Projecto europeu quer dar uma nova vida a edifícios devolutos e subutilizados

Podem os edifícios devolutos e subutilizados ajudar a responder à crise habitacional? O novo projecto europeu SpaceUp está à procura de respostas. Até 2029, vai testar soluções de reutilização e regeneração urbana em seis bairros de França, Espanha e Croácia, ao mesmo tempo que pretende reduzir o consumo de recursos e criar comunidades mais sustentáveis, inclusivas e que garantam as necessidades das populações locais. Por agora, os investigadores vão mapear espaços para compreender as oportunidades de transformação existentes em cada região. 

A reutilização de edifícios devolutos (isto é, completamente desocupados) e outros espaços subutilizados pode ser uma alternativa à expansão urbana e ao uso do solo e materiais. É esta a premissa do SpaceUp, um projecto europeu que pretende transformar áreas devolutas, antigas zonas industriais e espaços urbanos e rurais sem utilização em comunidades mais sustentáveis, inclusivas e adaptadas às necessidades locais. 

A iniciativa arrancou em Julho passado e, até 2029, vai desenvolver e testar soluções para melhorar a utilização dos espaços existentes em três regiões-piloto: a metrópole de Lille, em França, a Área Metropolitana de Barcelona, em Espanha, e o Noroeste da Croácia. No total, estão previstos seis bairros-piloto, entre os quais Trešnjevka, em Zagreb, e Konjščina; e Seclin e Aubers, na França.

Segundo o Instituto Europeu de Política de Energia e Clima (IEECP, na sigla em inglês) – uma das entidades parceiras do projecto -, o SpaceUp parte de um contexto marcado por necessidades distintas: enquanto algumas cidades enfrentam dificuldades no acesso à habitação, outras regiões, sobretudo rurais, lidam com o despovoamento e o abandono de edifícios e infra-estruturas. Segundo dados do Eurostat, referentes a 2024, mais de 30% dos edifícios da União Europeia (UE) estão subocupados. Aproveitar melhor o património que já existe poderá, assim, ajudar a responder às necessidades habitacionais e sociais sem aumentar necessariamente a pressão sobre o território.

Reutilizar antes de construir novo

A abordagem do SpaceUp assenta no princípio da suficiência (sufficiency, em inglês), que vai além da eficiência energética, uma vez que procura satisfazer as necessidades das populações com uma utilização mais eficiente dos recursos, ao reduzir a procura de energia, materiais, água, solo e espaço construído. 

Em articulação com os princípios da economia circular, esta perspectiva procura prolongar a vida útil dos edifícios e das infra-estruturas, privilegiando a adaptação e a reutilização em detrimento do consumo de novos recursos. O SpaceUp está, por isso, alinhado com os objetivos da Directiva de Desempenho Energético dos Edifícios (EPBD), do Plano de Acção para a Economia Circular e do Novo Bauhaus Europeu, que associa sustentabilidade ambiental, inclusão social e qualidade dos espaços.

Na prática, o projecto pretende identificar oportunidades para dar novas funções a edifícios devolutos, recuperar áreas urbanas subutilizadas, reutilizar terrenos e espaços anteriormente destinados a estacionamento e promover a utilização multifuncional de edifícios públicos. A criação de bairros de usos mistos, que integrem habitação, trabalho, serviços, cuidados e lazer, é outra das possibilidades a explorar.

Para apoiar estas intervenções, os parceiros vão começar por desenvolver um mapeamento digital que permita identificar e quantificar edifícios devolutos e espaços subutilizados, bem como avaliar o seu potencial de transformação. Está igualmente previsto um sistema de avaliação da suficiência dos bairros abrangidos pelo estudo e um modelo de análise do ciclo de vida, destinado a quantificar as reduções no consumo de energia, materiais e solo associadas às medidas que vão ser implementadas.

Olhar para a sustentabilidade com uma questão social

O SpaceUp pretende ainda compreender os obstáculos regulamentares, económicos e sociais que dificultam, actualmente, a reutilização destes edifícios, espaços públicos e infra-estruturas. O objectivo é produzir recomendações práticas que permitam às autoridades locais, aos urbanistas e aos restantes intervenientes ultrapassar essas barreiras e replicar as soluções com melhores resultados.

A dimensão social assume também um papel central, uma vez que o projecto quer promover uma transformação dos espaços que tenha em conta as necessidades das comunidades, a qualidade de vida e o princípio da inclusão, evitando que as medidas de sustentabilidade agravem desigualdades já existentes.

Para Elisabeth Dütschke, a suficiência não significa apenas utilizar menos espaço, mas também repensar a forma como este é organizado e utilizado colectivamente. “Ao ligarmos a investigação à aplicação prática [de medidas], procuramos capacitar comunidades e autoridades públicas a aproveitar melhor os recursos existentes, de forma inclusiva, sustentável e ajustada às necessidades locais”, afirma a coordenadora do SpaceUp, citada num comunicado a propósito do lançamento do projecto. 

Os resultados dos seis bairros-piloto deverão contribuir para identificar metodologias e medidas que possam ser replicadas noutras regiões europeias, promovendo uma utilização mais responsável do edificado e do território. Financiada pelo programa europeu Horizonte Europa, o projecto reúne oito parceiros e é coordenado pelo Fraunhofer Institute for Systems and Innovation Research (Fraunhofer ISI), da Alemanha.

Fotografia de destaque: © Magnific

PARTILHAR

PUBLICIDADE

REVISTA

AGENDA

SOBRE O AUTOR