O Plano de Acção para a implementação da metodologia BIM já foi apresentado e aguarda agora validação do Governo. Mas a sua concretização exige mais do que a definição de acções e metas. Para a directora-executiva da StartBIM, os obstáculos à adopção deste instrumento, que vai concretizar a estratégia nacional, já não são sobretudo tecnológicos. Cláudia Antunes acredita que o desafio que se segue é sobretudo organizacional: formar mais profissionais, apoiar as empresas e criar regras comuns que permitam uma adopção proporcional à realidade do sector em Portugal serão determinantes para transformar esta estratégia numa prática normalizada nos próximos anos.
Num contexto internacional em que a metodologia é já uma prática consolidada, e depois de anos de uma adopção a diferentes ritmos, Portugal prepara-se agora para uma nova fase de implementação do BIM – Building Information Modelling (ou Modelagem da Informação da Construção), cuja utilização tornar-se-á obrigatória nos próximos anos.
O Plano de Acção para a implementação desta metodologia já foi apresentado, revelou, em resposta escrita à Edifícios e Energia, o Instituto dos Mercados Públicos, do Imobiliário e da Construção (IMPIC), que ficou responsável pela elaboração deste documento. Questionado se a elaboração deste plano detalhado estaria concluída, o instituto garantiu que foi entregue dentro do prazo previsto na Resolução do Conselho de Ministros n.º 89/2026, de 21 de maio, que aprovou a Estratégia Nacional para a Implementação da Metodologia BIM (PortugalBIM). O prazo máximo estabelecido na legislação era de 90 dias, pelo que o documento foi entregue até 20 de Agosto.
O IMPIC afirmou ainda que o documento encontra-se agora “em fase de validação pelas áreas governativas identificadas na resolução” – neste caso, Economia, Reforma do Estado, Educação, Ciência e Inovação, Finanças, Ambiente e Energia -, sob coordenação da área governativa da Habitação. Após essa aprovação, será divulgado e publicado em Diário da República, acrescenta.
O conteúdo deste plano detalhado permanece, para já, reservado. O IMPIC resume apenas que, tal como definido na resolução, o plano de acção incluí “a informação dos recursos necessários para a execução das ações previstas que se traduzirão na implementação da metodologia BIM, bem como indicadores e metas monitorizar”.
“Com a aprovação do Plano de Acção, iniciar-se-ão os trabalhos previstos no mesmo, dos quais temos a convicção que permitirão uma adoção progressiva da metodologia, que irá permitir a transição digital do sector AECO (Arquitetura, Engenharia, Construção e Operação)”, remata o instituto público.
Esta fase de conclusão do plano de acção acontece num momento em que o mercado português começa a sentir de forma mais evidente a necessidade de passar da experimentação à uma adopção efectiva do BIM. Depois de anos em que a metodologia era sobretudo procurada por empresas que precisavam de responder a requisitos específicos de determinados projectos nacionais e internacionais, a realidade está a mudar, explica, à Edifícios e Energia, a arquitecta e directora-executiva da StratBIM e também coordenadora de um grupo de trabalho da Ordem dos Arquitectos dedicado ao BIM.
Actualmente, a questão é mais estrutural. “Hoje, a perspectiva já é mais de como é que vou poder integrar esta metodologia na minha organização para já estar preparado para esta transição. E ter uma maior autonomia, ou, pelo menos, uma progressiva autonomia, ao longo do tempo”, afirma Cláudia Antunes. A mudança é particularmente visível na procura que a consultora em BIM tem vindo a observar ao longo de 10 anos a trabalhar com o sector. “Há muita procura por formação, e esse é um dos pontos que está precisamente na estratégia. Diria que muito rapidamente possa ser o primeiro ponto da lista em termos de urgência”, considera a especialista.
Uma transição que já não é apenas tecnológica
A metodologia BIM é uma abordagem de trabalho colaborativa que envolve a criação, a gestão e o uso de informações digitais num projecto de construção ou infraestruturas. Ao contrário dos métodos tradicionais baseados em desenhos 2D, o BIM utiliza modelos 3D inteligentes e informações detalhadas que permitem aos intervenientes do sector trabalhem num ambiente digital partilhado, onde podem visualizar, analisar e colaborar de forma mais eficiente.
Com a utilização da metodologia, os profissionais podem criar simulações, realizar análises de desempenho, detectar conflitos e realizar um planeamento mais preciso durante todas as fases do projecto, desde a concepção, até à construção e à operação.
“O que tem feito o sucesso desta metodologia em todo o mundo tem a ver com a possibilidade de simular em ambiente digital a construção e detetar erros e problemas que iríamos encontrar depois em obra. Estamos, no fundo, a antecipar custos elevados que iríamos ter em obra”, aponta Cláudia Antunes. O manual relativo à aplicação do BIM no sector público Europeu mostra precisamente essas vantagens: a digitalização dos processos de AECO permite economias entre 10% e 20% nas despesas de capital dos empreendimentos de construção de edifícios e de infraestruturas.
