Reabilitação sustentável de edifícios: diretrizes de projeto baseadas no carbono e na energia incorporados nos materiais

Este artigo foi originalmente publicado na edição nº 166 da Edifícios e Energia (Julho/Agosto 2026)

OS AUTORES
Daniela Bombardelli Kappel Schor (1), José Dinis Silvestre (1) & Marcella Ruschi Mendes Saade (2)

[1. CERIS, Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa; 2. Institute of Structural Design, TUGraz, Áustria]

O dilema da descarbonização e a dívida climática do parque edificado 

O cumprimento das metas europeias e nacionais para a neutralidade carbónica tem impulsionado a renovação estratégica do parque edificado. Embora o foco habitual das políticas públicas e dos projetos de arquitetura e engenharia resida na melhoria da eficiência operacional, como o reforço do isolamento térmico para reduzir o consumo de energia em utilização, o sucesso desta transição depende criticamente de um fator frequentemente subestimado: o impacte ambiental intrínseco das soluções construtivas selecionadas.

Neste contexto, a reabilitação afirma-se como uma abordagem intrinsecamente mais sustentável que a construção nova, dado que capitaliza as estruturas e fundações existentes, as quais contêm a maior parcela do carbono incorporado histórico de um edifício.

Contudo, a intervenção de reabilitação não é isenta de custos ambientais. A aplicação da metodologia de Avaliação do Ciclo de Vida (ACV) revela que cada novo material introduzido possui uma pegada ecológica específica. No cenário nacional, torna-se vital monitorizar dois indicadores ambientais normalizados:

  • Potencial de Aquecimento Global (GWP, Global Warming Potential): expresso em kg de CO2 equivalente, que quantifica as emissões de gases com efeito de estufa (GEE) para a atmosfera;
  • Potencial de Depleção Abiótica de Recursos Fósseis (ADP-fóssil, Abiotic Depletion Potential): expresso em MJ, que avalia o consumo de recursos fósseis finitos e não renováveis durante o ciclo de fabrico.

 

A escolha inadvertida de produtos com processos de fabrico intensivos em energia e carbono, como certos isolantes sintéticos derivados do petróleo ou caixilharias metálicas sem rotura térmica adequada, pode gerar uma “dívida climática” inicial desproporcional. A premissa central de um projeto verdadeiramente sustentável deve ser, portanto, identificar soluções onde o investimento inicial em impactes ambientais seja rapidamente amortizado pelos impactes evitados devido à poupança energética alcançada durante a vida útil do edifício.

O conceito de carbono do ciclo de vida completo (WLC, Whole Life Carbon)

Para lá das abordagens tradicionais e parcelares, a descarbonização efetiva do ambiente construído exige a transição para uma perspetiva de Carbono do Ciclo de Vida Completo (WLC). O WLC define-se como a integração holística de todas as emissões de carbono associadas a um edifício ao longo da sua existência temporal, sendo modelado matematicamente pela soma do Carbono Incorporado e do Carbono Operacional:

WLC = Carbono Incorporado (A1-C4) + Carbono Operacional (B6)

Através da modelação pela metodologia da ACV, o Carbono Incorporado durante todo o ciclo de vida do edifício subdivide-se nas seguintes etapas reguladas pelas normas europeias (EN 15978):

  1. Fase de Produto e Construção (Módulos A1-A3 e A4-A5): que compreende a extração e produção de matérias-primas, transporte para a fábrica, fabrico (impacte inicial “do berço ao portão”), transporte para a obra e instalação no edifício;
  2. Fase de Utilização Relacionada com Materiais (Módulo B4 – Substituição): que contabiliza o impacte ambiental decorrente da substituição de componentes e acabamentos que possuem uma Vida Útil de Referência (RSL, Reference Service Life) inferior ao período de estudo do edifício (definido habitualmente como 50 anos);
  3. Fase de Fim de Vida (Módulos C1-C4): que engloba a demolição, desconstrução, transporte para gestão de resíduos, processamento e deposição final. Por sua vez, o Carbono Operacional foca-se exclusivamente no Módulo B6, relacionado com o consumo energético anual associado à climatização (aquecimento e arrefecimento), ventilação, iluminação e preparação de águas quentes sanitárias (AQS).

