Every1: Capacitar pessoas para a transição energética digital europeia

Este artigo foi originalmente publicado na edição nº 166 da Edifícios e Energia (Julho/Agosto 2026).

A transição energética europeia está a entrar numa nova fase. Depois de vários anos centrados na expansão das energias renováveis, na eficiência energética e na descarbonização, a digitalização assume, actualmente, um papel determinante na forma como a energia é produzida, gerida, distribuída e consumida. Contadores inteligentes, plataformas digitais, mercados locais de energia, sistemas de flexibilidade, comunidades energéticas e infraestruturas baseadas em dados estão a transformar profundamente o sector energético.

No entanto, esta transformação tecnológica traz consigo um desafio frequentemente subestimado: a capacidade de os diferentes intervenientes compreenderem e utilizarem as novas ferramentas digitais. É precisamente neste contexto que surge o projecto europeu EVERY1 – Enable eVeryone’s Engagemet in the eneRgY transitiON, financiado pelo programa Horizon Europe. O consórcio reuniu onze parceiros de sete países europeus, unindo diversidade de competências para alcançar um resultado mais completo e abrangente. 

O projecto parte de uma premissa simples, que é o facto de a transição energética digital só ser bem-sucedida se os cidadãos, as autoridades locais, as empresas, os reguladores e os operadores de rede possuírem as competências necessárias para participarem activamente neste novo ecossistema energético. 

O desafio da literacia energética digital

A crescente digitalização do sector energético está a criar oportunidades para a gestão eficiente da energia, para a participação dos consumidores nos mercados eléctricos e para a integração de recursos distribuídos. Contudo, o ritmo de evolução tecnológica tem sido superior à capa cidade de adaptação de muitos utilizadores. 

Segundo Ricardo Silva, da RdA Climate Solutions, parceira portuguesa do consórcio EVERY1, “o principal bloqueio à transição energética digital não é tecnológico, mas sim a capacidade dos cidadãos e restantes stakeholders para compreender, interpretar e utilizar essa transformação. É necessária uma literacia energética e digital básica, mas sólida”.

Alguns exemplos são “compreender como e para que funcionam tarifas, contadores inteligentes, dados de consumo, direitos sobre esses dados e o que significa participar em programas de flexibilidade ou em comunidades de energia. Sem essa base, o risco é termos um sistema altamente sofisticado em cima de comportamentos desinformados, com desigualdades acrescidas.” 

Além disso, o papel das entidades públicas e de poder local é crucial para “combinar competências de planea mento energético e climático com capacidades de leitura e utilização de dados, contratação de serviços digitais e desenho de programas centrados no utilizador. A experiência da RdA Climate Solutions mostra que, quando se apoia uma autarquia a integrar informação territorial, energética e social, torna-se mais fácil priorizar investi mentos no combate à pobreza energética. 

Do lado dos reguladores e operadores de rede, ganham importância competências em governança de dados, modelação de flexibilidade, cibersegurança e desenho de regras de mercado que favoreçam a participação de pequenos recursos distribuídos, em linha com a orientação europeia para mercados mais flexíveis e centrados no consumidor.” 

Para o gestor de projecto da RdA, “o desafio central não reside na disponibilidade de tecnologia, mas numa lacuna de literacia energética e digital”. Esta lacuna torna-se particularmente relevante num contexto em que surgem mercados energéticos mais complexos, mecanismos de flexibilidade, serviços baseados em dados e novas formas de participação dos consumidores.

Uma abordagem centrada nos utilizadores 

Ao contrário de muitos projectos tecnológicos que começam pela solução, o EVERY1 começou pelas pessoas. Numa primeira fase, o consórcio realizou uma caracterização aprofundada dos diferentes grupos de utilizadores envolvidos na transição energética digital. Foram analisados cidadãos, comunidades de energia, autoridades locais, empresas, reguladores e operadores de rede, procurando compreender os seus níveis de conhecimento, necessidades de informação e barreiras à participação. 

Esta análise permitiu desenvolver um conjunto de personas e percursos de utilização (user journeys) que ser viram de base à construção de estratégias de capacitação diferenciadas. Como explica Ricardo Silva, “caracterizar em detalhe quem são as diferentes pessoas (desde cidadãos e comunidades de energia até reguladores e operadores de rede), que informação precisam, em que momento e em que formato.” 

A metodologia adoptada procurou responder a uma realidade frequentemente observada nos projectos de inovação, que é a fragmentação da informação e a dificuldade em adaptar conteúdos técnicos a públicos com níveis de conhecimento muito distintos.

Diferentes perfis, diferentes formas de aprendizagem

Um dos principais resultados do projecto foi a criação de percursos de aprendizagem estruturados, adaptados aos vários perfis de utilizador. Estes percursos abordam temas como os mercados de electricidade, a integração de energias renováveis, a flexibilidade da procura, os edifícios inteligentes, as tecnologias IoT, os contadores inteligentes, a gestão energética em comunidades e os desafios associados à protecção de dados e à cibersegurança. 

A abordagem foi concebida para permitir uma progressão gradual do conhecimento, desde conceitos introdutórios até conteúdos mais especializados, garantindo que cada utilizador possa construir competências de forma consistente. De acordo com a própria plataforma EVERY1, o projecto pretende identificar as necessidades específicas de conhecimento dos diferentes stakeholders e disponibilizar materiais de capacitação ajustados aos seus contextos de actuação. 

Every1 Knowledge Hub: mais do que um repositório de conteúdos

Para disponibilizar estes recursos, foi criado o EVERY1 Knowledge Hub, uma plataforma digital concebida para funcionar como um ambiente integrado de aprendizagem. Segundo Ricardo Silva, “o Knowledge Hub do EVERY1 é, acima de tudo, um ambiente de aprendizagem estruturado em torno de perfis de utilizador, e não apenas um repositório de conteúdos.” 

