Cluster Habitat Sustentável reúne cadeia de valor para discutir os desafios da sustentabilidade

Como é que se pode transformar a sustentabilidade numa característica mensurável dos produtos, edifícios e empresas? Para António Baio Dias, presidente do Cluster Habitat Sustentável, a resposta passa por se usar ferramentas para quantificar a sustentabilidade, informação verificável e criar condições que permitam acelerar esta transição. Este é um dos temas em debate na conferência anual da organização, que promete juntar, dia 29 de Outubro em Coimbra, intervenientes de toda a cadeia de valor para discutir os desafios, bem como as soluções e abordagens capazes de responder às necessidades e exigências do futuro do sector. 

A sustentabilidade já não é uma questão recente para o sector da construção e do habitat. Mas, à medida que se multiplicam as exigências ambientais e as metas de descarbonização na Europa, surge um novo desafio: distinguir aquilo que é efectivamente sustentável daquilo que apenas é apresentado como tal. É neste ponto que o Cluster Habitat Sustentável tem procurado intervir.

Criada em 2007, a organização tem vindo a trabalhar com diferentes actores da cadeia de valor do habitat para promover a adopção de ferramentas que permitam quantificar e verificar os impactes ambientais dos produtos e processos. O objectivo, explica António Baio Dias, é evitar que a sustentabilidade fique dependente de declarações genéricas ou de estratégias de marketing, ao mesmo tempo que se combate o greenwashing.

“A nossa preocupação é que esta informação sobre a sustentabilidade seja sempre baseada em aspectos objetivos, em ferramentas normalizadas, e que possa ser verificada, em vez de uma simples informação de que um produto ou, portanto, um processo ou uma empresa é sustentável. Tem de ser quantificada, não chega dizer que o produto é sustentáve”, explica, à Edifícios e Energia, o presidente do Cluster Habitat Sustentável. 

É neste contexto que o cluster promove, a 29 de Outubro, a Conferência do Cluster Habitat Sustentável 2026. O evento terá lugar no Departamento de Engenharia Civil da Universidade de Coimbra, reunindo profissionais, empresas, autarquias, entidades do sistema científico e tecnológico, entre outros intervenientes que pretendem contribuir para um habitat mais inovador, competitivo e sustentável.

Na edição deste ano, o evento dá especial relevância à discussão dos desafios da sustentabilidade ao longo da cadeia de valor do habitat, de soluções e abordagens capazes de responder às necessidades e exigências do futuro do sector. A conferência pretende ser também uma oportunidade de networking e a troca de experiências entre os participantes, reforçando a cooperação entre os diferentes actores da cadeia de valor.

Acompanhar o produto ao longo do ciclo de vida

A preocupação passa por criar uma base objectiva para avaliar o desempenho ambiental, através de mecanismos como as Declarações Ambientais de Produto (DAP), que permita acompanhar o produto para lá da sua fase de fabrico, ao contabilidar os recursos utilizados, emissões e outros impactes ambientais ao longo do seu ciclo de vida. 

O Cluster Habitat Sustentável é o operador do Programa de Registo Europeu de DAP/EPD, sendo conhecido pela Agência para a Competitividade e Inovação (IPMEI) para a emissão de pareceres sobre candidaturas a projetos financiados de formação.

Actualmente, a organização está a trabalhar numa ferramenta de cálculo da pegada carbónica que pretende tornar mais acessível a quantificação das emissões de dióxido de carbono associadas aos produtos. Face às DAP, que envolvem um conjunto mais alargado de indicadores, a nova abordagem procura concentrar-se especificamente nas emissões de CO2 ao longo do ciclo de vida.

”Podemos ter aqui um passo mais rápido para chegar a um valor de emissões de CO2, que depois vai ser utilizado para a certificação energética dos edifícios”, revela António Baio Dias. 

Desta forma, caminha-se para uma avaliação dos edifícios que irá deixar de estar centrada apenas na energia consumida durante a utilização. A quantidade de carbono incorporado nos produtos e sistemas utilizados na construção pode assumir um peso maior na avaliação do desempenho ambiental dos edifícios, nota o responsável. Essa mudança surge em linha com as metas de emissões nulas em todos os novos edifícios a partir de 2030 e, posteriormente, em todo o parque edificado da União Europeia até 2050, como estabelece a Diretiva relativa ao Desempenho Energético dos Edifícios (EPBD).

