Este artigo foi originalmente publicado na edição nº 165 da Edifícios e Energia (Maio/Junho 2026).
A NEUE HEIMAT TIROL (NHT) gere cerca de 22 700 apartamentos. A sua actividade decorre sob um regime austríaco de habitação sem fins lucrativos particularmente exigente, o que condiciona o desenho, a operação e a manutenção do parque imobiliário. É precisamente nessa tensão entre missão social, sustentabilidade e custo controlado que a NHT tem vindo a transformar a eficiência energética num instrumento de política habitacional. Falámos com Harald Konrad Malzer, Chefe de Pesquisa e Desenvolvimento, Garantia da Qualidade em Eficiência Energética e Sustentabilidade do NHT, que se dedica há mais de 20 anos à “protecção climática através da construção.”
O ponto de partida: construir melhor para gastar menos ao longo de décadas
O ponto de partida da NHT é, simultaneamente, técnico e social. Na prática, isto significa pensar o edifício ao longo de todo o ciclo de vida e não apenas no momento da obra. A orientação para custos operacionais baixos, especialmente no aquecimento, surge como consequência directa de uma estratégia pensada para o longo prazo.
Essa lógica está bem patente no histórico da organização. Em 1997, a NHT construiu o primeiro projecto próximo da Passive House, o conjunto habitacional de Mitterweg, com uma necessidade de aquecimento de 21 kWh/m²a. Em 2000, avançou com Lohbach, já em 17 kWh/m²a, e, em 2009, entregou Lodenareal, o primeiro conjunto certificado de Passive House com 200 apartamentos.
“Desde 2011, temos vindo a construir de acordo com a norma Passive House, muito mais eficiente, estabelecida pelo Passive House Institute (Darmstadt), enquanto a norma nacional (segundo o OIB – Instituto Austríaco de Engenharia Civil) foi, durante muito tempo, muito menos exigente e ainda hoje apenas oferece a ventilação residencial com recuperação de calor como opção. Assim, na NHT, trabalhamos em contraste directo com os requisitos nacionais de eficiência, que são demasiado baixos”, explica.
Este ano, segundo os dados mais recentes da organização, mais de 7500 apartamentos foram construídos segundo as normas Passive House.
Da passive house à passive house premium
É neste contexto que se deve ler “o salto” para o conceito de edifício de energia positiva. Harald Konrad Malzer descreve o novo projecto residencial em construção no coração de Innsbruck como um edifício sem fins lucrativos que reúne oito pisos e 42 unidades habitacionais para 96 jovens residentes.
“Embora relativamente discreto por fora (não é um daqueles projectos emblemáticos chamativos e dourados), este edifício esconde no seu interior o sonho que todos partilhamos: Uma casa que gera mais energia do que consome!”.
O arquitecto explica-nos o que é necessário para tornar este sonho realidade:
• “Máxima eficiência energética, através do Passive House PREMIUM (construção altamente isolada com pontes térmicas mínimas e perda de calor mínima através da envolvente do edifício);
• Consumo mínimo de energia (electrodomésticos e iluminação de alta eficiência; recuperação de calor do ar interior; recuperação de calor da água quente; geração de calor de alta eficiência);
• Sombreamento solar passivo suficiente para proteger contra o sobreaquecimento no Verão, mas permitindo o máximo ganho solar possível no Inverno;
• Maximização da geração de energia renovável no edifício (painéis fotovoltaicos independentes no telhado (BAPV) e painéis fotovoltaicos integrados na fachada (BIPV));
• Um sistema de armazenamento sazonal de energia (o excesso de energia renovável gerado no Verão deve ser transferido com segurança para o Inverno, com requisitos mínimos de espaço e o mínimo de perdas possível);
• E, finalmente, um promotor imobiliário empenhado e, claro, residentes inteligentes.”
Algo que vai ser testado neste projecto é perceber se tudo isto funciona na região alpina, onde as condições climáticas são mais adversas. “Teremos de esperar para ver. É por isso que temos o apoio de um projecto de investigação europeu HORIZON focado precisamente nisto: REN+HOMES – casas de energia renovável plus”, explica.
