Este artigo foi originalmente publicado na edição nº 165 da Edifícios e Energia (Maio/Junho 2026).
Na unidade industrial da Grupel, em Vagos, Aveiro, foi instalado um sistema híbrido que combina painéis fotovoltaicos e baterias de armazenamento. Este é um sistema pioneiro em Portugal e está a ser desenvolvido pela própria Grupel, em conjunto com a Prosolia Energy. O projecto inclui 813 módulos solares (totalizando 500 kWp) e um sistema de baterias com 645 kWh de capacidade (300 kW de potência máxima). Trata-se de um sistema de gestão inteligente com modo de operação autónomo, concebido para maximizar o autoconsumo da energia gerada.
A independência da rede como o passo a seguir
Falámos com Pedro Silva, Country Manager da Prosolia em Portugal, que nos explica melhor qual o objectivo da empresa com este projecto. “O objectivo da Grupel é desenvolver a empresa como IPP (produtor independente de energias renováveis) no negócio de energias renováveis. Por um lado, desenhar grandes centrais de utilidade de escala que se ligam à rede pública nacional e que vendem essa energia para a rede e, por outro lado, que é, digamos assim, o lado talvez mais ‘querido’ da empresa, desenhar centrais de energia renovável — pode ser eólica, pode ser com baterias, podem ser e devem ser híbridas. Estas centrais podem ser instaladas localmente onde está o consumidor ou próximo da zona do consumidor, mas ambas são ligadas Behind The Meter (BTM) para dar energia autoconsumida ao cliente.”
Pedro acrescenta ainda que é fulcral a indústria portuguesa tornar-se independente da rede pública, porque “as tarifas são mais baratas, independentes da fluctuação da rede, do mercado e da vontade política.”
O núcleo desta solução pioneira é um sistema híbrido, que utiliza energia solar e de baterias. A instalação fotovoltaica de grande escala (500 kWp, 813 módulos solares) capta energia durante o dia. Essa energia pode ser consumida directamente na fábrica ou carregada nas baterias de lítio integradas (645 kWh), sendo libertada nos períodos de pico de consumo ou quando a produção solar é reduzida. As baterias permitem, assim, suavizar o perfil de carga e manter a unidade industrial autónoma mesmo em falhas de rede.
Entre as funcionalidades avançadas, o sistema inclui monitorização em tempo real, detecção automática de falhas e até um mecanismo automático de combate a incêndios, garantindo elevados níveis de segurança operacional. Adicionalmente, permite operar em modo ilha, isto é, tem independência total da rede, quando necessário.
O projecto apresenta um conjunto de soluções integradas (solar, armazenamento e controlo inteligente) desenhado para oferecer à indústria uma fonte mais eficaz e resiliente de energia renovável.
Impactes energéticos e ambientais
A nível energético e ambiental, o projecto permitirá à unidade industrial da Grupel alcançar 665,6 MWh de energia limpa produzida por ano, reduzir 314 toneladas de dióxido de carbono por ano (equivalente à plantação de 1945 árvores), aumentar significativamente a autonomia energética e a resiliência e continuidade operacional, mesmo em cenários de instabilidade da rede eléctrica.
Em termos energéticos, o projecto promete ganhos significativos de eficiência e fiabilidade. Ao armazenar a energia excedente, a fábrica pode reduzir substancialmente o consumo da rede pública. O custo reduzido de electricidade solar terá “um efeito de poupança económica” no fim do ano operacional. Aliás, Pedro Silva garante mesmo que esta solução “vai ser o futuro”.
“Para o actual perfil de produção em Portugal, ao dia de hoje, a energia no preço do mercado grossista é muito baixa, o que quer dizer que não tenho grande vantagem em fazer uma central fotovoltaica, porque nessas horas solares vai-se produzir uma energia que no mercado também está barata. Portanto, digamos que o mercado e a fotovoltaica concorrem directamente. Quando eu hibridizo, consigo fazer aquilo a que se chama de arbitragem tarifária, ou seja, toda esta energia, se eu necessitar, consumo-a num momento, se eu não necessitar, armazeno-a e liberto-a no meu consumo quando a rede já está muito mais cara. Assim, tenho dois efeitos: tenho um efeito de poupança económica porque consigo transportar energia para quando ela é mais cara na rede ou substituí-la; e tudo aquilo que não consigo aproveitar no momento posso guardar para usar outra vez e injecto na rede apenas quando faz sentido, para quando é necessária.”