A plataforma é suportada por uma biblioteca modular que integra cursos de curta duração, vídeos, fichas técnicas, estudos de caso, materiais explicativos e recursos interactivos. A organização dos conteúdos permite que cada utilizador siga percursos de aprendizagem personalizados, de acordo com o seu perfil, experiência prévia e interesses específicos.

“A principal diferença face a outras plataformas educativas reside na combinação entre especialização temática e um desenho pedagógico orientado ao uso prático. O Hub foi desenvolvido com base num diagnóstico estruturado das falhas de conhecimento em vários ecossistemas europeus e pensado desde início como uma infraestrutura de capacitação, passível de integração em estratégias locais, como planos municipais de energia ou programas de formação técnica”, explica Ricardo Silva.

Esta abordagem está alinhada com a visão europeia para a digitalização da energia, que defende uma participação mais activa dos cidadãos e o reforço das competências necessárias para operar sistemas energéticos cada vez mais inteligentes e descentralizados.

Gamificação como ferramenta de aprendizagem

Entre as iniciativas mais inovadoras desenvolvidas pelo projecto destaca-se a utilização de ferramentas educativas interactivas e de mecanismos de gamificação. 

“O jogo pode colocar a pessoa numa posição em que tem de decidir quando consumir, armazenar ou deslocar consumos, percebendo imediatamente o impacto dessas escolhas no sistema e na factura”. O exemplo mais repre sentativo desta abordagem é o jogo educativo Peak and Off Peak Peacock, desenvolvido para explicar conceitos como gestão de carga, horários de ponta, integração de energias renováveis, serviços de rede e optimização dos consumos. 

A ferramenta foi testada em contexto real, incluindo uma experiência realizada com crianças numa escola do concelho de Matosinhos. Segundo Ricardo, o objectivo foi “simplificar sem desvirtuar”, tornando conceitos complexos mais acessíveis a públicos não especializados. “Quando estas ferramentas são articuladas com contextos territoriais concretos, por exemplo, sessões com escolas ou programas municipais de sensibilização, conseguimos ligar a experiência de jogo à realidade das famílias, dos edifícios e dos bairros, reforçando a literacia energética de forma duradoura.” 

Apoiar políticas públicas mais eficazes

Para além da capacitação individual, o projecto procura também apoiar decisores públicos e entidades responsáveis pela implementação de políticas energéticas. A análise das barreiras enfrentadas pelos utilizadores fornece informação relevante para o desenho de instrumentos como tarifas dinâmicas, programas de flexibilidade, incentivos à digitalização de edifícios ou mecanismos de apoio às comunidades de energia. 

“Um dos contributos mais relevantes do EVERY1 é fornecer uma leitura estruturada de como diferentes tipos de utilizadores experienciam a transição energética digital e de quais são as suas barreiras reais, sejam elas de linguagem, de confiança, de tempo, de acesso a dados ou de compreensão dos novos modelos de mercado. Essa informação é muito valiosa para quem desenha políticas públicas porque permite calibrar instrumentos como tarifas dinâmicas, programas de flexibilidade, incentivos à digitalização de edifícios ou esquemas de apoio a comunidades de energia com base em evidência concreta”. 

O Knowledge Hub entra aqui em acção, porque as suas metodologias “podem ser usadas directamente pela administração pública, por exemplo, na capacitação das suas equipas. Políticas como planos de acção para a descarbonização ou as reformas do mercado de electricidade só serão eficazes se os actores no terreno tiverem competências para implementar novas ferramentas, gerir dados e comunicar com os consumidores, que também necessitam de estar informados.” 

Esta perspectiva é relevante numa altura em que a União Europeia reforça a integração entre transição energética e transformação digital. O projecto surge, assim, como um instrumento de apoio à implementação de políticas mais centradas no utilizador e baseadas em evidência. 

O futuro da energia será digital e humano

As tendências identificadas pelos parceiros do projecto apontam para uma convergência crescente entre infraestruturas energéticas e infraestruturas de dados. A expansão dos espaços comuns de dados energéticos, dos gémeos digitais, da inteligência artificial e dos dispositivos inteligentes deverá aumentar significativamente a capacidade de monitorização e optimização dos sistemas energéticos. 

Paralelamente, edifícios inteligentes, comunidades de energia, armazenamento distribuído e mobilidade eléctrica irão depender cada vez mais de plataformas digitais e algoritmos de gestão. Contudo, o sucesso desta evolução continuará dependente das pessoas. 

“Projectos como o EVERY1 mostram que é possível estruturar essa capacitação de forma sistémica: desde percursos de aprendizagem para reguladores e operadores até jogos e recursos didáticos para escolas e cidadãos. Ao mesmo tempo, iniciativas complementares demonstram como esse conhecimento pode ser ancorado em territórios específicos, traduzido em planos, projectos e intervenções concretas em municípios e regiões.” 

Como sintetiza Ricardo Silva, “a capacitação é, na nossa perspectiva, tão ou mais relevante que a infraestrutura física”. E acrescenta uma ideia que resume a filosofia do projecto: “se quisermos uma transição energética que seja não só rápida, mas também justa e inclusiva, a capacitação deixa de ser um apêndice e passa a ser uma verdadeira infraestrutura crítica.” 

O EVERY1 demonstra, assim, que a transição energética digital não é apenas uma questão tecnológica. É, acima de tudo, um processo de transformação social que exige conhecimento, participação e inclusão. Ao criar metodologias, ferramentas e recursos educativos adaptados a diferentes perfis de utilizadores, o projecto estabelece um modelo replicável para apoiar uma Europa mais preparada para os desafios energéticos do futuro.

Fotografia de destaque: © Shutterstock

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