A opção pela classe Passive House PREMIUM não é estética, mas sim estrutural. De acordo a NHT, a organização já tinha realizado o primeiro Passivhaus Plus certificado na Áustria e deu o passo seguinte com dois edifícios de energia zero no centro de Innsbruck, certificados segundo as orientações do Passive House Planning Package (PHPP) do Passive House Institute. Nesse enquadramento, a introdução da categoria PREMIUM significa trabalhar com uma exigência superior em termos de energia primária renovável, eficiência global e capacidade de produção no próprio edifício.
A envolvente térmica continua a ser o primeiro sistema energético
Quando questionado sobre o papel da envolvente térmica, Malzer destaca esta componente como “uma das mais importantes”, porque “impede a perda massiva de calor durante a época de aquecimento (nos Invernos frios dos Alpes, que persistem apesar da crise climática), mas também protege contra o sobreaquecimento no Verão. O isolamento funciona tanto em climas frios como quentes. Sem um isolamento adequado, com as dimensões correctas, ecológico e, ao mesmo tempo, altamente rentável, as restantes medidas necessárias teriam de ser sobredimensionadas de forma antieconómica.”

No demo austríaco, a construção da envolvente térmica inclui isolamento, janelas triplas na camada de isolamento, execução com pontes térmicas reduzidas e elevada estanquidade ao ar, tudo segundo o padrão Passive House PREMIUM. São 28 centímetros de lã mineral ecológica na parede exterior, instalação complexa das janelas sem pontes térmicas e continuidade térmica cuidada nas zonas de ligação às loggias.
A importância desta abordagem é também visível no trabalho histórico da NHT em reabilitação. No projecto FP7 SINFONIA, a organização reabilitou cerca de 50 000 metros quadrados de edifícios residenciais dos anos 1930 a 1980, com redução do consumo energético até 80% e integração forte de fontes renováveis no local, como fotovoltaico, solar térmico e bombas de calor. Ou seja, a eficiência da envolvente não é um gesto isolado, mas sim a base de uma estratégia de descarbonização do parque edificado.
BAPV e BIPV: usar o telhado e a fachada como geradores
Para a primeira Passive House PREMIUM da NHT teve de se dar um passo além, como refere Malzer. “Na realidade, trata-se de painéis fotovoltaicos bastante comuns, com cerca de 440 Wp por painel. O único requisito é que os painéis instalados na fachada cumpram normas específicas de segurança contra incêndios. Este é o primeiro projecto da NHT a incluir painéis fotovoltaicos montados na fachada. Até agora, a utilização plena do nosso espaço no telhado tem sido suficiente para cumprir a norma de construção Passive House PLUS da NHT”. A fronteira deixou de ser apenas o consumo e passou a ser a capacidade do próprio edifício para produzir excedentes.
O telhado do demo austríaco recebeu BAPV com cobertura extensiva ajardinada e claraboia central para as áreas comuns, enquanto as fachadas Sul, Este e Oeste passaram a integrar BIPV.
Armazenar o Verão para o Inverno
O armazenamento sazonal de hidrogénio é “apenas uma bateria”, mas que tem um papel fundamental no sistema energético global: “Para satisfazer a procura, que se mantém elevada durante a época de aquecimento, utilizando o excedente de energia dos meses de Verão, ou para nos adaptarmos melhor à oferta fluctuante de energia renovável em climas mais quentes, precisamos de instalações de armazenamento sazonal. Estas lacunas de ‘energia’ renovável têm de ser colmatadas através de soluções de armazenamento de energia seguras, sustentáveis e eficientes, que possam ser produzidas a partir de matérias-primas europeias, com perdas de energia mínimas e a um custo razoável.”
