Bairro C: Guimarães na primeira linha da regeneração urbana, descarbonização e inovação territorial

Este artigo foi originalmente publicado na edição nº 166 da Edifícios e Energia (Julho/Agosto 2026).

O Bairro C constitui uma das mais relevantes experiências contemporâneas de regeneração urbana e transição climática em Portugal. Localizado na zona de Couros, em Guimarães, o projecto resulta da transformação de uma antiga área industrial associada aos curtumes num território de experimentação urbana centrado na ciência, na cultura, no conhecimento e na descarbonização. A evolução do conceito Bairro C acompanha a estratégia municipal de desenvolvimento sustentável e a afirmação de Guimarães como referência europeia na neutralidade carbónica.

As cidades europeias têm vindo a enfrentar desafios complexos relacionados com as alterações climáticas, a reabilitação urbana, a eficiência energética e a coesão social. Há necessidade de se adaptar e inovar. Neste contexto, emergem projectos territoriais capazes de integrar diferentes políticas públicas e de criar soluções inovadoras para problemas estruturais. O Bairro C, em Guimarães, representa um desses casos. 

Mais do que uma simples designação territorial, o projecto Bairro C – Caminhos de Cultura e Criatividade – corresponde a uma visão integrada de desenvolvimento urbano sustentável. A sua evolução demonstra como uma antiga área industrial pode ser convertida num laboratório urbano dedicado à produção de conhecimento, à valorização cultural e à redução das emissões de gases com efeito de estufa.

De zona industrial a zona de inovação e conhecimento

O Bairro C encontra-se inserido na zona de Couros, uma área historicamente associada à indústria dos curtumes. Durante décadas, esta actividade marcou profundamente a economia local, a paisagem urbana e a identidade da cidade. Com o declínio progressivo da actividade industrial tradicional, desde o início da década de 90, sobretudo a têxtil e do vestuário, tornou-se necessário encontrar novos usos para os edifícios e espaços existentes. “Nos últimos anos, a área tem sido alvo de requalificação de um conjunto de edifícios industriais”, explica o director municipal da Câmara Municipal de Guimarães, Joaquim Carvalho. 

A estratégia adoptada procurou preservar a memória industrial do território ao mesmo tempo que introduziu novas funções urbanas. Este processo de regeneração permitiu recuperar património edificado, revitalizar espaços degradados e criar dinâmicas económicas e culturais.

Um dos aspectos curiosos do projecto reside na construção progressiva da sua identidade conceptual. A designação ‘C’ adquiriu diferentes significados ao longo do tempo, acompanhando a evolução estratégica do território.

Joaquim Carvalho explica que a requalificação da área tinha como finalidade, maioritariamente, criar polos ligados à Universidade do Minho, por isso “adoptou-se uma identidade ligada à ciência, e que progrediu também para o ‘C’ de Cultura, e, finalmente, para o ‘C’ relativo ao carbono, neste caso, à des carbonização”. Actualmente, o projecto conta com quatro áreas principais: ‘C’ Cultura (Programação Cultural), ‘C’ Conhecimento (Conferências e Publicações), ‘C’ Criatividade (Arte Pública e Arte Urbana) e ‘C’ Comunidade (Mediação Cultural e Projectos de Comunidade).

Esta evolução semântica não constitui apenas um exercício de comunicação institucional. Pelo contrário, traduz diferentes fases de maturação do projecto. Numa primeira etapa, a ligação à ciência decorreu da proximidade e colaboração com a Universidade do Minho. Posteriormente, a valorização cultural tornou-se um elemento estruturante da regeneração urbana. E, por fim, a emergência da agenda climática conduziu à incorporação da descarbonização como objectivo central. 

O modelo estratégico adoptado é de “cultural-led urban regeneration”: interpretar várias zonas do território, como a Zona de Couros e o Centro Internacional das Artes José de Guimarães; conservar património material e imaterial da cidade; promover o desenvolvimento do sector terciário e das indústrias culturais e criativas, apostando na criação de emprego qualificado; apostar na arte urbana no espaço público para promover o contacto dos artistas locais com as comunidades; fomentar a participação cívica.