Também facilita a gestão e a manutenção do edifício ao longo do seu ciclo de vida, fornecendo informações precisas e actualizadas sobre os componentes e sistemas da construção, o que resulta em economia de tempo, redução de custos e melhoria da qualidade do projecto e da construção.
Embora a adopção do BIM continue a ser “muitas vezes reduzida à componente da tecnologia”, essa componente é apenas a ponta do icebergue. “Os principais obstáculos agora são cada vez menos tecnológicos”, afirma Cláudia Antunes. A tecnologia, considera, já está suficientemente desenvolvida e existe uma grande variedade de softwares disponíveis no mercado.
O desafio está agora sobretudo dentro das próprias organizações. “A metodologia assenta em três pilares, a tecnologia, os processos e as pessoas. Sem estes pilares, não conseguiríamos ter BIM. Precisamos que os processos estejam normalizados, que a informação circule, ou seja, que exista interoperabilidade entre todos. Mas também que estejam muito bem definidos os papéis e as responsabilidades das pessoas, ou seja, que todos saibam exatamente o seu papel e a sua responsabilidade dentro desta forma nova de colaborar”, sublinha Cláudia Antunes.
Se inicialmente o foco do BIM era, sobretudo, a modelação, hoje está cada vez mais centrado na gestão da informação, sublinha a consultora. A questão passa, assim, por perceber “quem cria, quem gere, quem é que é o dono da informação e para quem vai ser essa informação”, explica Cláudia Antunes. Neste contexto, a interoperabilidade e o Open BIM ganham importância. A utilização de formatos abertos é particularmente relevante na contratação pública, onde “não faria sentido existirem formatos fechados”, defende.
Ainda assim, Cláudia Antunes considera que é importante perceber qual é realmente o nível de maturidade digital das empresas e dos profissionais de forma a “traçar um plano que consiga responder à realidade actual”. A razão é simples: se o plano de acção for construído apenas tendo em conta as entidades que já estão avançadas, poderá deixar de fora quem ainda está a dar os primeiros passos.
A consultora recorda situações em que profissionais procuraram a StratBIM depois de encontrarem requisitos BIM em concursos públicos sem saberem sequer interpretá-los e sem terem ainda capacidade interna para o fazer. “O problema é que não está incluído, normalmente, nos honorários. Assume-se que é só um projecto de arquitectura ou arquitectura especialidade, mas depois entra aqui a componente BIM, que pode, em determinados momentos, por exigir um nível de desenvolvimento muito alto, ser mais caro do que o projecto de arquitectura”, explica.
Para a arquitecta, estes casos demonstram que a adopção do BIM não pode ser reduzida à capacidade de adquirir uma ferramenta ou responder formalmente a um requisito.”Esta literacia é necessária, todos precisam saber do que é que se está a falar uma vez que, se é para acontecer, que seja melhor forma possível”, defende.
Plano traz a linguagem comum necessária
É na passagem da estratégia à execução que o plano de acção pode vir a assumir um papel central. Para Cláudia Antunes, uma das suas principais funções do documento será estabelecer uma linguagem comum a nível nacional para um sector que avançou até agora a diferentes velocidades. “Até agora, cada um ia ao seu ritmo e um pouco à sua maneira, daí os diferentes níveis, timings e, até mesmo, diferentes formas de implementação porque não havia este guia comum”.
Essa uniformização não significa, contudo, aplicar exactamente as mesmas exigências a todas as empresas. Pelo contrário, a especialista considera que esta transição deve ter em conta a dimensão e capacidade do tecido empresarial português, onde predominam principalmente as micro e pequenas empresas.
“É muito diferente uma grande empresa implementar o BIM, porque tem uma folga financeira grande, investe na sua competitividade internacional ou está envolvida em grandes projectos internacionais ou megaprojectos de infra-estruturas, do que um arquitecto ou engenheiro que está sozinho no seu gabinete”, aponta, acrescentando que garantir essa proporcionalidade é fundamental.
Preciso capacitar profissionais para a estratégia sair do papel
Entre os principais desafios está a capacitação dos profissionais. A procura por formação BIM tem aumentado, mas a capacidade instalada não parece acompanhar o ritmo dessa procura. “Há muita procura por formação”, afirma a directora-executiva da StratBIM. Ao mesmo tempo, “não há muitos formadores” com experiência suficiente nestas matérias e os profissionais e entidades que já trabalham na área encontram-se, em muitos casos, com capacidade limitada para responder a todos os pedidos.
O problema torna-se ainda mais complexo porque não existe um único perfil BIM, sendo que as competências necessárias são diferentes para cada interveniente. “É diferente o BIM para arquitecto, o BIM para alguém que está numa câmara municipal, o BIM para uma entidade pública que está a contratar e que precisa de saber o que pedir e como validar a informação que lhe vai chegando”.
