Por um lado, incerteza. Por outro, confiança. É nesta mistura de emoções que o sector do AVAC tem estado desde o deflagrar da pandemia de Covid-19 em Portugal. Entre desafios que se colocam e as novas oportunidades que surgem, o receio da crise económica não impede as empresas de seguir em frente.
Estamos a gerir o desconhecido, navegando à vista, o preço da interrupção abrupta da economia começa a ser conhecido em alguns sectores. Na construção, ainda pouco… A nossa economia é fraca, não dispõe de empresas, recursos humanos, capital e máquina administrativa comparáveis aos nossos vizinhos europeus. Prognósticos só no fim…
Provavelmente desatentos, não sabíamos que havia tantos especialistas em virologia, alergologia, infeciologia, epidemiologia, pneumologia, etc. Nunca tantos especialistas revelaram tão grande desconhecimento e nos amedrontaram (amedrontam) tanto. Muitos de nós, Peritos Qualificados (PQ) do Sistema de Certificação Energética (SCE), ainda se lembram de, em 2009, ter tido formação sobre metodologia para auditorias periódicas à qualidade do ar interior (QAI) dos edifícios.
Desde logo, havia, e há ainda hoje, uma grande diferença entre a QAI em espaços destinados a habitação e em espaços de trabalho para atividades de comércio e serviços. Nos edifícios de habitação, a questão acaba por ser muito baseada em dogmas do passado e em algumas indefinições, incorreções e falta de cultura nas universidades e instituições. O problema coloca-se com maior gravidade em edifícios antigos mal construídos e termicamente pobres. De qualquer modo, para além do tradicional exaustor mecânico que equipa a cozinha, também, em caso de necessidade, existirá sempre recurso à tradicional abertura das janelas a contento (solução muito popular).
A ventilação natural ainda é pouco dominada pelos técnicos do cluster da construção, recorrendo-se repetidas vezes a ventilação mecânica. A legislação, muitas das vezes, também ajuda.
Os edifícios de serviços estão sujeitos a grande deterioração da qualidade ambiente do ar interior, desde logo porque, para além das matérias e produtos solventes que constituem os revestimentos e mobiliário, são os próprios habitantes que também poluem o ar ao emitir CO2, vapor de água, odores metabólicos, partículas e compostos orgânicos voláteis associados ao vestuário e à forte ocupação humana que, antes da era Covid-19, já chegava a taxas da ordem de 3 m2 por ocupante em “work places”.
Adicionalmente, há ainda bactérias, fungos, Leggionella, radão, monóxido de carbono, ozono e formaldeído. Sobre tudo isto, foram dadas ao PQ do SCE formação e competências de análise e verificação dos limiares de proteção que rapidamente foram extintas por questões já referenciadas em 2013. Na lista de compostos orgânicos voláteis totais, referenciavam-se ainda, por vezes, os hidrocarbonetos aromáticos, hidrocarbonetos alifáticos, cicloalcanos, terpenos, glicóis, aldeídos, cetonas, ácidos e outros.
Um desafio que deixamos aos fazedores de opinião e ao mercado da arquitetura é que os edifícios interessantes deixem de estar tão dependentes das tecnologias. Consegue-se isto com orientação inteligente e soluções adequadas de luz e ventilação natural. Existem ainda certos atributos de certificação da sustentabilidade com nome e siglas pomposas com o intuito de promover e estimular práticas de construções sustentáveis que não são mais do que pautas codificadoras para fins comerciais, mas que também pouco acrescentam na gestão de projeto em ordem a reduzir o peso das tecnologias.
Mudando de assunto: tivemos oportunidade de ler, em entrevista à Edifícios e Energia, a opinião do atual presidente da Ordem dos Arquitetos, a quem desde já saudamos e desejamos as melhores felicidades no seu mandato, para a inversão da pirâmide no desenho de edifícios, colocando o foco da sustentabilidade nas tecnologias, o que, de verdade, acontece muitas vezes. Na nossa opinião, Gonçalo Byrne tem razão quando refere que “a questão das tecnologias aplicadas à construção é uma história mal contada”. O arquiteto é usualmente o “artista” que desenha edifícios e espaços ditos interessantes, como classificam alguns dos nosso colegas arquitetos da ANPQ, e muitos deles não mostram preocupação na gestão da energia incorporada durante a vida útil do edifício, alheando-se das tecnologias e da sustentabilidade. Muitas das vezes, é disruptiva na indispensável relação entre engenheiros e arquitetos a necessidade de se arranjarem espaços técnicos úteis e adequados para o desenvolvimento das redes e equipamentos técnicos, bem como de se aproveitar de forma racional a ventilação e a luz natural.
