Este artigo foi originalmente publicado na edição nº 163 da Edifícios e Energia (Janeiro/Fevereiro 2026).
O Science Gateway do CERN é um novo centro educativo e de divulgação científica, projectado pelo arquitecto italiano Renzo Piano, que combina design arrojado e alta eficiência energética. Dividido em cinco módulos interligados, o Science Gateway usa recursos como energia solar e florestação para atingir a neutralidade de carbono, enquanto oferece laboratórios e exposições interactivas para visitantes de todas as idades.
Situado em Genebra e construído inteiramente por donativos privados (cerca de 107 milhões de euros), este projecto pretende ser uma verdadeira “ponte” entre a ciência e o público em geral. “As exposições imersivas, actividades educativas práticas e os eventos públicos permitem que pessoas de todas as idades e origens entrem em contacto com as descobertas, a ciência e as tecnologias do CERN. O Science Gateway pretende ser um farol que inspire os jovens a seguir carreiras na área da ciência e da tecnologia”, referem Pauline Emery, engenheira e supervisora de construção, e François Briard, director de operações do Science Gateway.
Tudo começou em Janeiro de 2017, com a apresentação da visão do que seria o Science Gateway pela directora geral, Fabiola Gianotti: um novo centro de educação e divulgação.
As obras do centro iniciaram-se em Dezembro de 2020 com atenção ao “impacte ambiental”, até porque o projecto é descrito como um “manifesto ambiental e cultural”. Patrick Geeraert, líder do projecto do Science Gateway, explica-nos este manifesto: “É um local de intercâmbio cultural e científico, oferecendo exposições permanentes, peças de arte contemporânea e eventos públicos”, além de ter “uma central térmica que produz o aquecimento e o arrefecimento e painéis solares que geram a electricidade necessária para o funcionamento das instalações”. Foram ainda plantadas “cerca de 400 árvores, assim como mais de 13 mil pequenas plantas e arbustos.”
“A CONSTRUÇÃO PARECE FLUTUAR ACIMA DE UMA FLORESTA RECÉM-PLANTADA”
O CERN Science Gateway é composto por cinco blocos funcionais: espaços de exposição, laboratórios interactivos, um auditório de grandes dimensões, loja e restaurante. Todos estes módulos ficam unidos por uma ponte suspensa, elevando-se seis metros acima do solo. Esta ponte atravessa a via pública (Route de Meyrin) e faz a ligação entre diferentes espaços de exposição e salas de aula.
“O conceito arquitectónico foi desenvolvido harmonizando os seguintes elementos estruturais: betão, aço e vidro. Todos os elementos em contacto com o solo são feitos de betão claro, moldado no local. As lajes, terraços e paredes moldam a paisagem e o terreno, tirando partido dos níveis naturais existentes para criar um espaço e servir de base aos objectos de aço e vidro que compõem o Science Gateway”, referem Pauline e François.
Existem três pavilhões. No pavilhão norte localiza-se um auditório modular de 800 lugares, que dá espaço a conferências e eventos científicos, podendo ser dividido em três salas mais pequenas, além da área de recepção, loja e restaurante; no piso superior desse pavilhão estão dois grandes laboratórios totalmente equipados para receber grupos escolares para actividades experimentais. Esses laboratórios, com mobiliário flexível e instrumentos científicos de demonstração, estimulam a curiosidade dos alunos, incentivando a que estes possam ser os cientistas de amanhã. Este espaço é relevante para o centro, já que um dos objectivos é despertar o interesse dos mais jovens para os estudos STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática). Esta é uma forma de aproximar a ciência do público em geral, desconstruindo-a e tornando-a mais apelativa.
Entre o restaurante e o auditório há um anfiteatro natural ao ar livre, usado em eventos. O pavilhão central, com salas de aula e circulação vertical, conecta a ponte ao chão. O pavilhão sul é dedicado a exposições interactivas, promovendo a aprendizagem prática. Complementando esses recursos estão os ‘túneis’ — espaços elevados de exposição que evocam a experiência dos túneis aceleradores subterrâneos do CERN.
As galerias de exposição (que se encontram nos dois tubos) pretendem tornar tangíveis fenómenos complexos. Um dos tubos narra a história do CERN e pretende envolver os visitantes com aceleradores, detectores, aquisição de dados, entre outros; o outro divide-se numa viagem até às origens do universo (o Big Bang) e em questões abertas da física, que dão que pensar, como a matéria escura, energia escura e dimensões extras numa experiência imersiva. Estes espaços, com painéis informativos e experimentos de demonstração, exemplificam como um edifício pode abrigar ciência viva, tornando visíveis conceitos abstratos para o público em geral.
