissões, combater a pobreza energética e reforçar a resiliência às alterações climáticas. Em entrevista à Edifícios e Energia, João Rodrigues, presidente da Câmara Municipal de Braga, explica as prioridades do município, os principais projectos em curso e os desafios que terão de ser ultrapassados para que as metas climáticas se transformem em intervenções concretas no território.
Os edifícios assumem, cada vez mais, um lugar de destaque na estratégia climática de Braga. Num concelho, com mais de 40 mil edifícios, onde o sector residencial continua a ser o maior consumidor de energia eléctrica e os usos estacionários de energia representam uma parte significativa das emissões de gases com efeito de estufa, a renovação energética do parque edificado surge como uma das principais alavancas para reduzir consumos, reduzir emissões e melhorar a qualidade de vida da população.
Consciente deste desafio, o município pretende acelerar a reabilitação energética dos edifícios, conjugando a renovação do património municipal com incentivos dirigidos aos privados, apoio técnico aos cidadãos e medidas de combate à pobreza energética. A aposta integra o Plano Municipal de Acção Climática (PMAC-Braga), que identifica a energia como uma das áreas prioritárias da política climática local e estabelece um conjunto de medidas para aproximar o concelho da neutralidade carbónica até 2050.
Um parque edificado com potencial para evoluir
O diagnóstico traçado pelo PMAC revela a dimensão do desafio. Segundo os Censos de 2021, Braga contabilizava 40 214 edifícios, cerca de 99% dos quais exclusivamente residenciais. O parque edificado cresceu 12% face ao período censitário anterior, acima da média da região Norte e da sub-região do Cávado, mas continua a concentrar uma parcela significativa do consumo energético e das emissões do concelho.
Os dados mostram que, entre 2011 e 2020, o consumo total de energia eléctrica em Braga praticamente não se alterou, registando um aumento de apenas 1%. No entanto, o sector residencial manteve-se como o maior consumidor em 2021, com 35% do total do concelho (232 969 MWh/ano) e quase um quinto das emissões de dióxido de carbono equivalente. Apesar das medidas de eficiência energética implementadas ao longo da última década, a procura de energia eléctrica aumentou 2% entre 2011 e 2020 no sector residencial.
Uma estratégia para a descarbonização
Ao contrário de sectores onde a renovação ocorre de forma mais rápida, os edifícios têm uma vida útil de várias décadas, o que torna a sua reabilitação energética um processo gradual. Cada intervenção realizada terá impacto no consumo de energia, nas emissões e nas condições de conforto durante muitos anos, o que reforça a importância de planear a renovação do edificado numa perspectiva de longo prazo.
À Edifícios e Energia, o presidente da Câmara Municipal de Braga, João Rodrigues, contou que a descarbonização dos edifícios deve traduzir-se em benefícios concretos para a população. “Casas mais confortáveis, menor despesa energética, maior eficiência no uso dos recursos e maior capacidade de resposta às alterações climáticas” resumem a visão que orienta a estratégia municipal, enquadrada pelo Plano de Acção para a Energia Sustentável e o Clima (PAESC) e pela adesão ao Pacto de Autarcas para o Clima e Energia.
Segundo o autarca, o município assumiu inicialmente o compromisso de reduzir em pelo menos 40% as emissões de gases com efeito de estufa até 2030, meta, entretanto, reforçada para uma redução mínima de 55%. “É sinal da determinação em acelerar a descarbonização de forma gradual, equitativa e sustentada, projectando uma trajectória consistente rumo à neutralidade climática até 2050”, afirmou.
João Rodrigues defendeu ainda que esta transformação não deve ser encarada apenas como uma resposta às metas climáticas. A estratégia municipal, explicou, procura também reduzir a pobreza energética, promover a utilização de energias renováveis e melhorar a qualidade habitacional.
Da estratégia à acção
Para concretizar esta estratégia, o município tem vindo a desenvolver um conjunto de iniciativas que procuram acelerar a renovação energética do parque edificado, ao conjugar aconselhamento técnico, apoio financeiro, produção de energia renovável e intervenção directa junto das famílias mais vulneráveis.
Um dos principais instrumentos é o Espaço Energia, um serviço gratuito de proximidade que presta apoio aos munícipes na redução dos consumos energéticos, na melhoria do conforto térmico das habitações e no acesso a incentivos disponíveis para a realização de obras de eficiência energética. Segundo João Rodrigues, este espaço funciona também como ponto de informação sobre soluções de produção de energia renovável e outras medidas que permitam reduzir a factura energética das famílias.
