Bill McQuade: “As regras/regulamentação têm de ser simples e muito práticas”

Este artigo foi originalmente publicado na edição nº 166 da Edifícios e Energia (Julho/Agosto 2026).

Bill McQuade esteve há semanas em Portugal para um encontro com profissionais da climatização e refrigeração. O presidente da ASHRAE para o mandato 2025-2026 está a viajar pelo mundo com o objectivo de promover o debate sobre os desafios que se colocam ao ambiente construído. Fomos conversar com o líder de uma das maiores organizações mundiais do sector AVAC&R (Aquecimento, Ventilação, Ar-Condicionado e Refrigeração). Um momento especialmente importante para o nosso país com a nomeação de Eduardo Maldonado para director da ASHRAE para a Europa.

A ASHRAE promove-se como uma instituição de referência mundial no sector da construção no âmbito da mitigação das alterações climáticas. Como conseguem ter impacto globalmente? 

É importante perceber que a visão da ASHRAE não se restringe a uma visão americana. Temos 54 mil membros espalhados em 134 países e mais de 200 chapters (secções) nesses mesmos países. Na orgânica da nossa administração, dividimos o mundo em 16 regiões e temos um representante de cada uma dessas regiões no nosso conselho. Por isso, temos mesmo de adoptar uma perspectiva global.

Tendo em conta o actual contexto internacional, como as guerras e a quebra do investimento em energias renováveis, como vê os próximos tempos e quais os maiores desafios que vamos enfrentar? 

Começando pelos Estados Unidos da América, todos sabemos que esta administração está a dar menos atenção à descarbonização e às alterações climáticas. Sucede que a ASHRAE não recebe qualquer financiamento para investigação por parte do governo dos EUA. E, por isso, não existe qualquer dependência nesse sentido. Angariamos os nossos próprios fundos através dos nossos membros. Realizamos investigação no valor de cerca de sete milhões de dólares por ano. Por isso, as nossas prioridades estratégicas em matéria de sustentabilidade, qualidade ambiental interior e resiliência dos edifícios não se alteraram de forma alguma.  

Algumas situações tornaram-se um pouco mais difíceis. A entidade proprietária de todos os edifícios públicos e governamentais, a GSA (Administração de Serviços Gerais), sempre foi um parceiro muito próximo da ASHRAE, que implementava as nossas novas normas e testava-as de forma a criar protótipos, como casos de estudo, com o objectivo de promover boas práticas para o mercado e para as empresas privadas.

Essa dinâmica está parada, mas temos muitos outros locais no mundo que estão a fazê-lo. De facto, a realidade norte americana está diferente e um pouco mais difícil, mas isso não altera em nada a nossa visão e aquilo em que acreditamos enquanto organização. Por outro lado, continua a haver procura no sector privado norte-americano e isso é muito positivo. 

O caminho está definido, com mais ou menos dificuldades? 

Sim, há um compromisso generalizado em matéria de descarbonização de edifícios e, por isso, continua a existir globalmente uma procura por orientações comuns em matéria de quantificação do carbono incorporado e do carbono operacional nos edifícios. Mas também existe uma procura no sentido de perceber como descarbonizar tipos específicos de edifícios, como instalações de saúde ou edifícios comerciais. A ASHRAE continua a trabalhar nesse sentido.  

Noutras geografias ou locais do mundo, está a começar a acontecer um enorme boom da construção, semelhante ao que aconteceu na China. Grande parte da indústria transformadora mudou-se para a Índia. Há a necessidade de trazer trabalhadores das zonas rurais para as cidades onde se situam as fábricas. Por isso, prevê-se anualmente na Índia a construção de uma cidade com a dimensão de Chicago durante os próximos 10 a 15 anos. A Índia está muito focada na sustentabilidade, pelo que vemos procura nesse sentido. E, depois, em lugares como o Brasil existe esta ambição da sustentabilidade e a ASHRAE tem sido muito solicitada para dar resposta a uma série de desafios.  

Apesar do que se vê com esta administração Trump, continuamos muito focados no nosso caminho. É claro que as guerras e a instabilidade global tornam tudo mais difícil porque afectam as cadeias de abastecimento e outras áreas importantes. Por outro lado, a preocupação das pessoas com uma iminente recessão económica podem levá-las a adiar os investimentos por algum tempo.  

Enquanto sector, penso que o mercado está a responder de uma forma muito positiva. A nossa grande feira no final de Janeiro dá-nos essa perpectiva anualmente. Normalmente, avalio as perspectivas para o sector com base no nível de participação e este ano tivemos a nossa maior feira de sempre em área e espaços de exposição.  Essa participação das empresas diz-nos que ainda existe um forte impulso do mercado. 

As renováveis são centrais para efeitos de descarbonização? O foco deverá estar aí ou existem muitos outros factores?  

