Que ar respiramos dentro dos edifícios? O desafio da QAI na Europa

Este artigo foi originalmente publicado na edição nº 165 da Edifícios e Energia (Maio/Junho 2026).

Passamos grande parte do tempo em espaços fechados, mas raramente pensamos na qualidade do ar que respiramos dentro de portas. Muito se fala sobre a poluição atmosférica, mas a verdade é que o ar no interior dos edifícios pode estar significativamente mais poluído do que o ar exterior, com impactos na saúde, no conforto e até na produtividade. A qualidade do ar interior surge, assim, como um dos grandes desafios a nível europeu.

A qualidade do ar interior (QAI) tem vindo a afirmar-se como um aspecto relevante de saúde pública na Europa. Os europeus passam cerca de 90% do seu tempo em ambientes interiores como casas, escritórios, escolas, hospitais ou meios de transporte, de acordo com a Associação Europeia da Indústria de Ventilação (EVIA). É no interior dos edifícios que a maioria da população vive, trabalha e respira diariamente.

Paradoxalmente, é também nesses espaços que o ar pode apresentar níveis de poluição significativamente superiores aos do exterior. Estudos citados pela EVIA indicam que o ar interior pode ser duas a cinco vezes mais poluído do que o ar ambiente, podendo, em casos extremos, atingir concentrações até cem vezes superiores. Esta realidade resulta sobretudo da acumulação de poluentes gerados por actividades quotidianas e materiais comuns. As fontes de contaminação são múltiplas e, muitas vezes, invisíveis: desde revestimentos de pavimentos, tintas e vernizes, até ao acto de cozinhar, limpar ou simplesmente respirar. A estas juntam-se ainda contribuições do exterior, como emissões de tráfego rodoviário, actividades industriais, pólen e partículas finas. A exposição prolongada a estes contaminantes torna-se um factor determinante no desenvolvimento de doenças respiratórias, como a asma, bem como na propagação de infecções e alergias.

A QAI refere-se, assim, à qualidade do ar dentro e ao redor dos edifícios, tendo em conta os impactos que o mesmo tem na saúde, conforto e bem-estar dos ocupantes. Este conceito abrange não apenas o sector residencial, mas também um vasto conjunto de espaços não residenciais, incluindo escolas, unidades de saúde, estabelecimentos comerciais, fábricas e até transportes. Para além de influenciar a saúde pública, a produtividade, o desempenho cognitivo e a qualidade de vida dos cidadãos também são parâmetros a ter em consideração.

Resposta política é necessária

Diversos factores contribuem para uma má qualidade do ar interior. Entre eles destacam-se a presença de compostos orgânicos voláteis (emitidos por materiais de construção, mobiliário e produtos de limpeza), partículas em suspensão, humidade excessiva, mofo, fumo de tabaco e níveis elevados de dióxido de carbono, sendo que este último, embora não seja um poluente em si, funciona como indicador da falta de renovação do ar. A própria evolução dos edifícios nas últimas décadas, com maior estanquidade para ganhos de eficiência energética, veio reduzir a ventilação natural e dificultar a dissipação de poluentes.

Neste contexto, um manifesto publicado em Junho de 2024 pela EVIA reforça a urgência política do tema, defendendo que “a boa qualidade do ar interior deve tornar-se um direito humano fundamental”. O documento sublinha que, apesar de muitos países europeus já reconhecerem o direito a um ambiente saudável, “esquece-se frequentemente que a necessidade de boa qualidade do ar não se limita ao ar exterior, mas inclui também o ar que respiramos em espaços interiores”.

Os signatários do manifesto alertam ainda que “a qualidade do ar interior reveste-se de importância crítica e merece a elevada atenção política que lhe é devida a nível europeu”, apelando a uma acção mais ambiciosa. Entre as principais recomendações está a necessidade de “atribuir igual (elevada) importância à ‘qualidade do ar interior’ e à ‘qualidade do ar ambiente’ na adopção de políticas da UE” e de proceder a uma revisão abrangente das políticas europeias para integrar medidas mais eficazes neste domínio.
Apesar de alguns avanços, como a revisão da Directiva sobre o Desempenho Energético dos Edifícios (EPBD), que reconhece o papel da ventilação na saúde e no conforto, a regulamentação da QAI parece continuar fragmentada e maioritariamente dependente dos Estados-Membros. Assim, à medida que a União Europeia procura reforçar as suas políticas ambientais e de saúde pública, a integração da qualidade do ar interior surge não apenas como uma necessidade técnica, mas como uma questão de direitos fundamentais e de qualidade de vida para milhões de europeus.

É neste ponto — entre a ambição política e a aplicação prática — que ganham relevância instrumentos técnicos capazes de traduzir objectivos em soluções concretas no terreno. A melhoria da QAI depende também da forma como os edifícios são concebidos, equipados e operados, incluindo a selecção e avaliação dos seus componentes.

Entre a saúde e o desempenho ambiental

A crescente atenção à qualidade do ar interior (QAI) tem vindo a alargar o debate para além da saúde, com a integração das dimensões ambientais e de sustentabilidade. Recentemente, a Eurovent (Associação Europeia da Indústria do Aquecimento, Ventilação, Frio e Refrigeração) publicou um novo guia dedicado às Declarações Ambientais de Produto (DAPs) para filtros de ar, propondo uma abordagem estruturada para avaliar e comunicar o desempenho ambiental destes componentes essenciais dos sistemas AVAC (Aquecimento, Ventilação e Ar Condicionado).