 

A Figura 1 apresenta o balanço total acumulado do GWP ao fim do período de estudo de 50 anos, discriminando a proporção entre o Carbono Incorporado (Módulos A-C) e o Carbono Operacional (Módulo B6). Este gráfico reflete o desempenho de intervenções de reabilitação de um apartamento aplicadas em dois contextos geográficos: Portugal (PT) e Áustria (AU).

Em ambos os países, a Alternativa 1 (Alt. 1) representa a abordagem de reabilitação convencional e de referência. Por sua vez, a Alternativa 2 (Alt. 2) materializa cenários de reabilitação otimizada, cujo foco estratégico incidiu na substituição cirúrgica de componentes de elevado impacte ambiental inicial.

Figura 1. Distribuição percentual e absoluta (CO2eq.) entre o Carbono Incorporado (A1-A3; C1-C4) e Operacional (B6) ao fim de 50 anos para as alternativas em Portugal e na Áustria

A análise comparativa demonstra por que razão as Alternativas 2 alcançam um perfil de sustentabilidade ambiental superior: ao reduzirem significativamente o Carbono Incorporado (expresso na redução da barra azul), estas alternativas conseguem diminuir o impacte total de ciclo de vida do edificado, mantendo ou otimizando a eficiência energética em uso, sem criar a “dívida climática” significativa que penaliza as primeiras opções.

Através da ACV, é possível visualizar o WLC como a integração do Carbono Incorporado (produção, substituição e fim de vida) com o Carbono Operacional (consumo energético). O desafio consiste em otimizar este equilíbrio, garantindo que a eficiência na utilização compensa a pegada de carbono dos materiais no menor período possível.

O desafio central da engenharia e da arquitetura sustentáveis consiste em otimizar o equilíbrio ilustrado na Figura 1, garantindo que o investimento inicial refletido nos impactes ambientais na fase de reabilitação seja estrategicamente justificado pelos impactes evitados na fase operacional. O objetivo passa por desenhar soluções onde a pegada acumulada dos materiais aplicados não ultrapasse o benefício gerado pela poupança energética em uso, maximizando assim a redução do WLC dentro do horizonte temporal estabelecido para o edifício.

Se a dívida climática inicial for excessivamente elevada devido à seleção de materiais de alto impacte na produção, o período necessário para atingir o ponto de equilíbrio (break-even carbónico) pode estender-se por várias décadas, inviabilizando o contributo do projeto para as metas de descarbonização urgentes estipuladas para 2030 e 2050.

Metodologia de ACV aplicada e especificidades do contexto português

A avaliação quantitativa deste estudo foi estruturada com base nas normas EN 15978 e ISO 14040/44, adotando como Unidade Funcional a reabilitação de 1 metro quadrado de área útil de pavimento de um apartamento de um edifício residencial representativo do parque edificado multifamiliar em Lisboa, considerando um Período de Estudo de 50 anos.

Adicionalmente, com o objetivo de testar a sensibilidade e a robustez do modelo analítico face a realidades térmicas, técnicas e infraestruturais discrepantes, foi integrado o contexto da Áustria como um cenário secundário de comparação.

Esta abordagem comparativa funciona como uma análise de sensibilidade climática, permitindo avaliar o comportamento e o impacte de soluções construtivas semelhantes num ambiente com exigências de aquecimento muito superiores e com uma matriz energética de características distintas da nacional.

O cenário de avaliação português apresenta particularidades climáticas e infraestruturais que alteram profundamente a dinâmica do WLC quando comparado com outras regiões da Europa:

  1. Clima Mediterrânico: a climatização em Portugal divide-se de forma mais equilibrada entre as necessidades de aquecimento no inverno e de arrefecimento no verão. Estratégias que penalizem a inércia térmica ou que gerem sobreaquecimento provocam um aumento drástico do consumo no módulo B6;
  2. Intensidade carbónica da rede elétrica nacional: embora Portugal tenha registado avanços notáveis na incorporação de fontes renováveis (eólica, solar e hídrica) na sua matriz de produção elétrica, a intensidade de carbono da rede (expressa em g CO2
    eq./kWh) ainda regista flutuações sazonais significativas devido ao recurso a ciclos combinados de gás natural em períodos de seca extrema ou de ausência de vento. Esta característica técnica dita que cada kWh de energia operacional poupado na habitação tem um impacto direto e substancial na redução do GWP global, tornando o isolamento térmico eficiente uma prioridade absoluta;
  3. Padrão de conforto térmico adaptativo: historicamente, uma fatia significativa da população portuguesa reside em condições de subaquecimento crónico devido a limitações económicas ou à ausência de sistemas ativos de climatização eficientes. A modelação de ACV deste estudo assume o cenário de conforto pleno, garantindo que os benefícios do isolamento são contabilizados face às poupanças energéticas reais necessárias para manter os espaços dentro dos limites de conforto térmico regulamentares.
O peso do carbono incorporado da fase de produto (A1-A3)