O património municipal não fica de fora. De acordo com o presidente da Câmara, “cabe à Câmara Municipal facilitar, agregar e dar o exemplo”, apostando na reabilitação energética dos edifícios públicos, na melhoria da eficiência dos consumos e na instalação de sistemas de produção de energia renovável, nomeadamente soluções fotovoltaicas destinadas ao autoconsumo.
A componente social assume igualmente um papel central nesta estratégia. Através da BragaHabit, o município concluiu a segunda edição do Programa Municipal de Combate à Pobreza Energética, apoiando 184 famílias em situação de vulnerabilidade, com um investimento superior a 457 mil euros.
Para o presidente da Câmara, esta dimensão social é indissociável da política energética do município. “A transição energética deve chegar também às famílias com menor capacidade de investimento”, defende, sublinhando que a redução da pobreza energética constitui um dos pilares da estratégia municipal para garantir que os benefícios da reabilitação do edificado são partilhados por toda a população.
Paralelamente, Braga tem vindo a apostar na criação de modelos de produção e partilha de energia à escala local. O município promove a instalação de sistemas fotovoltaicos em edifícios públicos e pretende impulsionar o desenvolvimento de soluções de autoconsumo individual e colectivo, bem como de Comunidades de Energia Renovável, encaradas pelo autarca como instrumentos fundamentais para reduzir emissões, reforçar a autonomia energética e democratizar o acesso à energia limpa.
Esta estratégia traduz-se também em iniciativas concretas. Entre elas está o concurso lançado pelo município para a instalação de sistemas fotovoltaicos em edifícios municipais. Conheça, na página 20 desta revista, como Braga pretende transformar 30 edifícios municipais em produtores de energia renovável e quais os impactos esperados para o concelho.
Segundo João Rodrigues, estas soluções permitem aproveitar de forma mais eficiente o potencial de produção de energia renovável no concelho, promovendo modelos de consumo mais descentralizados e colaborativos. Ao envolver cidadãos, empresas e entidades públicas na produção e partilha de electricidade, as Comunidades de Energia Renovável podem contribuir para reduzir a dependência da rede eléctrica convencional, diminuir os custos energéticos e aumentar a participação da comunidade na transição energética.
Para o município, a expansão destes modelos representa também uma oportunidade para acelerar a descarbonização do parque edificado. A utilização de energia produzida localmente, associada à melhoria do desempenho energético dos edifícios, é vista como uma forma de reforçar a eficiência do sistema energético urbano e de aproximar os benefícios da transição energética dos consumidores.
Projectos em curso
O município de Braga integra o projecto europeu SaveEnergyTogether, cofinanciado pelo programa LIFE e desenvolvido em parceria com a ADENE, que apoia famílias vulneráveis através de diagnóstico energético, aconselhamento e acções de literacia energética.
No Bairro Social das Andorinhas, o projecto-piloto Sun4All testa soluções para melhorar o acesso à energia em contexto de habitação social, procurando reduzir os custos energéticos e aumentar o conforto das famílias.
Estas iniciativas são complementadas por acções de sensibilização e pela adopção de soluções baseadas na natureza, numa estratégia que alia investimento, proximidade aos cidadãos e avaliação do impacto das medidas implementadas.
Para lá da eficiência energética
A aposta na renovação do parque edificado não resulta apenas da necessidade de reduzir o consumo de energia. Para o município, os edifícios concentram vários dos desafios colocados pelas alterações climáticas, desde a mitigação das emissões até à adaptação a fenómenos extremos, como as ondas de calor.
O PMAC identifica diversas zonas do concelho particularmente expostas às ondas de calor e conclui que a vulnerabilidade resulta não apenas da idade da população, mas também das características do parque edificado, do estado de conservação dos edifícios e da escassez de espaços verdes. Neste contexto, a reabilitação energética é apontada como uma medida capaz de responder simultaneamente aos desafios da mitigação e da adaptação às alterações climáticas.
A melhoria do desempenho energético dos edifícios traduz-se, por isso, não apenas numa redução das emissões e dos consumos, mas também na criação de habitações capazes de oferecer melhores condições de conforto térmico ao longo de todo o ano e de responder aos efeitos cada vez mais frequentes das alterações climáticas.
