Em Telheiras, a energia renovável cresce pelas mãos da comunidade

Em pouco mais de ano, a Comunidade de Energia Renovável de Telheiras/Lumiar, em Lisboa, passou de um pequeno projecto-piloto com 16 membros para uma comunidade com dezenas de participantes, dois sistemas fotovoltaicos e uma potência instalada conjunta de mais de 30 kWp. Numa altura em que se prepara para uma terceira fase de expansão, com uma nova instalação na escola básica do bairro, a primeira comunidade de energia de base cidadã em Portugal foi agora distinguida com o Prémio Cooperação e Solidariedade António Sérgio 2026.

Produzir energia elétrica renovável, reduzir a factura da electricidade e, ao mesmo tempo, integrar famílias vulneráveis num sistema energético que envolve ativamente a comunidade do bairro. Foi com essa missão que, há pouco mais de um ano, entrou em operação a Comunidade de Energia Renovável (CER) de Telheiras/Lumiar, que tem vindo a crescer com o envolvimento de moradores destes dois bairros lisboetas e de organizações locais. 

A experiência do projecto – coordenado pela Associação Viver Telheiras e promovido pela parceria Viver Telheiras e pela Junta de Freguesia do Lumiar – valeu-lhe agora o Prémio Cooperação e Solidariedade António Sérgio 2026, atribuido pela CASES – Cooperativa António Sérgio para a Economia Social, que distingue, anualmente, iniciativas com contributos relevantes para a economia social.  

A CASES destacou a CER Telheiras/Lumiar na categoria Inovação e Sustentabilidade, como um projeto de inovação social e tecnológica que representa uma das primeiras comunidades de energia renovável lideradas por cidadãos em operação em Portugal, com a missão de investir, produzir, gerir e partilhar energia renovável sem fins lucrativos, contribuindo para um modelo energético mais democrático, participativo e baseado em fontes renováveis.

Para Miguel Macias Sequeira, este prémio é um reconhecimento que valoriza não só o carácter pioneiro do projecto, mas também de um trabalho colectivo desenvolvido ao longo de vários anos pelas mãos de moradores, voluntários, parceiros e entidades públicas. O coordenador da CER Telheiras/Lumiar faz um balanço positivo do primeiro ano de operação.

“Começámos com 16 membros e um sistema fotovoltaico apenas com 13 painéis [fotovoltaicos] durante a fase piloto para percebermos como é que isto funcionava. No final do ano passado, conseguimos aumentar para 70 membros e dois sistemas fotovoltaicos, em que o segundo já é bastante maior, instalado num pavilhão desportivo”, afirma Miguel Macias Sequeira, à Edifícios e Energia. 

O projecto-piloto foi testado no Antigo Lagar da Quinta de São Vicente. Foi em Setembro de 2025 que a CER instalou este segundo sistema solar fotovoltaico com 44 painéis solares no telhado do Pavilhão Gimnodesportivo do Alto da Faia, que permitiu a entrada de 50 novos membros. No conjunto, a potência instalada ronda, actualmente, os 30 kWp. 

O projecto distingue-se de modelos de autoconsumo colectivo precisamente pela sua natureza associativa e pela ausência de uma finalidade lucrativa. “Tem havido alguma confusão a nível nacional entre o que são as comunidades de energia [renovável] e modelos de autoconsumo colectivo. A grande diferença é que as comunidades de energia não têm como fim o lucro e têm de ter uma entidade legal que as represente, que seja a própria comunidade”, explica o também investigador no CENSE NOVA-FCT, laboratório que, em conjunto com a Coopérnico, contribui para a colaboração técnica e científica da CER Telheiras/Lumiar. 

Outra das dimensões que Miguel Macias Sequeira destaca é a capacidade de mobilização de investimento por parte dos próprios cidadãos. Até agora, foram mobilizados cerca de 25 mil euros para investimentos na CER Telheiras/Lumiar. O retorno desse investimento faz-se sobretudo através da redução das facturas de electricidade. “Tem um retorno relativamente rápido, em 3, 4 anos, através das poupanças nas facturas”, aponta o coordenador. Todavia, o tempo de retorno depende dos consumos e do tarifário de electricidade de cada membro que pertence à comunidade energética. No total, até agora a CER permitiu alcançar uma redução de 6 a 7 mil euros.

Mas o impacto da CER Telheiras/Lumiar vai além da poupança energética. A inclusão de famílias em situação de vulnerabilidade socioeconómica destes bairros é uma das apostas centrais deste modelo.  “A inovação passa também por pensar como incluir famílias  vulneráveis, o que é bastante importante”, defende. Miguel Macias Sequeira explica que estas famílias não pagam pela entrada no projecto, sendo a componente social financiada através de uma contribuição adicional, de valor reduzido, das restantes famílias. 

