Renovação energética: projecto envolve famílias vulneráveis para não deixar ninguém para trás

HELP EU/ IRENE

Quatro cidades europeias estão a testar uma abordagem participativa na renovação energética de edifícios multifamiliares onde residem famílias vulneráveis, com o objectivo de combater a pobreza energética sem provocar a deslocação das populações locais. O projecto europeu IRENE quer tornar os processos de transição mais inclusivos, envolvendo os próprios moradores para garantir que a melhoria da eficiência dos edifícios não deixa ninguém para trás. Sobretudo quem tem menos capacidade para suportar os custos da transição. 

Mais de 47 milhões de famílias europeias vivem em situação de pobreza energética, isto é, não têm capacidade financeira para manter a casa adequadamente aquecida, mas também não conseguem pagar o arrefecimento ou electricidade essenciais, segundo a União Europeia (UE), enfrentando múltiplos impactos na saúde, inclusão social e qualidade de vida. Para combater este problema, o projecto europeu IRENE – Catalysing Inclusive, Representative, Equitable Energy reNovation wavE está a testar uma abordagem participativa na renovação energética de habitações multifamiliares que coloca famílias em situações economicamente vulneráveis no centro da transição energética. 

A iniciativa não se limita apenas à intervenção física nos edifícios ao procurar também identificar as barreiras que impedem ou dificultam o acesso das populações à renovação energética. O objectivo é garantir que a melhoria da eficiência energética dos edifícios não deixa ninguém para trás, sobretudo quem tem menos capacidade para suportar os custos desta transição, explica, em comunicado, a Global Factor Consulting SL, entidade coordenadora do projecto.

“O IRENE coloca as pessoas no centro da transição energética. Ao combinar a renovação dos edifícios com a capacitação das comunidades, pretende garantir que os agregados familiares vulneráveis possam beneficiar activamente de um futuro mais verde, mais saudável e mais inclusivo”, pode ler-se.

Espera-se que o projecto impacte 17 358 pessoas ao renovar, no total, 227 edifícios multifamiliares e ao beneficiar 7 440 agregados famíliares em situação de vulnerabilidade. Em termos de poupanças energéticas, estima-se que o IRENE irá reduzir o consumo energético em 72 GWh por ano e reduza emissões com efeito de estufa em 68,6 tCO2e anuais. 

Uma renovação pensada com as comunidades  

A metodologia participativa do IRENE começa pelo mapeamento de indicadores de pobreza energética. A partir daí são co-criadas estratégias de renovação do edificado adaptados às necessidades de cada território, com o propósito de reduzir consumos de energia e, simultaneamente, melhorar as condições de vida das populações residentes.  

Este diagnóstico local servirá também de base para procurar soluções de financiamento, elaborar recomendações de política pública e ao desenvolver acções de capacitação dirigidas às populações residentes e autoridades locais, sublinha a Global Factor. Neste momento, esta abordagem está a ser testada em quatro cidades-piloto: Vilnius, na Lituânia, Vilvoorde e Leuven, na Bélgica, e Madrid, em Espanha.  

Em todas estas cidades – que apresentam diferentes contextos socioeconómicos e níveis de exposição aos riscos associados às mudanças climáticas – estão a ser mapeados indicadores de pobreza energética e realizadas entrevistas aos residentes dos edifícios que, no futuro, serão alvo de intervenção. O projecto prevê ainda a criação de Energy Justice Hubs, espaços destinados a reunir comunidades, investigadores, autoridades públicas, organizações da sociedade civil e representantes da indústria, promovendo a troca de conhecimento e de boas práticas.  

Segundo a entidade coordenadora do IRENE, em Vilnius (Lituânia) e Vilvoorde (Bélgica), o projecto pretende reforçar a capacidade dos serviços de apoio à renovação energética, como as chamadas One-Stop Shops, para chegar às famílias mais vulneráveis. Nesta última, mais de 200 residentes já foram abrangidos por sessões de informação e visitas domiciliárias, tendo mais de 50 famílias recebido orientação personalizada.  

Já em Leuven (Bélgica) e em Madrid (Espanha) estão a ser desenvolvidas novas abordagem destinadas a disponibilizar aos residentes apoio técnico, financeiro e jurídico ao longo do processo de renovação. Na capital espanhola, o bairro de Puerto Chico mobilizou também cerca de duas centenas de residentes através de workshops e iniciativas comunitárias. Em Espanha, as famílias podem, actualmente, candidatar-se a apoios à renovação através de programas como o Plan Rehabilita 2026, o Plan Transforma tu Barrio 2026 e o Plano Nacional de Habitação 2026-2030. 

Nesse bairro espanhol, que está a ser alvo de um processo de regeneração urbana, o Conselho Superior de Investigações Cientícias (CSIC) – principal instituição pública de investigação de Espanha -, está a realizar, no âmbito do IRENE, análises ambientais e de propriedades térmicas. A investigação inclue ainda a utilização de sensores de conforto térmico e a caracterização dos materiais urbanos, com o objectivo de avaliar os efeitos das futuras intervenções de renovação energética dos edifícios do bairro.

Co-fundado pela UE e financiado pelo programa europeu LIFE, o IRENE envolve dez organizações da Bélgica, Lituânia, Países Baixos e Espanha, entre municípios, universidades, centros de investigação, organizações de defesa dos consumidores e especialistas em eficiência energética. O projecto, que se enquadra no subprograma de apoio à transição para as energias limpas, tem duração prevista até Agosto de 2028.  

Entre os resultados esperados do projecto estão a redução do consumo de energia e das emissões de carbono, a melhoria das condições de habitação das famílias vulneráveis, o reforço da governação local na área da transição energética e a mobilização de investimento para a renovação dos edifícios.  A iniciativa enquadra-se nas políticas europeias do Pacto Ecológico Europeu, nas metas climáticas e energéticas da UE para 2030, nomeadamente o objectivo de neutralidade climática até 2050, e ainda na estratégia Renovation Wave, que visa melhorar 35 milhões de edifícios na UE até 2030.

Fotografia de destaque: © Help EU / Projecto IRENE

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