Os resultados principais obtidos neste estudo através do inventário detalhado de ACV sublinham a necessidade imperativa de gerir rigorosamente as emissões da Fase de Produto (Módulos A1-A3). À medida que a regulamentação aperta os requisitos de eficiência operacional, o peso relativo do carbono incorporado cresce de forma exponencial, passando a representar, em projetos de elevada eficiência energética, mais de 60% do WLC do edifício.

A análise fina dos dados permitiu mapear e isolar a contribuição específica de cada material. O indicador ADP-fóssil revelou-se um excelente marcador da dependência de indústrias extrativas e petroquímicas, permitindo identificar de forma clara os hot-spots de alto impacte ambiental na produção.

Como se observa na Figura 2, o poliestireno expandido moldado e extrudido (EPS e XPS), embora eficazes na redução da transmissão térmica por condução na fase operacional, acarretam uma penalização severa nos indicadores ADP-fóssil e GWP devido à sua natureza polimérica derivada do petróleo e aos processos industriais secundários de expansão.

Figura 2 – Contribuição do ADP-fóssil de cada material para a fase de Produto (Adaptado de Kappel Schor, 2025)

De forma semelhante, as indústrias de ladrilhos cerâmicos e de grés porcelânico, e da pedra natural, configuram-se como hot-spots de consumo de recursos fósseis por motivos distintos:
enquanto os primeiros dependem da queima intensiva de combustíveis fósseis nos fornos de alta temperatura necessários para a sua cozedura e vitrificação, a pedra natural (como o granito aplicado no cenário austríaco) apresenta uma carga significativa associada à energia
mecânica do processo extrativo, ao corte e ao impacte logístico do transporte de mercadorias pesadas.

O impacte destes hot-spots surge na génese do projeto, mesmo antes de o edifício entrar na sua fase ativa de utilização, consumindo antecipadamente o “orçamento de carbono” disponível para travar o aquecimento global a curto prazo.

Matriz de diretrizes de projeto de reabilitação para materiais estratégicos em Portugal

Para traduzir a complexidade matemática e científica da ACV em diretrizes de projeto de reabilitação céleres e operacionais para arquitetos e engenheiros civis, desenvolveu-se uma matriz de suporte à decisão. O mapeamento apresentado na Tabela 1 baseou-se numa escala qualitativa de impacte de cinco níveis (muito baixo, baixo, médio, alto e muito alto) que considera o contributo de cada material para os impactes totais do projeto de reabilitação. Para cada material foram considerados valores médios de referência de Declarações Ambientais de Produto (DAP) registadas no mercado ibérico.

Análise avançada e discussão teórica do balanço do ciclo de vida 

A modelação avançada do WLC revela que a relação entre o Carbono Incorporado e o Carbono Operacional não é linear, mas sim governada por uma lei de rendimentos decrescentes. O aumento indefinido da espessura de um isolante térmico numa envolvente reabilitada, por exemplo, gera incrementos marginais de poupança de energia operacional que decrescem a cada centímetro adicionado, enquanto o carbono incorporado associado à produção desse mesmo isolante cresce de forma estritamente linear ou volumétrica.

Este fenómeno exige que o projetista abandone a visão maximalista da eficiência operacional isolada e procure o “ponto ótimo de carbono”, onde a pegada do material adicionado não supera o benefício gerado na operação. Um segundo fator crítico prende-se com a Fase de Substituição (Módulo B4). Ao projetar para um horizonte temporal de 50 anos, deve-se considerar a taxa de degradação e a durabilidade real dos materiais.

Se um revestimento de baixa qualidade ou com aplicação deficiente (como um ladrilho mal aderido ou uma argamassa frágil) exigir substituição aos 20 ou 30 anos de serviço, o impacte ambiental da Fase de Produção (A1-A3) será duplicado dentro do ciclo de vida do edifício.