Esta visão integrada faz da renovação do parque edificado uma das principais apostas da estratégia climática de Braga. No entanto, a dimensão do investimento necessário, a complexidade técnica de algumas soluções e a necessidade de mobilizar cidadãos e empresas fazem com que a concretização das metas definidas pelo município dependa de factores que vão além da actuação da própria autarquia.
Os desafios da execução
João Rodrigues reconhece que o financiamento constitui o principal obstáculo. A escala das intervenções necessárias nos edifícios, afirma, obriga o município a recorrer de forma significativa a fundos comunitários e a gerir criteriosamente os recursos próprios. “Os constrangimentos financeiros são os mais imediatos”, admite, pelo que muitas das medidas previstas dificilmente seriam executadas apenas com recurso ao orçamento municipal.
O presidente da Câmara chama ainda a atenção para outro desafio: uma parte significativa das medidas previstas depende da adesão dos próprios cidadãos, empresas e instituições. A reabilitação energética das habitações, a instalação de sistemas de produção renovável ou a participação em Comunidades de Energia Renovável exigem investimento, informação e uma mudança de comportamentos que não pode ser assegurada exclusivamente pela administração local.
A estes factores juntam-se os constrangimentos técnicos e administrativos. A implementação de soluções como o autoconsumo colectivo, as Comuniddes de Energia Renovável ou a reabilitação energética profunda implica processos de licenciamento, modelos contratuais e enquadramentos regulamentares complexos, que envolvem diferentes entidades e podem atrasar a concretização dos projectos.
Para responder a estes constrangimentos, o município aposta numa abordagem integrada, assente no planeamento estratégico, na participação em projectos europeus e no reforço das parcerias institucionais.
O objectivo, explica João Rodrigues, é garantir que a transição energética avança sem agravar desigualdades e que os benefícios da renovação do parque edificado chegam a toda a população: “O desafio central é transformar planos e metas em execução concreta, com ganhos mensuráveis para o território e para as pessoas”, resume o autarca
Um investimento para o futuro da cidade
Naturalmente, a renovação do parque edificado não irá produzir resultados imediatos. Trata-se de um processo gradual, que exigirá investimento continuado soluções técnicas adaptadas, financiamento e o envolvimento das várias partes interessadas. Mas é também uma das áreas onde Braga identifica maior potencial para reduzir emissões, aumentar a eficiência energética e melhorar as condições de habitabilidade.
Com o aumento dos custos da energia e pelos efeitos cada vez mais evidentes das alterações climáticas, a transformação dos edifícios assume um papel que ultrapassa a dimensão ambiental. Habitações mais eficientes significam menores consumos, maior conforto térmico e uma melhor capacidade de resposta a fenómenos extremos, como as ondas de calor, contribuindo simultaneamente para combater a pobreza energética e reforçar a resiliência do território.
É por isso que a renovação energética dos edifícios ocupa um lugar central na estratégia climática do município. Entre metas ambiciosas e desafios de execução, o sucesso dessa aposta será medido menos pelos planos traçados do que pela capacidade de os transformar em intervenções concretas, capazes de melhorar a qualidade de vida da população e preparar Braga para um futuro mais descarbonizado.
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Pergunta & resposta
Entre os projectos já desenvolvidos ou previstos pelo município na área da energia, eficiência energética e sustentabilidade dos edifícios, quais considera mais relevantes?

João Rodrigues: Há cinco iniciativas que, pela sua força política e ligação directa à vida das pessoas, merecem maior destaque.
No planeamento e apoio à decisão, a Plataforma do Potencial Solar de Braga e o Bio Roofs constituem ferramentas de referência que permitem a cidadãos, empresas e instituições avaliar o potencial solar dos seus edifícios e explorar soluções baseadas na natureza, contribuindo directamente para o investimento em autoconsumo.
Na promoção das energias renováveis, o Concurso Público para a Cedência Temporária de Espaços Municipais é a iniciativa mais estruturante, ao disponibilizar infraestrutura pública para a instalação de unidades de produção renovável em modelos de autoconsumo individual, colectivo e CER.
No apoio ao cidadão, o Espaço Energia e os programas de combate à pobreza energética da BragaHabit representam a face mais directa da política municipal, garantindo que a transição energética chega também às famílias com menos recursos.
Toda esta acção é enquadrada pelo PAESC (Plano de Acção para a Energia Sustentável e o Clima) e pelo PMAC (Plano Municipal de Acção Climática), que definem as metas e as medidas para a descarbonização do território, com uma ambição clara de reduzir as emissões de CO2 em pelo menos 55% até 2030 e alcançar a neutralidade climática até 2050.
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