O ponto decisivo, segundo Malzer, é que o hidrogénio não é armazenado sob a forma de gás, mas ligado molecularmente num pó especial de hidreto metálico. Esta solução evita a compressão energética pesada associada a pressões elevadas e procura tornar o armazenamento mais seguro, reciclável e compatível com uma utilização em contexto habitacional. O objectivo é reduzir perdas, melhorar a densidade energética útil e encontrar uma solução realmente adequada para a escala do edifício.
Este armazenamento “poderia ser utilizado para construir um edifício independente da rede. No entanto, para um edifício no centro da cidade, isso seria um completo disparate”, descreve o arquitecto. “Em vez disso, um sistema de armazenamento deste tipo permite-nos alcançar um elevado nível de flexibilidade da rede. Por outras palavras, minimizamos a pressão sobre a rede quando há um elevado volume de energia renovável e aliviamos a pressão sobre a rede quando a procura de energia é geralmente elevada.”

“Em simultâneo, o próprio edifício deve gerir o consumo desta energia com a máxima eficiência (isto inclui uma redução significativa das necessidades de aquecimento e refrigeração através de uma arquitectura inteligente, sensível ao clima e atraente, bem como de um invólucro do edifício adequado; um sistema de ventilação com recuperação de calor de alta eficiência (mais de 90%), recuperação passiva de calor das águas residuais (cerca de 50%); só assim poderemos alcançar um elevado grau de autossuficiência e, consequentemente, aliviar o encargo financeiro dos nossos inquilinos a longo prazo.”
O papel das bombas de calor e da geotermia superficial
A lógica do sistema não se esgota no armazenamento. Malzer destaca a bomba de calor central alimentada por águas subterrâneas, descrevendo a tecnologia como uma combinação extremamente eficaz entre electricidade renovável e conversão térmica. Na sua formulação, a bomba de calor converte uma parte de electricidade em até seis partes de calor, desde que a fonte seja estável, a temperatura de descarga seja baixa e o cálculo da carga térmica seja rigoroso. “Parece uma daquelas típicas farsas das redes sociais, mas é verdade! A tecnologia das bombas de calor é realmente algo mágico. Na verdade, todos nós sempre tivemos uma bomba de calor nas nossas casas! É o frigorífico – estamos simplesmente a usar o princípio ao contrário aqui”, remata.
Este projecto austríaco incluiu a conceção e execução do poço de extracção e de retorno das águas subterrâneas para a bomba de calor central, incluindo as aprovações oficiais necessárias. Este tipo de solução reforça a ideia de que a eficiência energética não depende apenas de equipamentos de alto rendimento, mas sim da articulação entre edifício, terreno, recursos locais e enquadramento regulatório.
Recuperação de calor: do ar interior à água do duche
Malzer descreve o sistema de recuperação de calor da água do duche como simples e economicamente interessante: um tubo coaxial de cobre transfere o calor da água residual para a água fria ao longo de cerca de dois metros, pré-aquecendo-a de forma passiva. “Isto significa que, se eu começar a tomar banho a 36 °C através da misturadora termostática, o permutador de calor coaxial transfere o seu calor residual para a água fria a 10-13 °C em 10 segundos, pré-aquecendo-a até 25 °C. Assim, a misturadora termostática só precisa de adicionar uma pequena quantidade adicional de água quente para manter a temperatura desejada de 36 °C”. Este processo pode permitir poupanças de até 50% na água quente, precisamente porque a maior parte do consumo doméstico ocorre no duche e o sincronismo entre consumo e recuperação é muito favorável.
Também a ventilação surge como um elemento de conforto e de equidade habitacional. Malzer refere que a ventilação central com recuperação de calor é padrão na NHT desde 2011, e que a sua introdução foi consolidada depois do sucesso do Lodenareal, na Áustria. O inquérito aos inquilinos realizado seis meses após a ocupação desse conjunto, com 95% de respostas positivas, é usado como prova de que a eficiência energética, quando bem resolvida, melhora também a qualidade de vida.”

Eficiência energética como política social
“Construir com eficiência energética é construir de forma socialmente responsável”, diz Malzer. A frase sintetiza a tese central da NHT: baixos consumos não são apenas uma meta ambiental, são um mecanismo de protecção contra a volatilidade dos preços da energia e contra a exclusão habitacional.