Estes tubos evocam os túneis aceleradores de partículas subterrâneos do CERN. “O aço, o vidro e o betão, juntamente com a leveza e a topografia existentes no local, combinam-se e são sustentados por uma grande cobertura de vidro solar. A ponte de vidro, suspensa por duas vigas de aço, funciona como ligação física e metafórica do projecto”. Esta ponte coberta de 220 metros liga transversalmente os pavilhões e tubos, permitindo uma circulação contínua pelo complexo. “A construção parece flutuar acima de uma floresta recém-plantada”, descreve Patrick.
“O aço forma a ‘pele’ dos edifícios. Os três pavilhões e os dois tubos são revestidos com painéis de aço, evocando a materialidade de muitas das máquinas utilizadas no CERN. Esta fachada confere aos edifícios uma certa pureza, com uma estética industrial. O aço constitui também toda a estrutura exterior. Perfis típicos (HEA, IPE) formam o esqueleto dos edifícios, totalmente expresso no exterior. Uma hierarquia entre os perfis ajuda a transmitir o sistema estrutural deste espaço-laboratório.”
PANDEMIA, GUERRA E GEOLOGIA: OS DESAFIOS
Além de a geologia do local não permitir que a energia geotérmica seja uma mais-valia para o projecto, outros desafios foram enfrentados.
Patrick Geeraert disse ao CERN que o primeiro problema com que se depararam foi que “o lado norte do Science Gateway, anteriormente um estacionamento temporário, ficava em terras agrícolas. Tivemos de reclassificar esse terreno para que pudesse ser autorizado a construir, o que é extremamente complicado em Genebra. O processo geralmente leva pelo menos 10 anos, se é que tem sucesso, e conseguimos fazer em um só. Obtivemos a licença de construção em Setembro de 2019 e iniciámos um processo de aquisição para a construção e para os cenógrafos relacionadas às exposições. Em Novembro de 2020, assinámos o contrato com as construtoras e elas começaram a erguer os edifícios no local no final de 2020”. Importa reforçar que 2020 foi um ano marcado pela pandemia, o que também afectou a construção. Além disso, “a invasão da Ucrânia contribuiu para um aumento adicional dos custos. O esforço contínuo de angariação de fundos revelou-se, por isso, determinante”, acrescenta Patrick.
SUSTENTABILIDADE ENERGÉTICA NUM ABRIR DE JANELAS E NÃO SÓ
Desde o início que a sustentabilidade é um factor crucial no Science Gateway. O edifício foi concebido para ter pegada de carbono zero e consegue atingi-lo devido à “utilização de painéis solares fotovoltaicos e bombas de calor (ar-água), em conjunto com a redução do aquecimento na ponte”. Além disso, “no Verão, a ponte é arrefecida sem recurso a sistemas técnicos, (neste caso ao ar condicionado), com a simples estratégia de abertura de janelas que permite a ventilação natural cruzada e a floresta recém-plantada ajuda a reduzir o efeito de ‘ilha de calor’. Por cima da ponte estão painéis fotovoltaicos, verdadeiros ´campos solares amplos`”, reforçando o compromisso do projecto com a sustentabilidade energética.
“Os painéis solares fotovoltaicos foram integrados no projecto do edifício desde as fases iniciais, proporcionando alguma sombra na praça entre o restaurante e o auditório”. Os três principais pavilhões contam com cerca de 3900 metros quadrados de painéis fotovoltaicos semitransparentes nos seus telhados, totalizando 500 kWp (quilowatt-pico) de capacidade instalada. Ao não serem opacos, permitem a passagem de luz natural. Esta área solar está projectada para produzir à volta de 500 MWh (megawatt-hora) de energia eléctrica por ano, energia suficiente para abastecer o Science Gateway, em especial as suas bombas de calor para aquecimento e refrigeração. Estima-se ainda que cerca de 40% da electricidade produzida ultrapasse o consumo interno e seja devolvida à rede geral do CERN. Assim, o excesso de energia eléctrica renovável apoia outras instalações do campus, reduzindo indirectamente as emissões de carbono.
Quanto à climatização, foram feitos alguns testes geológicos, uma vez que no plano inicial a energia geotérmica estava contemplada, mas devido à complexidade geológica do local (existência de bolsas de gás no subsolo), esta solução tornou-se inviável e obrigou a uma mudança de estratégia. Patrick explica que tanto o aquecimento quanto o arrefecimento são realizados por bombas de calor alimentadas pela rede eléctrica renovável do próprio edifício. Além disso, existem medidas operacionais que reduzem o consumo. Por exemplo, as luzes principais serão diminuídas ou desligadas durante a noite e a climatização segue critérios de eficiência.
Já no restaurante, irá minimizar-se o uso de materiais descartáveis (evitando plásticos de uso único). Estas estratégias de baixo consumo, combinadas com a energia renovável gerada no local, reforçam a neutralidade de carbono do novo centro científico.
