Portugal enfrenta ondas de calor cada vez mais frequentes e intensas, e, todos os anos, é afectado por incêndios. Preparar as populações mais vulneráveis para o clima extremo, reforçar a literacia de risco e criar redes locais capazes de actuar antes de uma emergência é o ponto de partida do Cidades + Preparadas, programa de resiliência climática urbana. Lisboa e Braga são as primeiras cidades escolhidas para testar uma abordagem que quer colocar a prevenção no centro da resposta para estar ao lado de quem mais sofre os impactos das alterações climáticas.
Quando uma onda de calor ou um incêndio atinge uma comunidade, não são todos afectados da mesma maneira e a resposta tende a concentrar-se no momento da emergência. O Cidades + Preparadas – Programa de Resiliência Climática Urbana vem mostrar que a preparação tem de começar muito antes. Conhecer os riscos, perceber quem é mais vulnerável ao clima extremo, saber onde procurar ajuda, criar redes locais e dar ferramentas às populações para agir são algumas das soluções que vão ser desenvolvidas ao longo dos próximos três anos.
Lançado em Agosto passado pela Zurich Portugal, com o apoio da Z Zurich Foundation e em parceria com a Cruz Vermelha, o programa visa preparar mais de 110 mil pessoas para enfrentar ondas de calor e incêndios, começando pelas cidades de Lisboa e Braga. O primeiro ano do programa será, por isso, dedicado em grande medida a um diagnóstico para conhecer as comunidades e a adaptar as ferramentas existentes às suas características.
Liliana Silva, directora de sustentabilidade da Zurich Portugal explica, em entrevista à Edifícios e Energia, que a própria natureza do sector segurador torna a prevenção particularmente relevante. “Identificámos em Portugal que precisamos de capacitar as nossas cidades e as nossas comunidades para estes riscos, que são cada vez mais frequentes. “Como seguradora, temos conhecimento mais técnico. Faz-nos sentido procurar encontrar os vários mecanismos de como é que podemos actuar a nível da prevenção, procurando, acima de tudo, ajudar as comunidades mais vulneráveis”, afirma
A iniciativa resulta também da experiência acumulada pela Zurich Foundation noutros países, onde já foram desenvolvidos programas de resiliência climática dirigidos a fenómenos como ondas de calor e inundações. Em Portugal, o programa abrange uma realidade particularmente relevante no território nacional: os incêndios.
A Cruz Vermelha Portuguesa entra neste programa com a sua experiência na área da prevenção de desastres e da adaptação às alterações climáticas. A metodologia tem também antecedentes internacionais, tendo sido aplicada por outras sociedades nacionais da Cruz Vermelha, entre as quais as de Espanha e da Austrália, sublinha Marta Neves, porta-voz da organização.
Lisboa e Braga como pontos de partida
Portugal enfrenta desafios climáticos significativos. É um dos países europeus mais afetados por incêndios, com épocas cada vez mais prolongadas e severas. Nos últimos anos, registou também um aumento acentuado da frequência e intensidade das ondas de calor, com efeitos diretos na saúde pública e no bem-estar social. Estes episódios climáticos extremos foram responsáveis por cerca de 2 200 mortes em 2022 e por impactos económicos que superam os 13,4 mil milhões de euros desde 1980, segundo dados da Zurich Portugal.
A escolha de Lisboa e Braga procura precisamente colocar à prova duas realidades urbanas distintas para permitir testar soluções adaptadas a diferentes perfis de risco. Na capital portuguesa, o foco estará sobretudo nas ondas de calor e na forma como o efeito de ilha de calor urbano, a elevada densidade construída, a reduzida cobertura verde e um parque habitacional mais antigo podem agravar a exposição de determinados grupos.
Já Braga, “é um município que junta muito bem a parte urbana e peri-urbana mais perto do rural, pelo que, efectivamente, tem um maior risco de incêndio”, explica Marta Neves. A escolha teve também em conta a presença local da Cruz Vermelha e a relação já estabelecida com os municípios, factores que poderão facilitar a implementação das medidas.
O foco está nas comunidades urbanas mais vulneráveis, incluindo pessoas idosas, pessoas com doenças crónicas, migrantes e famílias com baixos rendimentos. “Quando estamos a falar de populações vulneráveis, temos os trabalhadores ao ar livre, temos agregados familiares com menores rendimentos, mulheres, jovens. Portanto, o projecto tem o objectivo de chegar a várias pessoas e a várias camadas [da população]”, sublinha.
