Descarbonizar os edifícios nas cidades: A estratégia de Guimarães para atingir a neutralidade carbónica

Este artigo foi originalmente publicado na edição nº 166 da Edifícios e Energia (Julho/Agosto 2026).

A descarbonização deixou de ser apenas uma expressão associada às políticas ambientais para se tornar num dos maiores desafios económicos, sociais e urbanos deste século. Enquanto a generalidade dos países europeus aponta para a neutralidade carbónica em 2050, Guimarães decidiu antecipar a meta em duas décadas. A cidade quer tornar-se climaticamente neutra até 2030 ao transformar um objectivo que muitos ainda encaram como uma ambição distante num compromisso político de execução a curto prazo. A renovação dos edifícios surge no topo das prioridades.

A estratégia de Guimarães assenta numa visão integrada: através do Plano Municipal de Acção Climática e da participação na Missão Europeia das 100 Cidades Inteligentes e Climaticamente Neutras, o município procura posicionar-se como um “laboratório de inovação urbana” capaz de mostrar que a transição ecológica pode ser, simultaneamente, uma resposta às alterações climáticas e uma oportunidade de desenvolvimento económico e melhoria da qualidade de vida dos munícipes.

Uma coisa é certa: o caminho a ser traçado é exigente, dependente da mobilização de recursos financeiros, da capacidade técnica das instituições e, sobretudo, do envolvimento da comunidade.

Um modelo de desenvolvimento do território

A ambição de tornar Guimarães climaticamente neutra até 2030 não surgiu de forma repentina nem resulta apenas da necessidade de cumprir metas ambientais europeias. A estratégia é o reflexo de uma transformação mais profunda que o município tem vindo a construir ao longo da última década. 

Com um forte tecido industrial e empresarial, grande parte da actividade económica de Guimarães provém de sectores como o têxtil, o vestuário, o calçado e a metalomecânica. Este dinamismo económico foi determinante para o crescimento do concelho, mas também contribuiu para aumentar as necessidades energéticas do território e a sua dependência de modelos de produção e consumo intensivos em recursos.

Foi assim que a descarbonização começou a ser encarada pelo município não como uma política ambiental isolada, mas como uma estratégia de desenvolvimento territorial. Esta visão é assumida pela autarquia como um dos pilares da transformação do concelho. Segundo Alberto Martins, vereador do Ambiente na Câmara Municipal de Guimarães, a transição energética deve ser entendida de forma integrada, articulando objectivos climáticos, económicos e sociais: “Em Guimarães, a reabilitação energética dos edifícios está além da exigência regulatória europeia ou nacional. É uma prioridade estratégica que converge em objectivos indissociáveis, como a descarbonização, a qualidade de vida e a competitividade territorial.”

A aposta passou, assim, a centrar-se na transformação gradual da forma como a cidade produz e consome energia, gere os seus recursos e prepara o território para responder aos impactos das alterações climáticas.

Este percurso começou a ganhar forma em 2013, com a adesão de Guimarães ao Pacto de Autarcas para o Clima e Energia. A partir daí, foram sendo desenvolvidos vários instrumentos de planeamento e modelos de governação colaborativa que envolveram a autarquia, universidades, empresas, associações e cidadãos na definição de objectivos para a próxima década.

Da estratégia climática aos compromissos para 2030

Enquanto a estratégia nacional aponta para a neu tralidade carbónica em 2050, Guimarães pretende alcançar esse objectivo vinte anos mais cedo, até ao final da presente década. 

A ambição está formalizada no Plano Municipal de Acção Climática (PMAC), aprovado em 2024, o principal instrumento que orienta a estratégia local de mitigação e adaptação às alterações climáticas. O documento es tabelece um conjunto alargado de medidas dirigidas a sectores vistos como prioritários, como os edifícios, os transportes, a produção de energia, entre outros. 

Resumindo, o PMAC pretende funcionar como um instrumento transversal de transformação do território, alcançando a neutralidade carbónica através de uma abordagem que seja capaz de articular políticas públicas, investimento privado e a participação activa da comunidade. 

Em 2023, Guimarães foi uma das cidades seleccionadas para integrar a Missão das 100 Cidades Inteli gentes e Climaticamente Neutras da União Europeia. A iniciativa reúne cidades-piloto de vários países europeus com o objectivo de acelerar a transição climática e desenvolver soluções com capacidade de serem replicadas noutros territórios. 

No âmbito desta participação, o município desenvolveu o seu Contrato Climático da Cidade, um com promisso colectivo que envolve a autarquia, empresas, associações, instituições de ensino e cidadãos na concretização das metas estabelecidas. Paralelamente, foi criado o Pacto Climático de Guimarães, um mecanismo através do qual diferentes entidades alinham as suas próprias estratégias de descarbonização com os objectivos definidos pelo município.

 

 

A dimensão do desafio é significativa. A descarbonização implica intervir em praticamente todos os sectores de actividade e concretizar, num curto espaço de tempo, mudanças estruturais que noutros contextos estão projectadas para as próximas duas ou três décadas. A questão deixa de ser apenas a definição de metas ambiciosas e passa a centrar-se na capacidade de as transformar em resultados concretos.