“Perante a crise climática, as crises políticas e militares que já se avizinham em todo o mundo em consequência disso, a necessidade de uma nova distribuição de recursos (sim, voltámos à Idade Média), os fluxos migratórios globais que não se deterão nas fronteiras da Europa, a futura desvalorização monetária e tudo o que mais possa estar por vir, já não podemos dar-nos ao luxo de construir edifícios que não cumpram os mais elevados padrões de eficiência e sustentabilidade e incluindo a reciclabilidade, no nosso ambiente. Fazer o contrário é altamente irresponsável e faz parte do problema. É tão simples quanto isso.”
Os números apresentados ajudam a perceber essa posição. A NHT afirma gerir cerca de 7500 apartamentos Passive House e que, durante a recente crise energética, enquanto muitos inquilinos austríacos dependentes de gás viram custos mensais adicionais de até 300 euros, os seus residentes enfrentaram acréscimos na ordem dos 15 a 25 euros. Para Malzer, a diferença não é marginal, mas sim uma prova de que o investimento em eficiência se traduz em resiliência económica para os moradores.
O próprio novo edifício segue essa lógica. A habitação em Innsbruck é pensada para jovens com recursos financeiros limitados, que entrarão no edifício em Janeiro de 2027. A expectativa é que a produção própria de energia, associada ao sistema de armazenamento sazonal e à envolvente de alto desempenho, anule ou reduza drasticamente os custos energéticos relevantes para o uso habitacional.
Quando confrontado com a pergunta sobre o futuro dos edifícios, Malzer evita respostas fáceis. Diz que a transformação terá de começar nas pessoas, no que estão dispostas a fazer e no grau de consumo que aceitam abandonar para reencontrar uma qualidade de vida mais real. Para este director, a tecnologia pode ajudar, mas não substitui a mudança cultural e política. “Talvez isso dependa menos da tecnologia e dos sistemas inteligentes que usamos, ou mesmo da inteligência artificial, e mais, no final, de nós próprios. Do que podemos prescindir juntos, e até que ponto cada um de nós pode reduzir o consumo para redescobrir a verdadeira qualidade de vida de que tantas vezes sentimos falta? A tecnologia não vai resolver o problema, mas, se usada com sabedoria e moderação, pode dar-nos um apoio significativo neste esforço”.

Entre a engenharia e a responsabilidade pública
O caso da NHT mostra que a transição energética no edificado não depende apenas de novos materiais ou sistemas, mas da capacidade de integrar inovação com responsabilidade pública. A organização opera num quadro de habitação sem fins lucrativos, com forte foco em custos de exploração baixos, e faz da investigação uma ferramenta para proteger os moradores da volatilidade energética e das consequências sociais da crise climática. Ao mesmo tempo, os seus projectos demonstram que a descarbonização do parque imobiliário pode ser construída a partir da normalidade do uso habitacional, sem sacrificar conforto ou funcionalidade.
É por isso que o projecto em Innsbruck merece atenção para lá do seu carácter experimental. Ele condensa uma mudança de paradigma: a envolvente deixa de ser apenas uma barreira térmica e passa a ser parte da produção energética; o telhado deixa de ser um suporte e torna-se gerador; a fachada deixa de ser só imagem e converte-se em infraestrutura; a água do duche deixa de ser um resíduo e passa a ser recurso; e a habitação social deixa de ser apenas resposta à carência para se afirmar como laboratório de resiliência climática.
O que este projecto tenta demonstrar é que a energia positiva não é um luxo de vanguarda, mas uma hipótese concreta para o futuro da habitação, mesmo em contexto alpino e mesmo sob condições de forte contenção económica. E, tal como Harald Konrad Malzer refere, isso é uma questão de engenharia e de consciência cívica: eficiência, sim, mas sempre ao serviço de uma ideia mais ampla de responsabilidade social e climática.
Fotografia de destaque: © NHT




