Os consumidores portugueses mostram uma elevada abertura à utilização de materiais reciclados e reutilizados na construção e reabilitação de habitações. Mais de metade (54%) dos inquiridos num estudo europeu sobre economia circular no sector da construção aceita viver numa casa construída com vidro reciclado. A resposta é igualmente positiva no que toca a isolamento e janelas reutilizadas. Entre os países analisados, Portugal é dos que apresenta uma das menores preferências por construções exclusivamente feitas com materiais novos e convencionais.
A abertura dos consumidores portugueses à economia circular na construção é elevada, embora dependa do tipo de material ou componente utilizado, bem como da forma como estes regressam ao mercado. Estas são algumas das conclusões de um estudo realizado no âmbito do projecto europeu CO2nstruct, que analisou as percepções e comportamentos de cerca de 4 500 consumidores europeus – cerca de 500 por cada um dos nove países analisados -, relativamente à circularidade no sector da construção, incluindo a reutilização e reciclagem de materiais, a reparação e reabilitação de habitações e a disponibilidade para utilizar ou pagar por materiais circulares.
Os resultados dos inquéritos – realizados em Portugal, Espanha, Itália, Grécia, Roménia, Alemanha, Polónia, Dinamarca e Reino Unido – foram apresentados durante o workshop nacional do projecto CO2nstruct, que decorreu em Lisboa, organizado pelo Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG). Várias das apresentações dos estudos elaborados no âmbito do projecto que decorreu nos últimos quatro anos estão agora disponíveis para consulta.
Entre os inquiridos em Portugal, o vidro reciclado – produzido a partir de vidro antigo recuperado e transformado – surge como o material circular com maior aceitação: 54% afirmaram que aceitariam viver numa habitação que integrasse este material. Este é o valor mais elevado entre os países que participaram no estudo, a par com o Reino Unido. A preferência por esta solução mantém-se quando a questão se aplica na reparação ou reabilitação da casa.
A receptividade dos consumidores em Portugal estende-se também a outras soluções: 48% dos inquiridos nacionais mostraram-se disponíveis para a utilização de janelas reutilizadas, sendo este igualmente o resultado mais elevado entre o conjunto de países analisados. Já a aceitação de portas reutilizadas e de aço reciclado atinge, em ambos os casos, 46%.
Essa disponibilidade diminui no que toca ao uso de tijolos e isolamento reutilizados, que se situa, em ambos os casos, nos 38%. Também é menor (36%) no caso de residências construídas inteiramente com materiais biológicos, isto é, de base natural, como a madeira.
Preferem materiais reciclados a reutilizados
De forma geral, os resultados apontam para uma tendência de maior disponibilidade dos cidadãos para utilizar materiais reciclados do que reutilizados. Os autores do estudo identificam factores como a percepção de benefícios, os riscos associados à fiabilidade, segurança e durabilidade, bem como a confiança, certificação e existência de casos de sucesso como elementos relevantes na escolha destes materiais.
Considerando a amostra total, entre os materiais reciclados, é o vidro e a madeira que obtêm maior aceitação, enquanto o isolamento e o cimento geram maior cepticismo. Ainda assim, Portugal evidencia uma elevada receptividade a várias destas soluções.
Essa elevada receptividade à circularidade é ainda reforçada por outro resultado: apenas 8% dos inquiridos em Portugal manifestaram preferir o uso exclusivo de materiais novos e convencionais. Este é o segundo valor mais baixo entre os países analisados, depois de Espanha, com 6%.
Preços podem condicionar uso das soluções
Os investigadores observam ainda que a disponibilidade dos consumidores em adoptar estes materiais não significa, necessariamente, que estejam também dispostos a suportar custos adicionais. No conjunto dos nove países analisados, 30% dos inquiridos afirmaram que estariam dispostos a pagar menos por materiais de construção reciclados em comparação com as opções convencionais. No caso dos materiais reutilizados, o valor sobe para 38%.
Face às conclusões, os investigadores recomendam que, em vez de visar toda a população de forma uniforme, as estratégias de implementação da circularidade devem priorizar, numa primeira fase, grupos de cidadãos com intenções positivas e maior disponibilidade para adoptar práticas circulares. Posteriormente, importa acelerar a adopção e promover a difusão destas soluções.
O projecto CO2nstruct – coordenado pela Universidade Técnica da Dinamarca e financiado pelo programa Horizonte Europa, da União Europeia -, tem como objectivo modelar o impacte das cadeias de valor da construção na transição para uma economia circular e neutra em carbono, integrando materiais-chave com altas emissões de dióxido de carbono como cimento, aço, tijolos e vidro num modelo energético europeu. O projecto testou diferentes estratégias de economia circular para demonstrar como podem ajudar a reduzir emissões, melhorar a eficiência na utilização de recursos e contribuir para os objectivos climáticos estabelecidos por Bruxelas até 2050.
A União Europeia pretende acelerar a economia circular no sector da construção através da nova Directiva Europeia sobre o Desempenho Energético dos Edifícios (EPBD). Para além da energia consumida durante a utilização, o impacte ambiental passa a considerar as emissões associadas ao ciclo de vida dos edifícios, incluindo a produção e transporte dos materiais de construção, a obra, a utilização e substituição de componentes, bem como a demolição, a gestão dos resíduos, a reutilização e a reciclagem.
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