A relação com a Universidade do Minho desempenha um papel fundamental na configuração do Bairro C. Diversos edifícios industriais recuperados passaram a acolher actividades ligadas à investigação, formação, experimentação tecnológica e transferência de conhecimento. 

A cooperação entre o município e a universidade permitiu criar um ecossistema de inovação relevante para a cidade. Esta articulação reforça a capacidade de atracção de talento, estimula o empreendedorismo e favorece a criação de projectos de investigação aplicada com impacto territorial. O modelo adoptado demonstra que a regeneração urbana contemporânea não deve limitar-se à reabilitação física dos edifícios. É igualmente necessário promover novas funções económicas e sociais que assegurem a vitalidade do território a longo prazo.

União Europeia reconhece projecto como boa prática

Uma das dimensões mais significativas do Bairro C está associada ao reconhecimento europeu obtido no âmbito da Missão Cidades. O projecto integra a es tratégia de neutralidade carbónica desenvolvida por Guimarães, enquadrando-se numa agenda de transformação urbana alinhada com os objectivos climáticos da União Europeia. 

“O projecto-piloto é reconhecido pela União Europeia como um dos projectos europeus mais consistentes para se atingir as metas da neutralidade carbónica no âmbito da Missão Cidades, onde se inserem em Portugal as cidades de Guimarães, Porto e Lisboa”, refere o director municipal.

Este reconhecimento constitui um importante factor de legitimação externa e demonstra a capacidade do município para desenvolver soluções inovadoras de elevada qualidade técnica. O apoio financeiro atribuído, no valor de um milhão de euros, reforçou a possibilidade de implementação de projectos-piloto. 

Comunidade de energia renovável como “projecto bandeira”

Uma das iniciativas que se destaca no projecto é a Comunidade de Energia Renovável. Esta intervenção representa uma mudança de paradigma na forma como a energia é produzida, distribuída e consumida em contexto urbano. Aliás, Joaquim Carvalho descreve-a como “um dos projectos bandeira”, cujo objectivo principal consiste em produzir energia eléctrica, através de fontes renováveis, e distribuí-la pelos edifícios municipais localizados num raio de quatro quilómetros.

A solução proposta baseia-se na instalação de painéis solares fotovoltaicos numa área, actualmente, associada à feira semanal. Para além da produção energética, a infraestrutura desempenha funções complementares de cobertura e qualificação do espaço público. “Todos os edifícios municipais, num raio de quatro quilómetros contados a partir do local da actual feira semanal, serão abastecidos por energia produzida nesse local, através da instalação de painéis solares.

Simultaneamente, a estrutura para suporte desses painéis, tal como a cobertura a instalar constituída por painéis solares de cor ‘terracota’, permitirão ainda cobrir o estacionamento que ocorre durante a semana, permitindo aos feirantes melhores condições para a actividade relativa à feira.” A abordagem integrada evidencia a preocupação em maximizar os benefícios da intervenção. O mesmo investimento produz tanto resultados energéticos, como ambientais, funcionais e urbanísticos. 

A estratégia do Bairro C insere-se num quadro mais amplo de descarbonização urbana. O objectivo consiste em reduzir, progressivamente, as emissões associadas à actividade humana através de múltiplas medidas complementares. Entre as iniciativas identificadas destacam-se a produção de energia renovável, a redução do tráfego automóvel baseado em combustíveis fósseis, a modernização da iluminação pública e o aumento da eficiência energética dos edifícios. 

Os desafios de aliar património e sustentabilidade 

Um dos maiores desafios identificados no Bairro C relaciona-se com a coexistência entre conservação patrimonial e eficiência energética. Guimarães possui um importante património histórico, incluindo áreas classificadas pela UNESCO, como o Centro Histórico de Guimarães, que foi inscrito como Património Mundial em 2001, e a extensão à Zona de Couros que foi aprovada em 19 de Setembro de 2023, passando a designação oficial a ser “Centro Histórico de Guimarães e Zona de Couros.” 

