A maioria dos proprietários europeus considera importante melhorar a eficiência energética das suas casas, mas apenas 13% dizem ter realizado uma renovação profunda que permitiu atingir elevados padrões de desempenho energético, de acordo com um inquérito levado a cabo pela União Internacional da Propriedade Imobiliária. Ao mesmo tempo, os primeiros planos nacionais para este fim, avaliados pela Comissão Europeia, revelam lacunas.
A vontade de melhorar a eficiência energética existe: 78% dos proprietários europeus reconhecem os benefícios dessa transição, 84% já renovaram os seus imóveis na última década, estão a renovar ou planeiam fazê-lo nos próximos dez anos, revela a União Internacional da Propriedade Imobiliária (UIPI). Mas a renovação profunda das casas dos europeus não acontece: apenas 13% dos proprietários dizem ter realizado uma renovação profunda que lhes permitiu atingir elevados padrões de desempenho energético. Os dados são resultado de um inquérito a 5 540 proprietários e senhorios em 32 países europeus, que decorreu em 2025.
Entre as principais motivações dos proprietários que realizarem estas renovações estão questões relacionadas com a manutenção e preservação dos imóveis (62%), com a melhoria do conforto térmico (54%) e as reduções nas despesas mensais em energia (46%),
Cinco em cada dez dos inquiridos que já renovaram ou estão a renovar os imóveis optaram por mudar a fonte para aquecimento. A energia eléctrica (42%) foi a mais adoptada, seguindo-se a energia solar (26%), a energia geotérmica (20%) e o gás (19%).
Sem financiamento ou apoio suficiente para avançar
De acordo com a UIPI, os custos associados à renovação energética surgem com o principal obstáculo, sendo que mais de um terço dos proprietários inquiridos afirma não dispor de financiamento ou apoio suficiente para avançar. Os proprietários mostraram ainda ter dúvidas sobre o retorno que esse investimento terá a longo prazo.
Embora, de forma geral nos países analisados, os recursos públicos sejam cada vez mais limitados, a UIPI observa uma “tendência clara de direccionar subsídios e subvenções, principalmente para as famílias mais vulneráveis ou para reformas profundas e de grande escala”, pode ler-se no relatório.
Embora cerca de 39% dos proprietários inquiridos tenham realizado reformas sem receber qualquer apoio financeiro, uma parte significativa beneficiou de deduções fiscais, subsídios ou subvenções, bem como como empréstimos e financiamentos “verdes”. Os dados mostram que entre aqueles que concluíram as reformas ou estão a realizá-las actualmente, as deduções fiscais (37%) são a forma de apoio mais comum, seguidas por subsídios ou subvenções (19%).
A associação europeia aponta, por isso, para uma lacuna entre a vontade e a capacidade de agir dos proprietários. Para acelerar a renovação do parque edificado europeu, a UIPI destaca a necessidade de se criaram incentivos financeiros estáveis, de assistência técnica que seja confiável e serviços integrados para esta transição mais visíveis.
Reformas são faseadas
Os resultados mostram ainda que a maioria destas reformas (71%) é executada por etapas, em vez de ser feita de uma só vez. Essa abordagem faseada também é a preferida pela maioria dos inquiridos que planeiam fazer renovações nos imóveis nos próximos anos.
A IUPI observa também que o apoio técnico é insuficiente: apenas 54% dos inquiridos receberam aconselhamento profissional durante o processo de renovação das suas casas. Apenas 11% dizem conhecer as one-stop shops que existem na sua região, isto é, estruturas de apoio técnico e orientação sobre financiamento especificamente criadas para este tipo de intervenções. Os proprietários que conhecem estes serviços fazem uma avaliação positiva do apoio que lhes foi prestado.
Maioria não possui certificado de desempenho energético
O relatório mostra ainda que a maioria dos proprietários inquiridos (54%) não tem certificado de desempenho energético dos imóveis. A certificação tem como objetivo avaliar de forma padronizada a eficiência energética de um edifício, sendo, geralmente, classificada numa escala de A+ (muito eficiente) a F (pouco eficiente) e são obrigatórios em toda a União Europeia (UE) sempre que um imóvel é vendido, alugado, passa por uma grande renovação, isto é, intervenções superiores a 25% do seu valor, ou para edifícios novos.
Em Portugal, a emissão do certificado energético é obrigatório desde 2008 para edifícios novos e desde 2013 para casas já existentes que sejam colocadas à venda ou para arrendamento, tendo uma validade de dez anos para habitação e pequenos edifícios de comércio e serviços e de oito anos para grandes edifícios de comércio e serviços.
A renovação do parque edificado será obrigatória por via da Directiva sobre o Desempenho Energético dos Edifícios (EPBD), nos próximos anos. Recorde-se que a EPBD estabelece como principal objetivo descarbonizar os edifícios europeus até 2050, através da redução progressiva do consumo energético e de emissões de gases com efeito de estufa.
Entre várias metas está também a redução do consumo médio de energia primária dos edifícios residenciais na Europa em 16% até 2030 e entre 20% e 22% até 2035, bem como emissões zero em todas as novas construções a partir de 2030, para todos os edifícios em 2050, e no caso dos edifícios públicos a partir de 2028. Os Estados-Membros devem ainda renovar 16% dos edifícios não residenciais com pior desempenho energético até 2030 e 26% até 2033.
Planos nacionais ainda não demonstram como renovação vai acontecer
Os países da UE encontram-se numa fase de revisão dos novos Planos Nacionais de Renovação dos Edifícios (PNRE) nos quais têm de definir estratégia para 2030, 2040 e 2050, e que entregaram recentememente à Comissão Europeia. Os Estados-Membros ainda dispõem de alguns meses para rever os projectos antes da apresentação das versões finais, previstas para Dezembro de 2026.
Por agora, sabe-se que, na maioria dos casos, os Estados-Membro não conseguem ainda demostrar de forma suficientemente clara como e em quanto é que essas medidas vão, efetivamente, reduzir o consumo energético e as emissões de carbono, segundo o Joint Research Centre (JRC), num primeiro relatório de avaliação da Comissão Europeia (CE) a 16 versões preliminares de planos, completas até junho passado. A análise revelou ainda lacunas na capacidade de combater a pobreza energética, sendo que apenas 30% dos planos estabelecem metas nessa matéria para todo o seu período de implementação.
No caso de Portugal, a CE pede, entre vários aspectos, uma maior articulação entre as metas nacionais de descarbonização e o objetivo de descarbonização dos edifícios até 2050, bem como uma descrição mais completa das políticas e medidas previstas, incluindo orçamentos, fontes de financiamento, os impactos previstos e outros aspectos como a calendarização das medidas. Bruxelas identificou também lacunas como a falta de medidas específicas para a renovação dos edifícios com pior desempenho energético, edifícios públicos, o combate à pobreza energética, a descarbonização do aquecimento dos edifícios e a adopção de fontes de energia renováveis no edificado.
Por outro lado, a renovação energética dos edifícios e o planeamento dos sistemas urbanos de aquecimento e arrefecimento continuam a ser tratados de forma pouco articulada na UE. Portugal está entre os países cuja primeira versão do PNRE não estabelece uma ligação clara com os Planos Locais de Aquecimento e Arrefecimento (LHCP), segundo a análise da CE.
Fotografia de destaque: © Shutterstock