O documento surge, segundo a associação, para responder à “crescente procura por dados ambientais fiáveis” e para ajudar os diferentes intervenientes do sector a compreender melhor os impactos ao longo do ciclo de vida das soluções de filtragem. Desenvolvido pelo Grupo de Produtos de Filtros de Ar (PG-FIL), o guia procura garantir “uma abordagem prática e baseada no consenso”, alinhada com normas existentes e com as necessidades do mercado, promovendo maior transparência e comparabilidade entre produtos.

Os filtros desempenham um papel directo na qualidade do ar que se respira dentro dos edifícios. Sabendo que os europeus passam cerca de 90% do tempo em espaços interiores, a capacidade de remover partículas nocivas (como as partículas finas PM2,5) é determinante para proteger a saúde dos ocupantes.

Como refere o guia, trata-se de “melhorar a qualidade do ar interior (QAI) para proteger as pessoas no edifício de poluentes nocivos”, sublinhando a ligação directa entre eficiência de filtragem e os benefícios para a saúde.

No entanto, a filtragem do ar apresenta também uma dimensão energética frequentemente subestimada. Apesar de serem componentes passivos, os filtros influenciam o desempenho global dos sistemas de ventilação: “a sua resistência ao fluxo de ar tem geralmente um impacto significativo no consumo total de energia e na pegada de carbono de um sistema”.

Esta relação cria um equilíbrio delicado entre eficiência de remoção de partículas, consumo energético e custos operacionais. Para apoiar decisões mais informadas, a Eurovent disponibiliza ferramentas como os modelos 4/21 e 4/24, que permitem estimar o consumo energético da operação dos filtros e avaliar o seu impacto ao nível do edifício. Estas metodologias contribuem para uma análise mais rigorosa e comparável, essencial num sector cada vez mais orientado por critérios de desempenho ambiental.

É neste ponto que as DAPs assumem um papel central. Baseadas na Avaliação do Ciclo de Vida (ACV), estas declarações fornecem “informações detalhadas sobre o impacte ambiental” dos produtos — desde as matérias-primas e fabrico até à utilização e fim de vida — incluindo indicadores como o Potencial de Aquecimento Global. Funcionando como uma espécie de “rótulo nutricional” ambiental, as DAPs permitem uma leitura transparente e padronizada do desempenho ambiental dos filtros de ar.

Ainda assim, o guia alerta para a necessidade de uma interpretação cuidadosa. “As DAP são ferramentas valiosas […], mas podem ser mal utilizadas ou mal interpretadas”, não devendo ser confundidas com um selo de sustentabilidade. Pelo contrário, são instrumentos que “fornecem dados ambientais neutros e quantitativos”, cuja utilidade depende da comparação rigorosa entre produtos com base nas mesmas regras e da análise de múltiplos indicadores, e não apenas de métricas isoladas como a pegada de carbono.

Num contexto em que os edifícios representam mais de 30% da pegada ambiental da União Europeia, e em que os filtros de ar têm ciclos de vida curtos e aplicações variáveis, a necessidade de metodologias específicas torna-se evidente. A Eurovent sublinha: “a abordagem para a avaliação do impacte ambiental dos filtros necessita de ser diferente da utilizada para os produtos de construção ‘típicos’”.

A abordagem da REHVA à qualidade do ar interior

A REHVA (Federação Europeia do Aquecimento, Ventilação e Ar Condicionado) posiciona a QAI como uma questão de saúde pública, defendendo que os edifícios devem ser concebidos e operados com base em critérios que vão além do conforto. A federação destaca a complexidade do ar interior e a presença de múltiplos poluentes com impacto directo na saúde.

A ventilação é apontada como um elemento-chave, mas apenas quando correctamente dimensionada, adaptada à ocupação real e assegurada ao longo de todo o ciclo de vida do edifício. Ainda assim, a REHVA sublinha que não é suficiente por si só, defendendo uma abordagem que começa no controlo das fontes de poluição, complementada por ventilação, e, quando necessário, filtragem.

A REHVA alerta também para os riscos de edifícios mais estanques no contexto da eficiência energética, defendendo a integração da QAI na regulamentação europeia. Para a federação, garantir ar interior saudável beneficia não só a qualidade do projecto, mas também operação e manutenção contínuas, num processo permanente de monitorização e adaptação.

Eurovent: sustentabilidade e saúde aliadas

A Eurovent defende uma abordagem regulatória mais forte para a QAI na Europa, alertando para falhas de mercado e para a ausência de um enquadramento legislativo abrangente nesta área. A associação considera a QAI uma necessidade básica e um direito fundamental, defendendo maior intervenção política ao nível europeu.

Neste contexto, a Eurovent tem apelado à integração de requisitos de qualidade do ar em instrumentos como a Directiva sobre o Desempenho Energético dos Edifícios (EPBD), promovendo uma ligação mais directa entre energia, saúde e bem-estar. Do ponto de vista técnico, esta associação destaca o papel dos sistemas de AVAC, nomeadamente a ventilação e a filtragem na garantia de ambientes interiores saudáveis, sublinhando também a importância da manutenção e da monitorização contínua.

A associação alerta ainda que a transição energética, ao tornar os edifícios mais eficientes e estanques, pode agravar riscos de poluição interior, defendendo, por isso, que sustentabilidade e a saúde sejam tratadas de forma integrada nas políticas europeias de construção.

Fotografia de destaque: © Shutterstock

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