“UMA FLORESTA SELVAGEM” NO CERN
Para ajudar a atenuar impactes ambientais, o Science Gateway está rodeado por uma autêntica floresta urbana. Foram plantadas mais de 400 árvores diversas, além de arbustos, perenes e prados de flores silvestres. Segundo Frédéric Magnin, responsável pela construção do Science Gateway, a plantação foi feita de forma gradual, garantindo que as árvores se adaptam bem ao novo solo. São onze espécies diferentes (de carvalhos e olmos a cerejeiras e pinheiros), escolhidas para “parecer uma floresta selvagem.”
A floresta trará benefícios concretos ao meio ambiente local. Espécies variadas criam diferentes nichos ecológicos, promovendo a biodiversidade – morcegos, pássaros e pequenos mamíferos poderão usar as copas e arbustos como habitat. As árvores ajudam a mitigar ilhas de calor urbano ao aumentar a evapotranspiração, refrescam o microclima, e o aumento do albedo (maior reflexão da luz solar) e reduz o aquecimento do solo. A longo prazo, a vegetação captura dióxido de carbono, contribuindo para compensar emissões globais. Desta forma, a floresta do Science Gateway não é apenas ornamental, ela faz parte da estratégia ambiental do projecto, integrando ciência e natureza em harmonia.
PROJECTOS FUTUROS: O EDIFÍCIO 777
De acordo com o Masterplan 2040 do CERN (publicado em 2021), há vários projectos pensados para o futuro, não esquecendo os edifícios já existentes. Por exemplo, o edifício principal (o Edifício 66) do CERN foi recentemente renovado.
Um novo edifício (o Edifício 777) está a nascer em Prévessin, França, e a sua conclusão está prevista para o quarto trimestre de 2027. Este edifício foi concebido para substituir instalações obsoletas e responder às necessidades crescentes do sector de Aceleradores, reunindo, num único volume, funções administrativas, laboratoriais e colaborativas.
Com uma área bruta interna aproximada de 14 200 metros quadrados, o 777 acolherá cerca de 530 postos de trabalho, 10 laboratórios técnicos, salas de reunião, espaços informais de colaboração e um restaurante central. O edifício destina-se maioritariamente ao sector de Aceleradores e Tecnologias, funcionando como um polo de interacção entre engenheiros, físicos e técnicos, num modelo de trabalho transversal e integrado.
Do ponto de vista construtivo, o Edifício 777 distingue-se pela utilização extensiva de madeira estrutural, assumida como elemento central da solução arquitectónica e estrutural. Esta opção visa reduzir a pegada de carbono associada aos materiais de construção, recorrendo a materiais biogénicos e a uma abordagem baseada na análise do ciclo de vida. A estrutura é complementada por soluções mistas que asseguram desempenho estrutural, flexibilidade espacial e durabilidade.
O edifício integra ainda sistemas técnicos de elevada eficiência energética, incluindo cerca de 650 metros
quadrados de painéis fotovoltaicos na cobertura, soluções de iluminação natural através de grandes vãos e um átrio central de pé-direito elevado, que favorece a distribuição de luz e a ventilação. O projecto ambiciona obter certificação ambiental BREEAM (Building Research Establishment Environmental Assessment Method), reflectindo o compromisso do CERN com edifícios de baixo consumo energético e operação sustentável.
O Edifício 777 constitui, assim, um exemplo de como a infraestrutura científica pode alinhar exigências técnicas rigorosas com soluções construtivas inovadoras e objectivos ambientais claros, reforçando o papel dos edifícios como instrumentos activos da transição energética e da sustentabilidade institucional.
MAIS DO QUE UM EDIFÍCIO
O Science Gateway surge como uma infraestrutura científica do CERN que consegue combinar com sucesso o rigor técnico e preocupação ambiental. O edifício é ao mesmo tempo inovador e funcional: integra laboratórios e áreas públicas de forma harmoniosa, enquanto tem a sustentabilidade ambiental e pegada ecológica neutra como foco. A vasta floresta é a prova de que as construções de grande escala podem ser sustentáveis e envolver-se com o meio que a rodeia.
Aliás, “o Masterplan 2040 estabelece um enquadramento para as infraestruturas, a mobilidade, a protecção ambiental e o desenvolvimento paisagístico. Muitos dos seus resultados já são visíveis no campus: novos edifícios e espaços exteriores, a renovação de marcos emblemáticos e melhorias que beneficiam colaboradores e visitantes”, referem Pauline Emery e François Briard. “O plano demonstra que não são apenas os edifícios que contribuem para a sustentabilidade, mas também as iniciativas de mobilidade, os corredores de biodiversidade, as bacias de retenção de águas pluviais e um planeamento paisagístico cuidadoso.”
O novo centro do CERN exemplifica, assim, como a arquitectura moderna pode educar e inspirar, servindo de montra para práticas construtivas energeticamente eficientes e sensibilizando o público para a intersecção entre ciência e meio ambiente.
Fotografia de destaque: © CERN