Devido à salvaguarda do património histórico/cultural, a implementação de determinadas soluções técnicas pode revelar-se complexa. “Os edifícios classificados ou protegidos do ponto de vista patrimonial encerram desafios e soluções complexas, da das as limitações de soluções comuns, no caminho para a alta eficiência energética que se pretende para Guimarães. Muitas vezes, as políticas de protecção ao centro histórico não são compatíveis com as soluções técnicas que o mercado dispõe para atingir esses objectivos, um dos desafios que se tem lançado à investigação e inovação é exatamente nesse sentido.”

Ainda assim, é necessário que as entidades locais demonstrem a importância de coexistir património com soluções mais sustentáveis e que irão beneficiar toda a comunidade. Guimarães é um exemplo disso: “O Município continua a acompanhar os desenvolvimentos nessa área e tem contribuído com medidas, que diminuíram as emissões, nomeadamente, através da produção de energia ‘limpa’, como as que resultaram da Comunidade de Energia Renovável, da diminuição de tráfego automóvel a combustão nessas áreas ou a substituição integral da iluminação pública por luminárias 100% LED.” 

Alterações climáticas e adaptação urbana 

O projecto incorpora igualmente preocupações relacionadas com a adaptação às alterações climáticas. A crescente frequência de fenómenos extremos e o aumento das temperaturas urbanas exigem respostas específicas por parte das cidades. “Também é reconhecido o aumento geral da temperatura no mundo e nas cidades, em particular. Guimarães, à semelhança de outras cidades, ‘sofre’ de aparecimento das chamadas ‘ilhas de calor’. As políticas de descarbonização, o aumento das áreas verdes, o aumento da reciclagem aos vários níveis, são medidas a implementar no Bairro C”. 

Outro desafio é a Ribeira da Costa/Couros, um dos elementos mais sensíveis do território. Regista problemas de qualidade da água, cheias no centro da cidade, erosão de margens e assoreamento do leito. O Projecto Revitalização e Valorização deste local inclui simulações hidrodinâmicas e a criação de um centro de educação ambiental no edifício Ciência Viva.

Este projecto nasceu também de uma parceria entre a Câmara Municipal e a Universidade do Minho, neste caso, a Escola de Engenharia. A integração de múltiplos factores para preparar a cidade para eventos extremos é relevante para aumentar a resiliência do território face aos impactos já observáveis das alterações climáticas. 

Impactos territoriais e potencial de replicação

O carácter experimental do Bairro C permite encará-lo como um caso de estudo relevante para outras cidades portuguesas e europeias. A combinação entre regeneração urbana, valorização patrimonial, inovação científica, produção energética renovável e neutralidade carbónica cria um modelo potencialmente replicável. Cada território possui características próprias, mas os princípios fundamentais podem inspirar intervenções semelhantes noutros contextos. 

A neutralidade carbónica exige transformações profundas nos sistemas de mobilidade, energia, construção e consumo. A compatibilização entre preservação patrimonial e eficiência energética continuará a exigir investigação e inovação. Da mesma forma, a manutenção do envolvimento dos diferentes actores institucionais e da população será determinante para assegurar a sustentabilidade do projecto. 

O Bairro C constitui uma das experiências significativas de regeneração urbana sustentável, actualmente, desenvolvidas em Portugal. A transformação de uma antiga zona industrial num território orientado para a ciência, cultura, conhecimento e descarbonização demonstra a capacidade de reinvenção das cidades contemporâneas.

A sua relevância ultrapassa a escala local. O reconhecimento europeu, a integração na Missão Cidades e a implementação de projectos inovadores como a Comunidade de Energia Renovável conferem-lhe um valor estratégico significativo. 

Ao olhar para o futuro, Joaquim pretende “que o Bairro C seja um exemplo de cidade, de Cultura, Ciência, Conhecimento e com zero emissões de gases com efeito de estufa”. Esta frase define a ambição central do projecto e traduz uma visão integrada de desenvolvimento urbano sustentável. 

Fotografia de destaque: © Câmara Municipal de Guimarães

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