Além dos benefícios locais, o projecto alinha-se com objectivos mais amplos de sustentabilidade. Ao aumentar a produção renovável no próprio local, diminui-se a dependência de energia importada.
“A energia é um dos poucos ouros de Portugal”
Portugal pode não ser o melhor país para produção de energia renovável, mas se houver uma mistura de várias fontes, o país mais ocidental da Europa pode ter condições mais do que favoráveis, na opinião do engenheiro. “Os melhores ventos estão na Escócia, o melhor sol está em África, mas o facto de Portugal ser um país ‘médio’ não quer dizer que é mau, quer dizer que a nossa ponderação de todas estas fontes de energia é muito equilibrada. Ou seja, se conseguirmos que, por um lado, as indústrias, os consumidores, consigam fazer esta fusão de solar com baterias, de eólico com baterias, de eólico, solar e baterias, e, por outro lado, a produção conseguir ter grandes centrais fotovoltaicas, grandes centrais eólicas, algumas mini-hídricas e conseguirmos tirar a nossa necessidade do petróleo e dos seus derivados, nós podemos ter aqui uma riqueza muito grande. Isto é algo muito importante porque, infelizmente, nós não temos nem petróleo, nem ouro, nem absolutamente nada nas nossas terras. A energia, esta fusão energética renovável, é um dos poucos ouros. Devemos aproveitar, realmente, os recursos que temos e utilizá-los bem porque existem vários que, quando conjugados, conseguem cobrir todas as necessidades e acho que não temos de ir para outras soluções, como a energia nuclear. Acho que o nuclear é muito bonito do ponto de vista técnico, mas, para as nossas gerações futuras, pode ser uma prenda muito envenenada.”
Esta combinação entre a energia solar e o armazenamento de baterias melhora a resiliência do sistema e permite integrar mais renováveis na rede, contribuindo para as metas do Plano Nacional de Energia e Clima 2030.
O futuro começa em Vagos
Quando questionado sobre os maiores entraves ou desafios inerentes à implementação deste projecto, Pedro Silva responde convictamente que “não há nenhum. É muito fácil de implementar”. No entanto, refere que ainda há clientes que demonstram alguma preocupação, pelo facto de se pôr uma bateria num edifício: “perguntam, em caso de incêndio, como é que o seguro vai reagir, mas não há problema nenhum, porque estas baterias já estão preparadas para ser postas no exterior, são modelares.”
O preço “é o único problema que existe”, diz. “O preço tem vindo a diminuir, mas, quando comparado com a utilização de apenas energia fotovoltaica, ainda é muito mais elevado.”
“A fotografia de hoje das cidades diz-me que todos os seus elementos constituintes são consumidores, mas, num futuro ponto próximo, vão ser consumidores e produtores: vão consumir por um lado, porque necessitam de ter a sua vida do dia-a-dia a funcionar, e isso significa consumir energia, mas, por outro lado, vão conseguir exportar para a rede, equilibrando a própria rede. Tem de se criar um sistema bidireccional, um sistema que seja dinâmico.”
O projecto híbrido entre a Prosolia e a Grupel, em Vagos, exemplifica como a integração de tecnologia renovável e armazenamento pode elevar a eficiência dos edifícios industriais. Segundo os responsáveis, esta solução não só optimiza o uso da energia gerada local, mas também fortalece a independência energética da unidade, alinhando-se com metas sustentáveis. Como destaca Pedro Silva, o sistema torna-se “mais completo, inteligente e resiliente”, trazendo inovação para a indústria portuguesa.
O projecto reforça que, no caminho da sustentabilidade urbana e industrial, a hibridização solar-baterias é uma das ferramentas chave para reduzir emissões e custos de energia sem prejudicar a operação.
Fotografia de destaque: © Prosolia