Além do reconhecimento público, o prémio da CASES inclui uma componente monetária de cinco mil euros. No caso da CER Telheiras/Lumiar, esse valor terá uma utilização directamente relacionada com uma das dimensões que esteve na origem da distinção. “Vamos usá-lo na parte social de apoio às famílias vulneráveis”, revela Miguel Macias Sequeira. A decisão segue a filosofia do projecto: utilizar a produção local de energia renovável não apenas para reduzir custos e aumentar a autonomia energética daqueles bairros, mas também para criar mecanismos de solidariedade e participação comunitária.

Terceira fase de expansão supera expectativas 

O crescimento da CER não deverá ficar pelos dois sistemas actualmente em funcionamento. Está em preparação uma terceira fase de expansão, que prevê a instalação de uma nova unidade fotovoltaica na Escola Básica n.º 1 de Telheiras, com cerca de 142 painéis solares e uma potência instalada de 83,8 kWp, que permitirá aumentar a produção renovável local e alargar a participação a novos membros. As incrições terminaram em Julho passado. 

O coordenador revela que a adesão da comunidade superou largamente as expectativas da organização. Depois de, na segunda fase, terem sido registadas cerca de 60 a 70 inscrições, a terceira fase chegou às 150 inscrições. Em termos de participações energéticas, estavam disponíveis 216, mas foram solicitadas mais de 300. “A meta foi ultrapassada por mais de 40%”, salienta Miguel Macias Sequeira, atribuindo este crescimento sobretudo ao “passar a palavra” de vizinho para vizinho. 

“Foi muito orgânico. Pensámos que teríamos de ter, por exemplo, uma pessoa na rua a falar com as pessoas, a divulgar e a visitar os estabelecimentos de comércio. Mas acabou por não ser preciso, porque se cada um falar no café, no restaurante ou com o vizinho, essa comunicação acontece toda”, aponta. 

A nova instalação deverá ainda avançar este ano, embora o calendário dependa da formalização necessária com as entidades públicas responsáveis pelo edifício. A CER encontra-se agora a articular o processo com a Junta de Freguesia do Lumiar e a Câmara Municipal de Lisboa. 

Um modelo com potencial para crescer

Miguel Macias Sequeira acredita que o reconhecimento atribuído ao prémio da CASES pode funcionar também como um impulso para a criação de novas comunidades de energia em Portugal, embora a CER Telheiras/Lumiar não seja um caso isolado. A CER da Ilha da Culatra, no Algarve, avançou praticamente em paralelo e constitui outro exemplo de um modelo de base comunitária aplicado num contexto muito diferente, nota o investigador. 

“Este modelo é aplicável numa ilha remota no Algarve como é num bairro urbano de Lisboa. Isto mostra que este modelo dá para aplicar no país todo”, afirma. O  interesse tem vindo a estender-se a diferentes territórios, desde a Comenda (Gavião), no distrito de Portalegre, a São Luís (Odemira), no distrito de Beja. 

A partilha de conhecimento é, por isso, uma das prioridades da CER Telheiras/Lumiar. Há cerca de dois anos, a comunidade publicou um guia prático com dez passos para a criação de uma comunidade de energia renovável, baseado na experiência do próprio projecto.

Com a entrada em operação das instalações fotovoltaicas, a equipa teve também de desenvolver ferramentas digitais para a gestão da comunidade, nomeadamente para o tratamento de dados e para a optimização da partilha de energia. Essas ferramentas encontram-se ainda em fase de testes e aperfeiçoamento, mas a intenção é disponibilizá-las a outros projectos. “Estamos disponíveis a partilhá-las com qualquer outro projecto que siga esta filosofia do envolvimento da comunidade, do sector da economia social, das autarquias”, afirma Miguel Macias Sequeira.

Por agora, um dos maiores desafios é a ausência de mecanismos públicos de financiamento especificamente destinados ao desenvolvimento de CER de iniciativa cidadã. Mas começam a surgir oportunidades como o concurso Comunidades de Energia Gulbenkian –  promovido pela Fundação Calouste Gulbenkian em parceria com a Coopérnico -,  para colmatar essa falta.

O concurso, cujas candidaturas decorrem até 16 de Setembro, prevê apoiar dez projectos de iniciativa cidadã, com um financiamento de até 30 mil euros por projecto. A iniciativa procura responder a algumas das principais barreiras à criação destas comunidades, nomeadamente o investimento inicial, a capacitação técnica e a literacia energética, privilegiando projectos que promovam a participação dos cidadãos e a inclusão de famílias economicamente vulneráveis.

Fotografia de destaque: © Viver Telheiras

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