IDEAL: cluster europeu quer colocar a qualidade do ar interior no centro da saúde pública e dos edifícios 

QIA

Os europeus passam a maior parte do tempo em espaços fechados, mas a qualidade do ar que respiram dentro das suas casas, escolas, locais de trabalho e transportes públicos continua a ser menos visível do que a poluição do ar exterior. É precisamente para investigar o que está presente no ar interior e os seus efeitos na saúde que surgiu o IDEAL – Cluster on Indoor Air and Health, uma iniciativa europeia que reúne sete projectos por toda a Europa. As descobertas estão agora a ser transformadas em ferramentas e recomendações que colocam a QAI no centro da saúde pública e do desempenho dos edifícios.  

É no interior dos edifícios que a maioria da população europeia respira diariamente: estima-se que os europeus passam cerca de 90% do seu tempo em ambientes interiores, desde as suas casas, escritórios, escolas, hospitais, a meios de transporte, de acordo com a Associação Europeia da Indústria de Ventilação (EVIA, na sigla em inglês). Porém, a qualidade do ar interior (QAI) continua a ficar em segundo plano quando se fala de saúde pública e do desempenho dos edifícios.  

Foi precisamente para preencher esta lacuna que surgiu, em 2022, o IDEAL – Cluster on Indoor Air and Health. Financiado pelo programa Horizon Europe, esta rede europeia de investigação tem como objectivo aprofundar o conhecimento sobre os factores que determinam a QAI e os seus efeitos na saúde, bem como procurar soluções para melhorar o ar em ambientes fechados.  

O cluster junta sete projectos por toda a Europa – o INCHILDHEALTH, INQUIRE, K-HEALTHinAIR, LEARN, SynAir-G, TwinAIR e o EDIAQ -, e oito grupos de trabalho, cujas investigações incidem sobre diferentes ambientes interiores, desde habitações e escolas a locais de trabalho e transportes públicos, e procuram analisar tanto poluentes químicos como factores microbiológicos, bem como as suas fontes e efeitos. Actualmente, o IDEAL conta ainda com mais de 120 organizações e parceiro. 

Durante os primeiros anos de actividade do cluster, os investigadores dedicaram-se a identificar no interior dos edifícios fontes de poluição específicas, que muitas vezes são invisíveis, nomeadamente materiais de construção, produtos de limpeza utilizados nos espaços, sistemas de ventilação inadequados, combustão, humidade, partículas, compostos orgânicos voláteis (COV) e microrganismos, bem como certas actividades dos próprios ocupantes. Entre os grupos considerados mais vulneráveis encontram-se crianças, idosos, grávidas e pessoas com doenças respiratórias ou cardiovasculares. 

Da investigação à criação de tecnologias de monitorização

Já este ano, os investigadores começaram a transformar as descobertas e as boas práticas testadas nos projectos em ferramentas e recomendações destinadas a profissionais dos vários sectores e decisores políticos para apoiar a gestão da QAI. Em todos os projetos estão a ser desenvolvidas e testadas tecnologias de monitorização do ar, incluindo sensores de baixo custo e sistemas multissensoriais.   

No caso do projecto K-HEALTHinAIR, os investigadores desenvolveram uma ferramenta para monitorizar a qualidade do ar que utiliza um sistema de semáforo. Já o EDIAQI resultou na criação de um simulador online que tem como objetivo estimar a QAI em diferentes edifícios com base na localização e outros fatores. No âmbito do SynAir-G, foi testado um sistema de filtragem do ar que utiliza plantas vivas, cujos dados preliminares sugerem um impacto positivo na saúde.   

No seu primeiro policy brief, o IDEAL defendeu uma definição comum de QAI, uma estratégia europeia “coerente” e uma maior articulação entre políticas de construção, renovação, eficiência energética e saúde. 

A saúde das crianças é uma das áreas que tem ganho particular destaque nas investigações levadas a cabo pelo cluster. Num segundo policy brief, publicado em Março passado, o IDEAL alertou para o facto de as crianças passarem entre 80 e 90% do seu tempo em espaços interiores, nomeadamente em casa, creches e escolas. Os projectos de investigação identificaram desafios recorrentes relacionados com a presença de CO2, partículas finas, COV e microrganismos no ar interior. Com base nos resultados, os investigadores recomendam uma maior monitorização e a definição de padrões mínimos de QAI baseados na saúde para novos edifícios escolares. 

Uma nova dimensão na política europeia para os edifícios 

A QAI está também a ganhar espaço na legislação europeia através da revisão da Directiva do Desempenho Energético dos Edifícios (EPBD). A Directiva (UE) 2024/1275, em vigor desde Maio de 2024, veio estabelecer uma visão mais integrada do desempenho dos edifícios, associando a eficiência energética à qualidade do ambiente interior. Assim, a EPBD introduziu o conceito de QAI no enquadramento europeu dos edifícios, abrangendo as condições interiores que afectam a saúde e o bem-estar dos ocupantes, mas também parâmetros como a temperatura, a humidade, a taxa de ventilação e presença de contaminantes.  

A legislação prevê ainda mudanças ao nível da monitorização. Nos edifícios não residenciais com emissões nulas vai passar a ser obrigatório o uso de  dispositivos de medição e de controlo da QAI. Já nos edifícios não residenciais istentes sujeitos a grandes renovações a instalação destes sistemas deve também ser considerada, mas se for uma opção técnica e economicamente viável.

Fotografia de destaque: © Shutterstock

PARTILHAR

PUBLICIDADE

REVISTA

AGENDA

SOBRE O AUTOR