A necessidade de capacitação começa ainda nas universidades. Cláudia Antunes, que durante vários anos esteve ligada à formação da Ordem dos Arquitectos, considera que muitos recém-formados chegam ao mercado sem conhecimentos suficientes sobre BIM. A solução passa por uma integração mais generalizada do BIM nos currículos, defende.
Contratação pública tem de saber pedir BIM
A mudança tem também de acontecer do lado das entidades que contratam. Cláudia Antunes considera que a capacitação das entidades adjudicantes será essencial para uma implementação efectiva. “Deve-se começar principalmente por quem está a pedir BIM e principalmente entidades públicas, que têm esta responsabilidade grande, que é saber o que pedir e como pedir”, explica.
A arquitecta espera que o plano de acção traga essas orientações para a contratação BIM. “Se existir um guia para a contratação BIM, onde todos soubessem exactamente responder como é que podem pedir BIM, e se isso estiver normalizado em orientações para todos, seria excelente”, considera.
Do lado dos fornecedores, o objectivo seria igualmente claro para que consigam interpretar os requisitos e calcular correctamente os recursos necessários para responder ao que é pedido. “Tem de ser muito mais do que um anexo BIM”, alerta a especialista.
Outra das barreiras que continua a condicionar a adopção do BIM são os custos e o investimento associados. Além da formação e da reorganização interna das entidades, para fazer uso da metodologia é necessário actualizar equipamentos capazes de suportar a tecnologia. Cláudia Antunes defende que a existência de apoios deve ser uma possibilidade a considerar, pelo menos para ajudar as empresas no investimento inicial que será necessário. “Seria muito importante para se conseguir que todos começassem a percorrer este caminho”
BIM passa a ser obrigatório a partir de 2030
A partir de 1 de Janeiro de 2030, os projectos de arquitectura abrangidos pelo RJUE – Regime Jurídico da Urbanização e Edificação, devem passar a ser modelados segundo a metodologia BIM. Em paralelo, a estratégia nacional estabelece um período de implementação de seis anos, ou seja, até 2032, durante o qual devem ser concretizadas medidas e metas previstas para a transição do sector AECO.
“Acredito que a data de 2030 está bastante ajustada ao nosso contexto e já é confortável para quem inicie agora”, afirma Cláudia Antunes. Mas quem ainda não começou, também não deve encarar a actual fase como uma oportunidade perdida. “Tenho tido algumas conversas com clientes nossos que estão a iniciar o processo agora. E eu compreendo o sentimento que já estão em falta ou que já deviam ter começado isto há muito tempo, mas acredito sinceramente que o momento é agora, porque agora, sim, vão existir xistem estas directrizes para estarmos todos alinhados”.
A diferença face aos primeiros anos em que uma parte reduzida do sector começou a aplicar o BIM está na experiência entretanto acumulada. “Já tudo foi testado em termos de aplicabilidade das normas. Já algumas entidades estão à frente na definição dos requisitos, como a Building Smart que definiram também os requisitos de contratação. Os NIR [requisitos de informação de troca] para entidades públicas e privadas também já foram testados. Já não estamos a inventar nada”.
Cumprir metas para não perder a confiança do sector
A execução será, contudo, determinante para que PortugalBIM e o plano de acção não se transformem apenas num conjunto de intenções. Cláudia Antunes adverte que as metas devem ser “metas execuíveis”, que sejam calendarizadas ao longo do tempo e acompanhadas por indicadores que permitam perceber se há efectivamente avanços.
O IMPIC prevê que, depois da aprovação do plano de acção, se iniciem os trabalhos previstos no documento, com o objectivo de promover uma adopção progressiva da metodologia BIM e a transição digital do sector AECO. Por agora, a Ordem dos Arquitectos tem feito pressão junto ao IMPIC para que seja também ouvida neste processo. “Com esta notícia de que de facto o plano [de acção] está para validação com a Secretaria de Estado da Habitação, o que nos resta agora é esperar que a ordem seja envolvida para apoio à validação deste plano”, remata Cláudia Antunes.
O que se sabe sobre a PortugalBIM?
A Estratégia Nacional para a Implementação da Metodologia BIM, também designada como PortugalBIM, prevê, entre várias medidas, a criação de guias de aplicação prática, o desenvolvimento de uma plataforma nacional de conhecimento e ferramentas BIM e de um repositório de modelos BIM de obras públicas.
Na área da capacitação, o Governo quer formar, pelo menos, 3 mil profissionais dos sectores público e privado. É estabelecido também o objectivo de apoiar a implementação nas pequenas e médias empresas. No caso dos municípios, estabeleceu como meta a promoção da integração do BIM em, pelo menos, 50 municípios por ano durante o período de implementação da estratégia.
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