Para quantificar o potencial de mitigação destas emissões e validar o impacte de decisões alternativas no projeto, realizou-se uma análise de sensibilidade com base em quatro cenários distintos de otimização material.

Esta análise comprova que intervenções cirúrgicas na especificação técnica dos acabamentos e dos isolantes – tais como a redução da área de revestimentos cerâmicos em zonas húmidas ou a modelação criteriosa das espessuras de EPS – geram reduções substanciais e imediatas nas emissões totais de CO2 acumuladas. Os resultados decorrentes desta variação de pressupostos encontram-se sistematizados graficamente na Figura 3.

Como se depreende da análise da Figura 3, as superfícies revestidas a ladrilhos cerâmicos e grés porcelânico absorvem uma parcela desproporcional das emissões de carbono incorporadas. No contexto nacional (PT-Alt.1), a simples redução de 50% na área de revestimento de parede em grés, substituindo-a por superfícies contínuas de menor espessura e pegada ambiental como o microcimento ou rebocos à base de argila, demonstra
uma eficácia assinalável na contração da pegada carbónica inicial.

Figura 3. Potencial de redução das emissões de CO2 incorporado ao longo do ciclo de vida completo em quatro cenários alternativos de reabilitação (Adaptado de Kappel Schor, 2025).

Da mesma forma, a extrema sensibilidade do indicador GWP face à variação volumétrica dos poliestirenos (demonstrada no decréscimo vertical acentuado no cenário AU-Alt. 1) reforça que a otimização geométrica do isolamento e a transição para soluções de base biológica (ICB) são as alavancas mais potentes para assegurar que o balanço ecológico do edifício resulte num dividendo carbónico positivo no menor espaço de tempo possível. Importa salvaguardar que, no cenário AU-Alt. 1, a redução de 16 cm na espessura do EPS (de
30 para 14 cm) não acarreta um aumento excessivo nas emissões do Módulo B6.

Devido à lei dos rendimentos decrescentes associada ao desempenho térmico, a resistência térmica marginal introduzida para lá dos 14 cm gera poupanças operacionais residuais. Adicionalmente, face à reduzida intensidade carbónica do vetor energético considerado para o aquecimento neste cenário, o ligeiro incremento no consumo energético em uso é largamente compensado pela redução imediata e drástica de 24% no Carbono Incorporado
global da reabilitação, validando a procura pelo ponto ótimo de carbono em detrimento do maximalismo de isolamento operacional.

Estratégias de projeto sustentável

Com base nas evidências empíricas recolhidas pelas simulações de ACV, são estabelecidas quatro estratégias práticas para orientar projetos de reabilitação de edifícios focados na neutralidade carbónica em Portugal:

1. Substituição e Mitigação Sistemática de hot-spots: A redução imediata da pegada carbónica de uma intervenção de reabilitação alcança-se através da substituição direta dos materiais identificados como críticos:

  • Substituição nos acabamentos: os acabamentos tradicionais pesados, como os ladrilhos de grés porcelânico, devem ser substituídos por soluções contínuas de microcimento ou rebocos finos de argila. O microcimento reduz drasticamente a massa
    material necessária por metro quadrado, minimiza o desperdício em obra por corte e apresenta emissões inferiores na fase de fabrico;
  • Substituição nos isolantes: sempre que os requisitos técnicos de impermeabilização o permitam, deve-se mitigar o uso de poliestirenos (EPS/XPS), favorecendo isolantes com menores taxas de emissão na fase de produção, tais como a lã mineral ou placas de origem biológica.

2. Valoração e Priorização de Soluções de Base Biológica e Circulares: O investimento em isolamento térmico é o método mais eficaz para reduzir a pegada operacional (B6) no edificado português. Contudo, para que este ganho não seja neutralizado pela pegada ecológica do fabrico do isolante, deve-se priorizar a placa de Aglomerado Negro de Cortiça (ICB). A cortiça é uma matéria-prima endógena e renovável que armazena carbono capturado pela árvore durante o seu crescimento (carbono biogénico).

O processo industrial de fabrico do ICB utiliza os subprodutos da limpeza do montado e recorre à própria resina natural do material (suberina) para a aglomeração dos grânulos através de vapor de água, dispensando ligantes sintéticos ou colas poliuretânicas. Isto resulta num perfil ambiental com GWP Muito Baixo e ADP-fóssil Baixo, eliminando o risco de criação de uma dívida climática na fase A1-A3.

