Solar térmico residencial recua nos edifícios europeus, mas ganha terreno na indústria e no aquecimento urbano 

O solar térmico para uso residencial recuou 6,5% em 2025, embora a tecnologia  esteja a crescer nos sectores da indústria e do aquecimento urbano. A instabilidade de incentivos e políticas públicas pode ajudar a explicar este decréscimo, aponta a Solar Heat Europe. Os fabricantes europeus já asseguram cerca de 90% da procura no velho continente e querem triplicar a produção destes equipamentos para evitar uma descarbonização dependente de importações.  

Em 2025, foram instalados 1,18 milhões de m2 de sistemas solares térmicos de uso residencial, equivalentes a 830 MWth, menos 6,5% do que em 2024. Os resultados constam no novo relatório “Descarbonising heat with solar thermal – European Solar Thermal Market Report and Outlook 2026″, divulgado pela Solar Heat Europe (SHE). Este recuo acontece num contexto em que o calor representa cerca de metade da procura energética da União Europeia (UE), mas apenas 27% desse consumo provém de energias renováveis.  

Os sistemas solares térmicos para aquecimento de água são soluções simples e de baixo custo e de elevado potencial em climas amenos e soalheiros. Estes equipamentos funcionam por meio da circulação natural da água, quando as partes quentes sobem e as frias descem, pelo que dispensam bombas mecânicas. Possuem como base placas ou colectores solares, que captam a energia solar para gerar calor, e um reservatório térmico, onde a água é armazenada.  

No total, existem já 12 milhões de telhados europeus equipados com sistemas solares térmicos, com uma capacidade em operação que se tem mantido estável, nos 43,6 GW térmicos. Todavia, há todo um potencial que permanece largamente por explorar, sublinha a SHE.  

A directora-geral da SHE alerta que o calor responde por metade das necessidades energéticas da UE e, no entanto, “permanece como o aspecto mais negligenciado da transição”. Para Valérie Séjourné, as metas da Europa em matéria de clima e segurança energética “só serão alcançadas mediante a promoção de todas as fontes de energia limpa para atender à sua maior procura energética”, sublinhou, em comunicado.

“A tecnologia solar térmica – uma tecnologia renovável desenvolvida e fabricada na UE, capaz de operar fora da rede e fornecer calor limpo e economicamente eficiente – deve ocupar um lugar central na segurança energética da Europa”, defendeu a responsável.

A instabilidade dos incentivos e políticas públicas é uma das principais causas que estão a travar a adopção destes sistemas, segundo a análise da SHE. Os mercados têm sido particularmente afectados por políticas de stop-start, isto é, políticas e incentivos que são interrompidos ou alterados, criando incerteza quer para os consumidores quer para as empresas. 

Na Alemanha, registou-se uma quebra de 30% em comparação com 2025. Este, que é o maior mercado europeu, foi afectado pela legislação alemã sobre o aquecimento de edifícios. Já na Grécia, os atrasos na execução de num programa nacional de subsídios fizeram para  instalações de novos sistemas solar térmicos durante parte do ano passado, pelo que o mercado grego estagnou. 

O relatório mostra que os resultados variam significamente entre os diferentes mercados europeus. Foi nos Países Baixos que se registou o maior aumento, acima das 148%, com a excecução de projectos de aquecimento urbano como o que se verificou na cidade de Groningen, seguindo-se o Chipre (+6%) e a França (+3,9%). 

Apesar de uma tendência de decréscimo no uso residencial, o relatório mostra que o solar térmico está a ganhar força no sector da indústria. O ano passado registaram-se novas instalações na UE no âmbito de 50 novos projectos de Solar Heat for Industrial Processes (SHIP), que, tal como o nome indica, estão destinados ao fornecimento de calor a processos industriais europeus. A SHE considera que estes projectos demonstram que o uso desta tecnologia pode acelerar quando estão reunidas condições adequadas de procura, licenciamento e financiamento. 

16 mil redes de aquecimento urbano na Europa

Além da indústria, novos sistemas de aquecimento urbano também podem vir a constribuir para acelerar a expansão desta tecnológia.  Foram 11 novos projectos de aquecimento urbano que ajudaram a Alemanha a compensar parcialmente a queda que se registou a nível residencial. De acordo com a SHE, existem 16 mil redes de aquecimento urbano na Europa que precisam de recorrer a fontes de energia renovável. 

Por agora, os fabricantes europeus já asseguram cerca de 90% da procura na Europa, mas afirmam ter capacidade para triplicar a produção. O presidente SHE defende que a Europa já dispõe de uma base industrial capaz de responder ao aumento da procura. “Este ano, mais do que nunca, testemunhamos os efeitos das mudanças climáticas, com ondas de calor recordes e incêncios florestais que se espalharam pela Europa. O momento de agir é agora, e a tecnologia solar térmica está pronta para oferecer resultados”, advertiu, também em comunicado, Guglielmo Cioni.

Para o responsável, a prioridade deverá passar por criar condições de mercado estáveis nos diferentes Estados-membros, evitando simultaneamente uma nova dependência das importações e reforçando a segurança energética europeia.

Neste sentido, a associação apela a uma implementação mais rápida do pacote “Objectivo para 55” – que visa reduzir as emissões de gases com efeito de estufa da União Europeia em 55% até 2030 -, e a um forte Plano de Acção Europeu para o Aquecimento e Arrefecimento, considerando que estes instrumentos podem contribuir para dar maior previsibilidade ao mercado e estimular o investimento no solar térmico para edifícios, indústria e redes de aquecimento urbano.

Fotografia de destaque: © Shutterstock

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