Também aqui se verifica uma grande diferença entre os espaços destinados a habitação e a atividades de comércio e serviços. Um espaço de habitação não possui cargas internas de calor relevantes e a condição de conforto é garantida à custa do controlo da influência exterior. Neste aspeto, pensamos que o sistema de Certificação Energética exerce uma enorme regulação sobre o edificado atual.
Contrariamente, os edifícios de serviços têm três componentes fundamentais de geração de energia no interior: pessoas, estações de trabalho constituídas por computadores, monitores e impressoras e Iluminação artificial – apesar de esta última ter um contributo cada vez mais frugal. Muitas das vezes, acrescente-se a componente solar, quando não são devidamente protegidos, como é a grande maioria dos modelos construídos, importando estereótipos da Europa Central e do Norte.
Muitos projetos de arquitetura de referência são fortemente dependentes da tecnologia e do consumo energético como que a privilegiar o aspeto estético do invólucro e esta situação tem sido mitigada pela ação da regulamentação do SCE e da atividade dos PQ.
Um desafio que deixamos aos fazedores de opinião e ao mercado da arquitetura é que os edifícios interessantes deixem de estar tão dependentes das tecnologias. Consegue-se isto com orientação inteligente e soluções adequadas de luz e ventilação natural. Existem ainda certos atributos de certificação da sustentabilidade com nome e siglas pomposas com o intuito de promover e estimular práticas de construções sustentáveis que não são mais do que pautas codificadoras para fins comerciais, mas que também pouco acrescentam na gestão de projeto em ordem a reduzir o peso das tecnologias.
O mesmo acontece com a metodologia de cálculo da eficiência energética privilegiando os sistemas técnicos. Também nos parece que, face à regulamentação e à cultura do cluster da construção, grande parte da eficiência energética é gerida pelas tecnologias.
Uma outra questão: ultimamente, estamos a ser invadidos por promotores estrangeiros que procuram o lucro fácil, colocando uma pressão enorme nos PQ, pois, apesar da operação urbanística devidamente instruída e licenciada, adulteram os projetos e aldrabam na fase de construção. No fim, querem o certificado energético para licença de utilização a toda a força. Nestas situações, os PQ sentem-se impotentes para contrariar esta tendência que se está cada vez mais a implantar no mercado e para a qual pedimos a ajuda das entidades oficiais para clarificar como vamos gerir estas situações sem sermos responsabilizados a título individual perante este tipo de promotores.
Uma questão também de interesse que salientamos é a apresentação do PENSAARP – Plano Estratégico para o Setor de Abastecimento de Água e Gestão de Águas Residuais e Pluviais (2021-2030), com o qual se pretende contribuir para a integração dos desafios, especificidades e propostas de medidas que permitam uma melhor articulação entre os setores da água e dos edifícios, entre as redes públicas e as redes prediais. Fica-nos a sensação de que, tendo em conta a metodologia, objetivos, planos de ação, ambição e dimensão da estrutura da equipa e dos organismos que estão mobilizados, não haverá muitas novidades até 2050, a não ser que haja uma seca extrema e o Governo vá a correr fazer leis sem ouvir ninguém, como é apanágio do poder político.
Outra das questões pertinentes é a eficiência hídrica dos dispositivos sanitários. Em alguns dispositivos reconhece-se a necessidade de haver melhoria dos consumos e economizar. Para o efeito, os fabricantes devem investir em dispositivos mais eficientes e eficazes. Um grande desafio será também o uso racional da água por todos os utilizadores desde a captação, tratamento, distribuição e utilização. O aproveitamento de águas pluviais não parece sustentável, pois é dispendioso e traz poucos resultados práticos face ao custo/benefício/eficácia, só se justificando em caso de falta de água extrema continuada. O aproveitamento de águas residuais tem ainda um longo caminho a percorrer e tem grande potencial na agricultura e espaços verdes.
Descarbonizar, descentralizar e digitalizar são os grandes desafios da sociedade moderna e deve ser por isso que os PQ paulatinamente têm de preencher cada vez mais dados para o portal da certificação que nada têm a ver com o objetivo da certificação energética do edificado.
Com isto, a ADENE compila uma base de dados cada vez maior à custa de trabalho imposto à força aos PQ e que não é pago. Continuamos, no entanto, à espera de perceber para que querem tantos dados e para que servem.
Finalmente, acrescente-se a grande necessidade de requalificação profissional nas nossas universidades e escolas: de acordo com algumas opiniões, nos próximos dez anos, cerca de 40 % da força de trabalho da Europa precisa de novas competências profissionais. A falta de competência em Portugal no cluster da construção é cada vez mais preocupante. O escrutínio está cada vez mais nos PQ do SCE e ignora o que é mais importante, óbvio e redutor.
As opiniões expressas são da responsabilidade dos autores e não reflectem necessariamente as ideias da revista Edifícios e Energia.





