A descarbonização dos edifícios e da indústria está a colocar novas exigências ao sector da climatização e da refrigeração, desde a escolha dos equipamentos e de fluidos frigorigéneos, até à qualificação dos profissionais. As 26.as Jornadas de Climatização e Refrigeração, que irão decorrer no próximo dia 15 de Outubro, em Lisboa, vão debater os desafios e as oportunidades da transição energética, com especial atenção à qualidade do ar interior (QAI) e à sustentabilidade.
A transição energética está a transformar o sector da climatização e da refrigeração, com novas exigências regulamentares sobre a redução dos consumos energéticos e a substituição progressiva de gases fluorados, bem como a qualificação dos profissionais.
Estes são alguns dos temas que vão estar no centro do debate das 26.as Jornadas de Climatização e Refrigeração, organizadas pela Comissão de Especialização em Climatização e Refrigeração da Ordem dos Engenheiros, em colaboração com a secção nacional da Federação Europeia das Associações de Aquecimento, Ventilação e Ar Condicionado (REHVA, na sigla em inglês) e o capítulo português da Associação Americana de Engenheiros de Aquecimento, Refrigeração e Ar Condicionado (ASHRAE).
“Na Europa, a EPBD [Directiva do Desempenho Energético dos Edifícios] e o Regulamento F-Gas [relativo aos gases fluorados com efeito de estufa] estão a influenciar diretamente a escolha dos equipamentos e das soluções técnicas a implementar”, refere, à Edifícios e Energia, Odete Almeida.
A coordenadora da Comissão de Especialização em Climatização e Refrigeração da Ordem dos Engenheiros acrescenta que, em Portugal, “um dos principais desafios é a existência de muitos edifícios antigos, nos quais a reabilitação energética exige um investimento significativo e nem sempre é fácil de executar”.
A responsável alerta, por isso, para a necessidade de “encontrar um equilíbrio entre o cumprimento das exigências legais, os custos e a disponibilidade de técnicos qualificados no mercado”, o que se torna particularmente relevante num contexto de transformação tecnológica e de crescente complexidade dos sistemas.
Com o tema “Climatização e Refrigeração na Transição Energética: Qualidade Ambiental Interior e Sustentabilidade”, o evento, que irá decorrer a 15 de Outubro, no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), em Lisboa, quer reunir especialistas, investigadores, projetistas, fabricantes, instaladores, gestores de edifícios, e representantes da indústria em torno dos desafios e das oportunidades da transição energética.

No primeiro painel, Eduardo Maldonado, professor da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) e DRC da Região Europa XIV da ASHRAE, abordará a reabilitação dos edifícios e dos sistemas AVAC existentes para a descarbonização. A sessão contará também com uma apresentação de Chandra Sekhar, professor da Universidade Nacional de Singapura, dedicada à auditoria da QAI nos edifícios e ao conceito de zonas de sistemas.
Bombas de calor, integrar renováveis e automação dos edifícios
Entre as soluções com potencial para acelerar a transição energética, Odete Almeida destaca as bombas de calor de elevada eficiência, sobretudo quando utilizam fluidos frigorigéneos com baixo potencial de aquecimento global. A recuperação de calor pode, igualmente, assumir um papel relevante em instalações com necessidades simultâneas de aquecimento e arrefecimento, nota a responsável.
A integração destes sistemas com fontes de energia renovável, como a solar fotovoltaica, permite também aumentar o aproveitamento da energia produzida localmente e reduzir o consumo de electricidade proveniente da rede, sublinha. Também “a utilização plena dos sistemas de automação [dos edifícios]” podem optimizar o funcionamento dos equipamentos, ajustando os horários e as condições de operação à ocupação dos espaços, e analisar os consumos.
Novas competências para os profissionais
A crescente complexidade dos sistemas exige também uma actualização das competências técnicas para garantir que os trabalhos de instalação, comissionamento e manutenção são realizados por profissionais devidamente qualificados.
Para Odete Almeida, nos próximos anos os profissionais vão ter de reforçar os conhecimentos em ferramentas de simulação energética, modelação BIM e análise do comportamento térmico dos edifícios. Mas também “a capacidade de utilizar a inteligência artificial de forma crítica e responsável, validando os resultados obtidos e garantindo a sua aplicação adequada a cada situação”.
“Em termos práticos, o reforço da competência do profissional passará por desenvolver continuamente os conhecimentos técnicos ao longo da carreira, articulando-os com a experiência no terreno, a capacidade de análise e o domínio das novas tecnologias”, afirma a responsável.
Centros de dados, sistemas frigoríficos e QAI
O programa das jornadas coloca em discussão a forma como a engenharia pode conciliar a eficiência energética e a descarbonização com a saúde e o bem-estar dos ocupantes dos edifícios. Além da vertente tecnológica, entre as questões identificadas pela organização estão a necessidade de garantir uma climatização acessível, combater a pobreza energética, optimizar a cadeia de frio e acelerar a adopção de refrigerantes naturais. O financiamento, o papel das políticas públicas e a eficiência dos sistemas são outras das dimensões que integram a programação.
Estão previstos painéis dedicados aos centros de dados. Luís Pedro Duarte, presidente da Associação Portuguesa de Centros de Dados – Portugal DC, abordará o papel estratégico destas instalações na economia digital, enquanto Carlos Lisboa, fundador e CEO da Navitas Portugal, apresentará a perspectiva de um consultor sobre a modelação energética destas infra-estruturas, cujo funcionamento coloca exigências específicas ao consumo energético e à gestão térmica.
Já no período da tarde, Marco Madureira, engenheiro projectista da Chilltek, dedicada às instalações de refrigeração com dióxido de carbono. Seguir-se-á uma apresentação de Ángel Ros Dolz, director de Área da Tewis Portugal, apresentará soluções de sistemas frigoríficos transcríticos com subarrefecimento mecânico inteligente.
A programação abrange igualmente o controlo das condições ambientais interiores em edifícios com requisitos específicos. Michel Grabon, director de área de Data Centers da Carrier, apresentará o caso da Capela Sistina, no Vaticano. Já Daniel Malveiro, responsável de soluções da Baxi Portugal, abordará soluções integradas de climatização para a transição energética, enquanto Vita Nils Baumann, director da unidade de negócio de gestão de produto da Delta Controls Alemanha, analisará o impacto dos sistemas BMS na transição digital.
A organização prevê também a distribuição de um livro técnico em língua portuguesa aos participantes, destinado a apoiar a consulta e a actualização de conhecimentos no sector. Por agora, as inscrições para as jornadas ainda estão abertas.
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