As renováveis são muito importantes, mas existe uma série de outros temas diferentes. Sem dúvida que a descarbonização dos edifícios é um dos mais importantes. A proliferação dos centros de dados e a forma de lidar com o grande consumo energético que estes geram, o consumo de água… 

O foco deverá centrar-se nos edifícios saudáveis, garantindo que, à medida que descarbonizamos e promovemos a eficiência energética nos edifícios, não comprometemos a qualidade do ambiente interior, especialmente porque as pessoas passam, actualmente, 90% do seu tempo ou mais dentro de edifícios. O ambiente interior tem um impacto enorme na saúde das pessoas e nos resultados de saúde a longo prazo. Por isso, a QAI (Qualidade do Ar Interior) é um grande foco neste momento.

Depois temos outros aspectos, como a IA (Inteligência Artificial) e temas semelhantes. Interessa-nos perceber como IA irá afectar o nosso sector, tanto no que diz respeito à procura de equipamentos e sistemas, como à forma de conceber, operar e manter os edifícios.

No que diz respeito ao Plano Estratégico, e considerando os vários temas agregados, a visão da ASHRAE parece estar mais alargada. A ASHRAE fala dos edifícios, mas como elementos que se estendem às comunidades sustentáveis e resilientes? 

As boas práticas do lado dos edifícios são, em primeira análise, o mais importante.  Por isso, se nos limitarmos a colocar, por exemplo, isolamento à volta de um edifício específico e considerarmos apenas isso, estamos a desconsiderar as oportunidades de utilizar a energia residual noutro local. O importante é distribuir o calor ou a energia e utilizá-la de forma eficiente sempre que possível e isto aplica-se a qualquer edifício. Por exemplo, essa energia poderia ser utilizada para lavar roupa num hospital.

A energia que normalmente se desperdiça pode ser utilizada para aquecer edifícios noutro local. É nesta perspectiva que temos de olhar para além dos edifícios e começar a analisar o papel que os edifícios, individualmente, desempenham na comunidade em geral e perceber como se pode redistribuir a energia para a utilizar melhor. Acho que essa é provavelmente a grande diferença que estamos a promover.

A evolução das comunidades de energia tem sido muito lenta e a electrificação dos edifícios está a dominar a maioria das políticas.  Estamos a perder tempo? 

Sim, poderá acontecer se nos focarmos apenas nos edifícios e na electrificação. A electrificação é apenas uma das ferramentas para a descarbonização de um edifício. Muitas pessoas pensam que a electrificação é tudo e que resolve tudo. No que diz respeito à rede eléctrica europeia, há um bom trabalho já realizado no âmbito da transição para as energias renováveis. Mas, noutras partes do mundo, isso ainda não aconteceu. Por isso, se nos concentrarmos apenas na transição para a electrificação, e se essa continuar a ser produzida com elevadas emissões de carbono, estamos a dar um passo atrás.  

Depois a gigante tarefa da reabilitação… 

Penso que o primeiro passo para a descarbonização dos edifícios é reduzir a carga energética necessária. E só o conseguimos fazer melhorando a envolvente, o isolamento e todos os aspectos construtivos. E é por isso que considero tão importante olhar para os edifícios existentes, sim. A regulamentação em geral centra-se muito nos edifícios novos. Na verdade, são os edifícios existentes — os 93% dos edifícios que vão permanecer aqui nos próximos 50 anos e que já estão construídos — que deveriam estar no centro de todas as políticas energéticas.

Temos de nos concentrar primeiro neles e desenvolver projectos de eficiência energética que melhorem os vidros, os revestimentos exteriores e todos esses aspectos. Só assim reduzimos a nossa carga energética. Depois, é preciso dimensionar correctamente os equipamentos e, a partir daí, procuramos introduzir energias renováveis para compensar essa carga. Trata-se de um percurso dispendioso, sim, mas necessário para os edifícios existentes. 

Na cidade de Nova Iorque, por exemplo, existe uma regulamentação que exige que todos os edifícios existentes melhorem a sua envolvente e eficiência energética numa determinada percentagem e dentro de um determinado prazo. Qualquer coisa que ronda uma melhoria de 20% até 2028 ou algo do género. E depois vão aumentando gradualmente os requisitos, e é necessário atingir 40% até uma determinada data, com base num nível de referência. Esta prática está realmente a funcionar e bem.

Visita técnica às instalações da LMSA

A Europa deixou cair as metas intermédias rumo ao carbono zero nos edifícios. Temos apenas a data de 2050 para a descarbonização total do parque edificado. Uma meta realista, tendo em conta o investimento necessário? 

O investimento necessário é o principal obstáculo. Esta prática pode ser muito onerosa para os proprietários dos edifícios. E, por isso, se existirem incentivos torna-se tudo mais fácil. Mas se estivermos apenas à espera de que o proprietário do edifício assuma esses custos, vai ser muito difícil. E, por isso, acho que temos de encarar a descarbonização como um percurso no tempo. E há muita pressão devido à situação em que nos encontramos no que diz respeito ao aumento da temperatura, mas temos de ser práticos. E se olharmos para as grandes questões que procuramos resolver enquanto mundo e enquanto indústria — e vou usar as alterações climáticas ou a destruição da camada de ozono como exemplo —, temos o problema identificado. Tínhamos um plano de mais de 15 ou 20 anos para reduzir este problema e utilizámos soluções provisórias para chegar lá.