É precisamente nessa fase de implementação que os edifícios assumem um papel determinante. Num território com mais de 45 mil edifícios – segundo os Censos 2021 -, a renovação do parque edificado surge como uma das peças centrais da estratégia de descarbonização do concelho. 

A descarbonização do edificado como prioridade 

Em Guimarães, a descarbonização dos edifícios assume um papel estratégico, não apenas pelo impacto que o sector tem no consumo energético do concelho, mas também pela sua relação directa com a qualidade de vida da população. 

De acordo com o Plano Municipal de Acção Climática, os sectores doméstico e dos serviços repre sentam cerca de 18% da energia final consumida no município, tornando evidente a necessidade de intervir num parque edificado que apresenta desafios significativos em matéria de eficiência energética e conservação. 

Embora nove em cada dez edifícios tenham sido construídos depois de 1946 e mais de metade após 1980, quase um terço necessita actualmente de obras de reparação, evidencia a segunda revisão do Plano Director Municipal. 

As diferenças territoriais são particularmente evidentes. Moreira de Cónegos concentra o maior número absoluto de edifícios a necessitar de intervenções ligeiras ou médias, enquanto Selho (São Cristóvão) apresenta a maior proporção deste tipo de construções. Nos casos de degradação mais acentuada, destacam-se Lordelo, a União de Freguesias de San de Vila Nova e Sande São Clemente e Candoso (São Martinho), esta última com a maior percentagem de edifícios em avançado estado de degradação do concelho.

 

 

Perante este cenário, a estratégia municipal aposta numa abordagem integrada que combina a reabilita ção energética dos edifícios, a redução dos consumos e a promoção da produção local de energia renovável.  As intervenções previstas incluem o reforço do isolamento térmico de paredes e coberturas, a substituição de janelas e caixilharias, a modernização dos sistemas de aquecimento e arrefecimento e a melhoria da eficiência associada à produção de águas quentes sanitárias. 

Segundo as estimativas do PMAC, a reabilitação energética dos edifícios residenciais poderá reduzir o consumo anual de energia em 152 969 MWh e evitar a emissão de 24 138 toneladas de CO2 equivalente. Nos edifícios de serviços, o potencial de redução ascende a 63 739 MWh por ano e a 13 764 toneladas de CO2 equivalente. 

Para o município, a transformação do parque edificado será decisiva para cumprir as metas de neutralidade climática. “A neutralidade climática não se alcança apenas com grandes infraestruturas; constrói-se edifício a edifício, residência a residência e comunidade a comunidade, transformando o parque edificado num activo de sustentabilidade, resiliência e qualidade de vida”, afirma Alberto Martins. 

O município procura também combater situações de pobreza energética e incentivar a adopção de novos hábitos de consumo, através de acções de sensibilização e da criação de mecanismos de apoio aos proprietários e promotores imobiliários. 

A aposta passa igualmente por promover novos padrões construtivos. Guimarães pretende incentivar a construção de edifícios com necessidades quase nulas de energia e estimular a adopção de sistemas voluntários de certificação ambiental, numa lógica que procura antecipar as exigências futuras da construção sustentável. 

No fundo, mais do que reduzir consumos energéticos, o objectivo passa por criar habitações mais confortáveis, diminuir a vulnerabilidade das famílias perante os custos da energia e tornar o território mais resiliente às alterações climáticas. 

Alguns projectos no terreno

A estratégia de descarbonização de Guimarães está a traduzir-se num conjunto de projectos concretos nas áreas da energia, dos edifícios e da eficiência energética. Segundo o vereador do Ambiente, Alber to Martins, o município tem vindo a “operacionalizar um conjunto de intervenções com vista à obtenção das metas de neutralidade climática estabelecidas no Plano Municipal de Acção Climática”. 

Entre as iniciativas em curso, destacam-se os novos edifícios de consumo quase nulo de energia (NZEB), como a Escola Hotel e as Residências AvePark, que, segundo o autarca, representam “um novo paradigma de construção pública”. A autarquia está também a promover a reabilitação energética de es colas e unidades de saúde, através de intervenções destinadas a melhorar o desempenho energético e o conforto dos utilizadores. 

Na área da produção de energia renovável, está prevista a instalação de um sistema de autoconsumo colectivo que permitirá abastecer 42 edifícios municipais. “A energia gerada localmente alimentará, de forma optimizada, uma rede de 42 edifícios municipais, reduzindo a dependência da rede eléctrica convencional”, explica Alberto Martins. 

Paralelamente, Guimarães participa no projecto europeu LIFE Plan4Cold, que prevê a elaboração de um plano dedicado ao aquecimento e arrefecimento urbano. 

Da dependência energética à produção local de energia

A estratégia de descarbonização de Guimarães não passa apenas por consumir menos energia. Passa também por alterar a forma como essa energia é produzida e distribuída, reduzindo a dependência de fontes externas e aproximando a produção dos locais onde a energia é consumida. 