Entre a ambição e a capacidade de resposta

Apesar da evolução registada, a transição está longe de ser simples. O Cluster Habitat Sustentável conta actualmente com cerca de 180 associados, abrangendo empresas de materiais e produtos para o habitat, arquitectos e projectistas, empresas de promoção imobiliária, instituições de ensino e autarquias. Para António Baio Dias, esta adesão demonstra uma evolução positiva. “É um trabalho de alguma forma lento, mas com passos seguros e regulares”, afirma.

António Baio Dias nota, sobretudo, uma preocupação das empresas associadas em melhorar o seu consumo de energia durante a produção. Entre as estratégias que começam a ganhar espaço estão a utilização de energias renováveis, sobretudo sistemas fotovoltaicos, e a procura de combustíveis com menores emissõe, sublinha. 

“Há também uma interação com o setor primário, a agricultura, cujos resíduos podem ser transformados em energia, em biogás, que depois é transformado em biometano. As empresas que fazem recolha de resíduos sólidos urbanos também estão a procurar transformar esses resíduos em energia. Portanto, há muitas acções que estão a ser levadas a cabo no sentido de ter produtos mais sustentáveis”, exemplifica.

Mas a capacidade de resposta das empresas não depende apenas da sua vontade de mudar. Um dos principais obstáculos está precisamente na disponibilidade das alternativas tecnológicas e energéticas e nas condições económicas necessárias à sua adopção.

“É uma mudança que depende de quem produz, mas depende também do Estado querer fomentar e auxiliar o início de um novo processo. Estamos a falar de mudanças radicais. Neste momento, as empresas querem mudar porque há essa necessidade, mas não conseguem porque estas novas soluções não existem no mercado. E quando se criam são sempre mais caras. É necessário algum apoio e ncentivo para que essas mudanças ocorram. Se não houver, é difícil de fazer essas mudanças”, adverte o responsável. 

Uma transição a várias velocidades

Há ainda uma outra dimensão neste processo a ter em conta: a competitividade da indústria europeia. À medida que aumentam as exigências ambientais aplicadas às empresas europeias, o António Baio Dias alerta para o risco de estas ficarem em desvantagem face a concorrentes externos sujeitos a regras diferentes. Se os custos associados a esta transição forem suportados apenas pelos produtores europeus, corre-se o risco de aumentar a deslocalização de empresas nacionais para mercados com menores exigências.

 “A Europa pode ficar numa situação de consumo e não de produção”, resume o presidente do Cluster, defendendo uma maior valorização da indústria europeia e regras que assegurem condições de concorrência mais equilibradas. 

Combater o greenwashing

É também neste contexto que ganha importância o combate ao greenwashing. A preocupação deverá tornar-se ainda mais relevante com a evolução da regulamentação europeia e com a futura introdução de mecanismos como o passaporte digital dos produtos (DPP). Embora a sua aplicação ao sector da construção ainda esteja a ser concretizada, a tendência aponta para uma maior disponibilidade de informação sobre os produtos, incluindo aspectos relacionados com emissões, energia e consumo de recursos.

A Directiva (UE) 2024/825, que reforça a protecção dos consumidores contra práticas de greenwashing e estabelece novas regras para as alegações ambientais e os rótulos de sustentabilidade, deveria ter sido transposta para as legislações nacionais até ao final de Março deste ano para ser aplicada a partir de Setembro.  Portugal está entre os países que, segundo a Comissão Europeia, ainda não tinham comunicado a transposição completa. “Aguardamos com ansiedade essa transposição porque é fundamental”, afirma António Baio Dias. 

Uma conferência para cruzar perspectivas

Mais do que apresentar uma visão única sobre sustentabilidade, o programa da conferência deste ano procura colocar em diálogo diferentes intervenientes da cadeia de valor. O evento contará com intervenções dedicadas ao valor económico da sustentabilidade, ao futuro da certificação dos edifícios e às práticas de sustentabilidade nas organizações, seguindo-se uma mesa-redonda com representantes da academia, indústria, arquitectura e projecto, promoção imobiliária e administração local.

A escolha dos intervenientes reflecte, aliás, uma das ideias centrais defendidas pelo Cluster: a transformação do habitat não poderá ser feita isoladamente por um único sector. Fabricantes de materiais, arquitectos, projectistas, promotores, academia e municípios enfrentam problemas diferentes, mas as suas decisões estão interligadas.

A conferência pretende também dar espaço às soluções concretas que estão já a ser testadas. “Vão ser apresentados casos práticos de sucesso, o que é que fizeram, como é que resolveram situações e que podem ser, de alguma forma, utilizadas por outros actores da cadeia de valor para que possam também melhorar”, conclui António Baio Dias.

Fotografia de destaque: © Shutterstock

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