Do diagnóstico à acção no terreno
Marta Reis explica que a equipa do projecto irá, primeiro, perceber como estão preparadas as populações, que planos e mecanismos de resposta já existem nestes dois municípios, e onde persistem falhas de articulação. É na fase seguinte que o programa pretende transformar esse diagnóstico em acções concretas, assentes na sensibilização, na preparação comunitária e na coordenação à escala da cidade.
No primeiro caso, estão previstas campanhas, workshops e materiais dirigidos à população, com informação sobre os riscos, os sinais de alerta e os comportamentos de protecção. Em situações de calor extremo, por exemplo, será trabalhado o reconhecimento dos sinais de stresse térmico. Perante incêndios, haverá também informação sobre os riscos associados à exposição ao fumo. A Cruz Vermelha espera ainda chegar às escolas para trabalhar a preparação de crianças e jovens.
“Queremos pessoas mais preparadas, queremos que os residentes das comunidades disponham de conhecimento e das competências práticas necessárias para eles se protegerem e apoiarem as outras pessoas à sua volta também”, aponta Marta Neves.
Uma das ferramentas será a formação de voluntários comunitários, acompanhada pela criação de planos de acção, de sistemas de alerta precoce. e de planos de emergência familiar. A lógica é fazer com que a preparação não seja uma preocupação apenas das autoridades ou das equipas de emergência. “As próprias famílias vão ser desafiadas a criar o seu próprio plano de emergência”, explica Marta Neves.
O terceiro eixo será mais abrangente: a criação de redes de resiliência em Lisboa e Braga que liguem comunidades, organizações, empresas e autoridades. A intenção passa por articular sistemas de alerta, formalizar protocolos e aproximar os mecanismos existentes de resposta das comunidades que deles poderão necessitar. “Não estamos a construir algo que não existe. Estamos no fundo a complementar com maior conhecimento, com mais metodologia, com mais ferramentas, com voluntários e mais recursos que depois possam trazer mais rapidamente essa activação efectiva”, reforça Liliana Silva.
Encontrar refúgio nos espaços públicos
A preparação para o calor levanta questões sobre o papel das habitações. A pobreza energética e a existência de um parque habitacional maioritariamente com fraco desempenho térmico tornam esta questão particularmente relevante para as populações mais vulneráveis. O Cidades + Preparadas pretende incorporar esta dimensão, nomeadamente da eficiência energética, na sensibilização e na identificação de respostas possíveis nos workshops que irá promover.
Na impossibilidade de encontrar conforto térmico dentro das suas casas, as populações podem procurar refúgio nos espaços público. Um dos objetivos do projecto é “criar orientações para aquilo que deve ser um refúgio climático”, aponta Marta Neves, sejam salas em escolas, bibliotecas ou centros comerciais. A intenção é desenvolver “um kit com o que deve estar disponível num refúgio climático” e testá-lo nas duas cidades.
Mudar a cultura de resposta
Mais do que criar um conjunto de acções isoladas, os promotores querem que o projecto dê às comunidades de conhecimento e ferramentas para o seu dia-a-dia. “Nem sempre existe a protecção assegurada previamente e, por isso, há aqui um gap grande de protecção. Acreditamos que esta sensibilização e mais conhecimento possam permitir também mitigá-lo”, considera Liliana Silva.
O impacto não deverá ser medido apenas pelo número de pessoas alcançadas. A ambição é que as mudanças introduzidas permaneçam nas comunidades depois do final do projecto, nomeadamente ao nível das instituições, das redes locais e dos comportamentos, adverte Marta Neves.
Liliana Silva reconhece que estes três anos do projecto são apenas o início. “Do ponto de vista de riscos climáticos não é expectável, infelizmente, que os consigamos mitigar num espaço muito balizado no tempo”. “É um trabalho contínuo. Este é o início de um programa, mas precisa de muitos envolvidos para que, efectivamente, tenha uma abrangência e um impacto maior, e que possa contribuir para uma mudança sistémica para a sociedade se tornar mais resiliente”, resume.
A visão de longo prazo do Cidades + Preparadas é testar um modelo de adaptação que possa ser ajustado e replicado noutros territórios, contribuindo para uma cultura nacional de prevenção, preparação e ação antecipada.
Fotografia de destaque: © Câmara Municipal de Braga