Assim, passámos da utilização dos fluidos frigorigéneos CFCs (R12), que danificam a camada de ozono, para os HCFCs (R22) e os HCFCs (R410A e R134a). Depois, eliminámo-los gradualmente e passámos para refrigerantes de baixo GWP (Potencial de Aquecimento Global ) e HFOs (hidrofluorolefinas), o que é, mais uma vez, o próximo passo e o futuro.  Estamos a fazê-lo com tempo e da forma correcta, mas tínhamos um objectivo a longo prazo e etapas intermédias para lá chegar. 

Só assim podemos alcançar este objectivo das emissões líquidas de carbono zero. Mas é muito importante definir metas a longo prazo. A meta do ano 2050 é a mais acertada, mas temos de dar passos intermédios e graduais para lá chegarmos, em vez de tentarmos fazer tudo agora e de uma única vez. 

Existe imensa regulamentação na Europa. E o mercado vê este excesso de legislação e a sua complexidade como uma grande dificuldade. 

Sim, eu tenho bastante experiência com a regulamentação europeia. E isso acontece em muitos outros países. Existe uma espécie de orientação europeia via directivas comunitárias, mas a implementação fica a cargo de cada Estado-Membro. Mas se olharmos para o Norte da Europa, como a Alemanha e outros países, verificamos que não só existem os meios, como também existe a vontade de avançar. Depois, em climas que talvez não exijam tanto ar-condicionado como no Sul ou Leste da Europa, as coisas são diferentes porque as necessidades são diferentes.

Por isso, a capacidade de resposta de cada Estado-Membro varia de forma significativa em toda a Europa. Em Espanha, ou em Itália, pode não ser possível fazer o mesmo que se faz na Alemanha ou na Dinamarca. E assim surge uma inconsistência na aplicação da lei e até na gestão dos incentivos, porque cabe sempre às autoridades locais decidir como vão proceder. Na Europa Oriental existem outros problemas. Haverá partes da Europa que cumprem rigorosamente as regras e outras que não o fazem de forma nenhuma.

Podíamos fazer melhor se as directivas europeias tivessem em conta as necessidades dos diferentes países da Europa? 

No que diz respeito à eficiência energética, e tendo como exemplo os EUA, os requisitos mínimos exigidos são regulados a nível federal, o que significa que nenhum Estado dos EUA pode ter requisitos inferiores ao mínimo federal. Podem ir mais longe, como é o caso da Califórnia, mas não podem ficar aquém. Portanto, não cabe aos Estados decidir por si. Só que nem tudo funciona assim nos EUA. No que diz respeito às regulamentações ambientais (Agência de Protecção Ambiental), cada Estado tem a sua própria versão, e pode ir mais ou menos longe, dependendo das políticas ambientais internas. Mas no que diz respeito à energia isto não acontece.

Na Europa, se houvesse uma forma de garantir que as orientações fossem implementadas para todo o espaço europeu… a questão é que, para funcionar bem, as regras têm de ser simples e muito práticas ao mesmo tempo. E, por vezes, penso que na Europa os conteúdos da regulamentação são tão complicados e densos que se torna muito difícil cumpri-los de forma razoável. Depois acresce a imensa burocracia e o investimento enorme que é necessário. 

Eduardo Maldonado foi nomeado director da ASHRAE para a Europa. A sensibilização para essas questões vai ser uma das suas missões? Para nós portugueses é uma honra termos um português no Board of Directors da ASHRAE. 

O Eduardo é uma pessoa fantástica. Como especialista nesta área tem a personalidade certa para ajudar a criar alianças na Europa. E essas alianças são muito importantes para nós. Existem muitas associações europeias que protegem os seus mercados locais e isso sempre existiu. Normalmente essas associações são formadas por empresas. A ASHRAE é um tipo de organização muito diferente, não temos empresas como membros, temos indivíduos. Por isso, sou eu que sou membro, não a minha empresa. Trabalhamos com empresas, mas existimos para servir a sociedade com o nosso conhecimento técnico sobre o ambiente construído. E, talvez por isso, não acho que exista uma competição com outras entidades. Não estamos a tentar competir, mas, por vezes, essas entidades ficam um pouco receosas com a nossa dimensão global e notamos alguma resistência.  

Queremos trabalhar com toda a gente. É muito mais fácil resolver os grandes problemas do mundo se tivermos muitas pessoas a remar juntas na mesma direcção. E não queremos duplicar esforços. Por isso, se a REHVA (Federação Europeia das Associações de Aquecimento, Ventilação e Ar Condicionado), a EUROVENT (Associação Europeia representante da Indústria de Aquecimento, Ventilação, Ar Condicionado e Refrigeração) ou qualquer outra organização estiver a trabalhar em algo, prefiro colaborar com elas e não estarmos a duplicar trabalho e a desperdiçar tempo. Neste contexto, o Eduardo vai ser muito importante, até porque, para além do seu conhecimento técnico, é um diplomata e uma pessoa muito respeitada.  

Fotografias de destaque e no texto: © Direitos Reservados

PARTILHAR

PUBLICIDADE

REVISTA

AGENDA

SOBRE O AUTOR