O documento “Edifícios preparados para 2050” salienta que é necessária “uma abordagem holística” da sustentabilidade dos edifícios e apela a uma “linguagem comum” por toda a Europa, com base na partilha de indicadores de desempenho energético e do ambiente interior. 

Com a publicação oficial da Directiva para o Desempenho Energético dos Edifícios (EPBD) em mente, a REHVA decidiu lançar o seu mais recente manifesto. Tal como a própria EPBD refere, os edifícios representam 36 % das emissões de gases com efeito de estufa relacionadas com a energia na União Europeia (UE) e 75 % dos edifícios ainda são energeticamente ineficientes.  

Perante estes dados, o documento sublinha o seu papel crucial para o sucesso dos objectivos de neutralidade carbónica da UE para 2050: “os edifícios já não são apenas consumidores de energia, mas também produtores activos de energia. Equipados com tecnologias inteligentes e sistemas de armazenamento de energia para calor e electricidade, estes edifícios proporcionarão flexibilidade às redes de distribuição de energia, contribuindo para a transição e descarbonização do sector da energia”, pode ler-se no documento. 

O pacto “Edifícios preparados para 2050” da REHVA começa por enunciar alguns princípios que diz que devem ser tidos em conta tanto para as novas construções como para as renovações que estejam em curso: 

– Dar prioridade à eficiência energética e à utilização de fontes de energia renováveis; 

– Implementar sistemas de aquecimento e arrefecimento descarbonizados e utilizar materiais de construção com baixo teor de carbono; 

– Assegurar a saúde e qualidade do ar interior; 

– Promover a digitalização dos edifícios para melhorar a eficiência energética e o conforto dos ocupantes; 

– Defender soluções técnicas rentáveis e sustentáveis. 

Segundo consta no manifesto, 37% das emissões de carbono da UE têm origem no sector da construção. Este peso nas emissões torna, por isso, importante a sua descarbonização até 2050 e todas as etapas do ciclo de vida de um edifício devem ser incluídas – desde a produção dos materiais de construção, transporte, construção, utilização, substituição, desconstrução, gestão de resíduos, reutilização, até à reciclagem e eliminação final -, não esquecendo as emissões de gases com efeito de estufa no local de construção, no estaleiro, nas proximidades e à distância. 

Ambiente e ar interior: mais saúde e qualidade 

A qualidade do ar inclui também o ar que respiramos dentro de casa e a REHVA alerta para o facto de este estar “ainda mais seriamente poluído do que o ar exterior”. Assim, a Federação Europeia das Associações de Aquecimento, Ventilação e Ar Condicionado defende que as políticas da UE devem salvaguardar a melhoria da saúde nos edifícios, associada a uma melhor qualidade do ar interior (QAI), através de evoluções regulamentares que assegurem uma transposição “tão ambiciosa quanto possível” da EPBD, em especial no que respeita à ventilação. Essas políticas devem assegurar uma melhor monitorização, visualização e regulação da QAI nos edifícios residenciais e o alargamento da inspeção dos sistemas de ventilação a todos os edifícios. A REHVA menciona ainda que devem ser actualizados os requisitos de eco-design para garantir produtos de ventilação energeticamente eficientes no mercado. 

Habitações a preços acessíveis e incentivos precisam-se! 

“Não existe uma solução única para todos os edifícios novos e existentes”, reitera o manifesto. A chave para motivar os proprietários e investidores privados está na informação sobre os benefícios da renovação dos edifícios, não só em termos de bem-estar, mas também de retorno económico. E como cada caso é um caso, os profissionais da construção devem propor e explicar qual a melhor solução aos proprietários e ocupantes dos edifícios. 

A pobreza energética também não pode ser esquecida: “deve ser abordada através de incentivos ou medidas financeiras específicas que permitam às famílias com baixos rendimentos melhorarem as suas casas, o que não só reduz o consumo de energia e os custos, mas também melhora as condições gerais de vida e promove a aceitação social e o apoio a práticas de vida sustentáveis”. 

O pacto indica que devem ser implementadas as seguintes acções: financiar assistência técnica aos proprietários de imóveis, também através de balcões únicos, (tais como auditorias energéticas ou passaportes de renovação) para facilitar a tomada de decisões informadas; facilitar o acesso ao capital, tal como refere o artigo 17º da EPBD; basear os incentivos financeiros no desempenho, não favorecendo ou excluindo nenhuma solução técnica se os requisitos de desempenho forem cumpridos. 

O “papel fundamental” dos profissionais do sector AVAC na transição energética 

A transição energética é, como se sabe, um momento de mudança e é também um momento crucial para o desenvolvimento de novas competências técnicas e de compreensão das políticas energéticas europeias. O próprio artigo 17º da EPBD exige que os Estados-Membros promovam a educação e a formação dos trabalhadores para garantir uma mão de obra suficiente e competente, especialmente nas pequenas, médias e microempresas. 

Neste sentido, também as sinergias entre o meio académico e a indústria do AVAC devem ser incentivadas através de centros de inovação, de investigação e de projectos de colaboração que promovam a inovação. 

“A partilha de metodologias, baseadas em normas comuns da UE, para avaliar o edifício promove a transparência, a tomada de decisões informadas e a coerência na aplicação da transição energética”, acrescenta a REHVA no documento. E, embora sejam utilizados métodos e normas comuns, a federação entende que os níveis de exigência nacionais devem refletir as necessidades climáticas e regulamentares próprias de cada país e, desta forma, acredita que a transição energética será impulsionada e a mão de obra estará mais qualificada e motivada.

Fotografia de destaque: © Unsplash