Neste domínio, o concelho ocupa já uma posição de destaque a nível nacional. Segundo dados da E-Redes, divulgados pelo Expresso, Guimarães era, no final do segundo trimestre de 2025, o município português com o maior número de instalações de autoconsumo solar, contabilizando 6061 unidades e mais de 57 me gawatts de potência instalada. Em termos relativos, a energia de fonte solar está presente em cerca de 8% dos consumidores do concelho, confirmando a forte adesão a este modelo descentralizado de produção energética. 

Esta dinâmica acompanha a estratégia definida pelo Plano Municipal de Acção Climática, que identifica o autoconsumo e as Comunidades de Energia Renovável (CER) como instrumentos essenciais para acelerar a transição energética local. Segundo as estimativas do município, a produção local de electricidade po derá evitar, anualmente, a emissão de cerca de 25 mil toneladas de dióxido de carbono equivalente no sector residencial e de mais de 18 mil toneladas no sector dos serviços. 

Para o município, o autoconsumo e as CER representam mais do que uma solução tecnológica ou uma forma de reduzir emissões: “A visão para a energia em Guimarães é clara e coloca os cidadãos e as insti tuições como protagonistas da transição energética”, afirma o vereador do Ambiente, Alberto Martins. O responsável defende uma lógica de democratização da energia, na qual cidadãos e empresas deixam de ser apenas consumidores para assumirem um papel mais activo na produção e gestão dos recursos energéticos. 

 

 

Para o município, o autoconsumo e as CER representam mais do que uma solução tecnológica ou uma forma de reduzir emissões: “A visão para a energia em Guimarães é clara e coloca os cidadãos e as instituições como protagonistas da transição energética”, afirma o vereador do Ambiente, Alberto Martins. O responsável defende uma lógica de democratização da energia, na qual cidadãos e empresas deixam de ser apenas consumidores para assumirem um papel mais activo na produção e gestão dos recursos energéticos. 

A própria autarquia procura assumir um papel de monstrativo neste processo. Entre os projectos previs tos está a implementação de um sistema de autoconsumo colectivo destinado a abastecer 42 edifícios municipais, incluindo equipamentos públicos e infraes truturas sob gestão do município. O objectivo passa por reduzir a dependência da rede eléctrica convencional e criar um modelo que possa, posteriormente, ser replicado por outras entidades do território. 

Ainda assim, a concretização deste modelo depende da capacidade de ultrapassar vários obstáculos, desde a complexidade administrativa associada à implementação dos projectos até à necessidade de mobilizar investimento privado e garantir que a transição energética permanece acessível a todos os sectores da população. 

A ambição está definida. O desafio passa agora por transformar estes projectos-piloto em soluções estruturais e assegurar que a produção local de energia se torna uma prática consolidada. 

Os obstáculos no caminho

Apesar do reconhecimento europeu e das metas traçadas para o final da década, a concretização da neutralidade climática continua a colocar desafios significativos ao município. A dificuldade reside agora na capacidade de transformar estratégias e compromissos em resultados concretos. 

Um dos principais obstáculos passa pela mobiliza ção do investimento necessário para acelerar a tran sição energética. Muitas das intervenções previstas, sobretudo ao nível da reabilitação dos edifícios e da produção local de energia, dependem não apenas da capacidade financeira da autarquia, mas também do envolvimento dos proprietários, das empresas e de outros agentes privados. Como refere Alberto Martins, o desafio consiste em criar condições para que “a eficiência energética seja vista pelo mercado como um activo estratégico e rentável, e não apenas como um custo”. 

A volatilidade dos mercados constitui outro factor de incerteza. As oscilações nos preços da energia, dos materiais de construção e dos equipamentos tecnológicos obrigam a uma adaptação permanente dos projectos e podem comprometer os calendários inicialmente previstos. A rapidez com que as soluções energéticas evoluem acrescenta igualmente complexidade ao processo, exigindo uma actualização constante das estratégias municipais. 

A implementação de modelos inovadores, como as Comunidades de Energia Renovável, enfrenta ainda desafios administrativos e legais. A articulação entre os mecanismos de contratação pública e os novos modelos de gestão energética continua a represen tar um constrangimento, obrigando os municípios a conciliar a inovação com procedimentos burocráticos frequentemente morosos. Segundo o vereador do Ambiente, o objectivo passa por garantir que “a lei funcione como um facilitador e não como um entrave à estratégia”. 

Mas os desafios ultrapassam a dimensão técnica e financeira. A neutralidade carbónica pressupõe uma transformação profunda dos hábitos quotidianos e das formas de utilização do território. A redução do consumo energético, a adesão ao autoconsumo, a reabilitação das habitações ou a alteração dos padrões de mobilidade exigem uma participação activa da população. 

A próxima meia década será, por isso, decisiva. Mais do que cumprir indicadores ambientais, Guimarães procura demonstrar que a neutralidade climática pode ser construída à escala municipal e transformar-se num novo modelo de desenvolvimento territorial. O sucesso desta estratégia dependerá, em última análise, da capacidade de converter uma visão ambiciosa numa transformação concreta do território. 

Fotografia de destaque e restantes: © Shutterstock

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