3. Otimização do Consumo por Controlo de Espessuras de Materiais Sensíveis: Para materiais cuja pegada ecológica apresenta uma dependência direta e linear do volume aplicado, o desenho arquitetónico e a execução em obra têm de ser validados ao milímetro. No caso da argamassa de cal, amplamente utilizada na reabilitação de edifícios antigos devido à sua compatibilidade física e permeabilidade ao vapor, o impacte ambiental inicial é elevado decorrente do processo térmico de descarbonatação do calcário por aquecimento.

Os dados de ACV evidenciam que a adição injustificada de espessura (e.g., enchimentos excessivos para retificação de prumos que poderiam ser resolvidos com técnicas secas ou modulares) inflaciona o GWP total do projeto. O controlo rigoroso das espessuras de aplicação é uma medida de eco-eficiência de custo zero e elevado retorno ambiental.

4. Gestão da Durabilidade (RSL) face ao Desempenho Térmico na Envolvente: O fecho dos vãos exteriores (caixilharias) exemplifica o dilema clássico da otimização do WLC. O PVC apresenta uma condutibilidade térmica inferior, reduzindo as perdas por transmissão térmica e otimizando o Carbono Operacional (B6). Em contrapartida, o alumínio exibe uma resistência superior a ciclos climáticos severos, radiação UV e salinidade costeira, conferindo-lhe uma
Vida Útil de Referência (RSL) significativamente mais longa.

Em projetos de reabilitação de longo curso, a especificação de caixilharias de alumínio com corte térmico avançado, associadas a vidro duplo de baixa emissividade (low-E), representa a solução mais equilibrada: minimiza as necessidades de substituição precoce (Módulo B4) e assegura que a eficácia da envolvente térmica permanece inalterada ao longo das décadas,
protegendo o edifício contra a degradação precoce do seu desempenho.

Conclusão: alcançar o balanço carbónico ótimo

A transição para a neutralidade carbónica no setor da construção civil exige uma mudança profunda de paradigma: a eficiência operacional já não pode ser perseguida a qualquer custo ambiental inicial. O Carbono Incorporado nos materiais representa uma emissão imediata e irreversível que se acumula na atmosfera no presente, enquanto as poupanças operacionais são promessas diferidas que se concretizam lentamente ao longo das próximas décadas.

O verdadeiro dividendo carbónico na reabilitação surge no momento exato em que a “dívida climática” inicial contraída pela introdução de novos materiais na fase de obra (Módulos A1-A3) é totalmente amortizada e ultrapassada pelas poupanças acumuladas de energia e carbono na fase de uso (Módulo B6). No contexto habitacional português, este balanço assume contornos de extrema urgência: devido à volatilidade ambiental da nossa rede elétrica, o isolamento e a reabilitação das fachadas são passos obrigatórios para mitigar o elevado peso do Carbono Operacional.

No entanto, para que este balanço carbónico seja vantajoso, maximizado e alcançado no menor espaço de tempo possível, é imperativo que os projetistas adotem critérios rigorosos
de seleção de materiais. Isto traduz-se na minimização de hot-spots intensivos em carbono e recursos fósseis, como o grés porcelânico e os poliestirenos (EPS/XPS), e na sua substituição por soluções contínuas de microcimento e materiais de base biológica regionais como a cortiça (ICB).

A aplicação sistemática da metodologia de Avaliação do Ciclo de Vida (ACV) consolida-se, assim, não apenas como uma ferramenta de diagnóstico pós-projeto, mas sim como o instrumento de projeto estratégico indispensável para converter a reabilitação de edifícios num motor real, mensurável e acelerado de descarbonização urbana.

Bibliografia

Os resultados mais detalhados deste estudo, incluindo a lista bibliográfica completa, estão disponíveis em open access em: https://fenix.tecnico.ulisboa.pt/cursos/mec21/
dissertacao/3098578385895698 – Thesis (Guide for the environmental life cycle assessment (LCA) of housing rehabilitation operations. Daniela Bombardelli Kappel Schor, Dissertação de Mestrado em Engenharia Civil no Instituto Superior Técnico. Orientadores: José Silvestre e Marcella Saade (TUGraz, Áustria). 2025)

Fotografia de destaque: © Shutterstock

As conclusões expressas são da responsabilidade dos autores.

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