Serão os edifícios flutuantes o futuro do crescimento urbano?

Este artigo foi originalmente publicado na edição nº 164 da Edifícios e Energia (Março/Abril 2026).

Já se imaginou a viver por cima de água num edifício flutuante? Que benefícios traz? Quais os desafios?

Num contexto de subida do nível da água do mar, de pressão sobre o solo urbano e a necessidade de reduzir as emissões de carbono e os custos operacionais dos edifícios, os projectos de urbanismo aquático têm vindo a ganhar expressão como alternativa técnica e estratégica. Ao deslocar parte da densidade urbana para plataformas flutuantes ou estruturas anfíbias, cria-se a oportunidade de repensar fundações, envolventes térmicas, redes energéticas e modelos de manutenção, não como adaptações provisórias, mas sim como sistemas concebidos desde a origem para o desempenho, a durabilidade e poupança energética.

A abordagem tem vindo a ser desenvolvida, tendo já casos práticos úteis, como o de Schoonschip, em Amesterdão, onde existe a comunidade flutuante mais sustentável da Europa, e que podem ser replicados em países como Portugal.

Da arquitectura ao HCPE: a cidade como um “sistema vivo”

A evolução conceptual é bem expressa por Koen Olthuis, fundador da Waterstudio, uma empresa de arquitectura que vê na água uma solução para enfrentar os desafios do presente e do futuro das cidades. “Sou arquitecto e urbanista, mas o meu trabalho evoluiu para aquilo a que chamo HCPE (Hydro-City Performance Engineering), um método e uma mentalidade que encaram a cidade como um sistema vivo, passível de ser medido, diagnosticado e melhorado”, define. “É também por isso que costumo dizer: sou um médico da cidade e utilizo a água como medicamento.”

A água deixou, assim, de ser apenas paisagem ou um factor de risco ou ameaça. É também um factor essencial para tornar as cidades mais “seguras, confortáveis e eficientes na utilização de recursos”. Desta forma é também possível prevenir cenários de tempestades, cheias ou ondas de calor, já que a vulnerabilidade das cidades também está relacionada com a falta de planeamento e este planeamento pode agora sair de terra firme e ser explorado no meio aquático.

A constante análise do desempenho do edifício contribui para que se passe de uma “solução de contingências para uma infraestrutura urbana programável”, com registo de “risco de inundação, stress térmico, procura energética, qualidade da água e vida útil dos materiais.”

A resiliência face às inundações é uma das vantagens imediatas deste tipo de construção sobre a água. E porquê? Koen Olthuis explica que, com a falta de solo, tem aumentado a construção sobre zonas propensas a inundações, já que se constrói em solos “fracos ou com elevados custos ecológicos e financeiros”. Esta lacuna permite expandir, de forma faseada, as cidades para a água.

Outra vantagem é a resiliência face às alterações climáticas e a adaptabilidade às mesmas, uma vez que se
“reduz as falhas e a disrupção futura ao projectar para a realidade da variabilidade da água. O HCPE é particularmente útil neste contexto porque obriga a colocar, desde cedo, uma questão clara: que solução oferece o melhor desempenho a longo prazo para a cidade, e não apenas a resposta mais rápida no curto prazo?”

Uma estrutura flutuante acompanha a variação do nível da água e mantém a funcionalidade durante eventos extremos, eliminando a necessidade de medidas de emergência que são dispendiosas e, muitas vezes, apenas temporárias.

Um exemplo prático é Schoonschip, em Amesterdão, que iremos abordar mais à frente, onde “as bases flutuantes em betão permitem que as habitações acompanhem a variação do nível da água, garantindo resiliência às inundações num território de baixa densidade, como o dos Países Baixos. As casas estão ancoradas através de grandes pilares de amarração e todas as habitações flutuam, no mínimo,
50 centímetros acima do fundo do canal”, explica Marteen Remmers, uma das fundadoras e actual porta-voz.

Além disso, a construção sobre a água pode reduzir a necessidade de aterros, dragagens extensas e fundações profundas, actividades que elevam tanto o custo económico como a pegada carbónica incorporada da obra. Como observa Olthuis, “a construção flutuante pode evitar a reconquista de terrenos, reduzir grandes movimentações de solo e ser concebida como um sistema reversível”. Essa reversibilidade é uma vantagem estratégica, já que fundações robustas e duradouras podem permanecer enquanto as superestruturas são actualizáveis, permitindo melhorias energéticas sem recriar as fundações.

Resiliência, resistência, autonomia e longevidade

Em ambiente aquático, a durabilidade depende tanto da selecção de materiais como, e sobretudo, do pormenor construtivo. “No caso das fundações flutuantes, soluções em betão de longa vida útil são frequentemente a base mais robusta, desde que concebidas para baixa permeabilidade e exposição marinha, com especial cuidado nas juntas e atravessamentos. Para a superestrutura, diversos sistemas funcionam bem, incluindo híbridos de madeira e aço, desde que as ligações e interfaces sejam projectadas para resistir à humidade, aos sais e à radiação UV”. Neste contexto, esta abordagem permite projectar infraestruturas com vida útil de referência mínima de 50 anos, conforme previsto para edifícios correntes pelo Eurocódigo 2.

Assim, a sustentabilidade e uma construção que permita uma longa vida útil ao edifício demonstra não só preocupação com o meio ambiente, como com os residentes que têm a garantia de viver ou trabalhar num local confortável e duradouro. “Se uma fundação flutuante durar várias décadas e puder receber múltiplos ciclos de actualização das habitações acima, a pegada ao longo do ciclo de vida melhora de forma significativa”. Olthuis acrescenta que “isto é o HCPE em prática: projectar para o desempenho ao longo do tempo.”

O comportamento térmico e higrotérmico de uma habitação flutuante tem dois vectores críticos: o desempenho da envolvente e as propriedades térmicas do meio aquático adjacente. A água tende a atenuar picos térmicos porque “varia a sua temperatura mais lentamente do que o solo”, o que pode reduzir a necessidade de condicionamento activo quando a envolvente é projectada com isolamento, estanquidade e controlo de pontes térmicas rigorosas.

Quanto à humidade, a prioridade técnica é a ventilação controlada com recuperação de calor e camadas de controlo de vapor posicionadas de forma a impedir migração de ar quente e húmido para cavidades frias. Como explica o arquitecto, “a base é a ventilação controlada, normalmente ventilação mecânica equilibrada com recuperação de calor, que mantém a humidade estável enquanto minimiza as perdas energéticas. Quando estes princípios são bem aplicados, uma casa flutuante pode ser tão seca e estável como qualquer habitação terrestre de elevado desempenho.”

No domínio energético, o argumento central é que a tipologia flutuante facilita soluções de partilha e de acoplamento térmico com o meio hídrico, mas a poupança real depende de um pacote técnico integrado: envolventes de alto desempenho, bombas de calor (idealmente com fonte aquática), sistemas de ventilação com recuperação e gestão de energia distribuída através de micro-redes, armazenamento comum e, por vezes, sistemas térmicos partilhados permitem reduzir o consumo total e aumentar a resiliência. “O objectivo mais escalável é aquilo a que chamo ‘autonomia ligada à rede’. Isso significa uma procura líquida muito baixa, gestão eficaz de picos e resiliência através de armazenamento e controlo inteligente, em vez de uma desconexão total da rede”, explica Olthuis.

Schoonschip: o caso prático da comunidade flutuante mais sustentável da Europa

Passando da teoria à prática, falemos da comunidade flutuante de Schoonschip, em Amesterdão. Este bairro, no canal Johan van Hasseltkanaal, foi desenvolvido por uma iniciativa colectiva que agrupa 46 agregados em 30 habitações flutuantes e que foi desenhado para alcançar a máxima eficiência e partilha de recursos.

A ideia surgiu em 2008 com o objectivo de “criar uma comunidade flutuante coesa e ecologicamente sustentável, em resposta à densidade urbana e aos desafios climáticos. A motivação inicial centrou-se na transformação de uma zona industrial de canal num bairro vibrante e de baixo impacte ambiental. O projecto enfatiza a circularidade, a partilha de energia e a coesão social através de um modelo de promoção colectiva privada”, explica Marteen Remmers.

O projecto integra uma micro-rede que, em termos agregados, inclui 516 painéis solares, 30 bombas de calor e 60 painéis solares térmicos, “conectados por uma única ligação à rede eléctrica nacional, permitindo trocas entre vizinhos, o que minimiza a dependência externa e utiliza apenas uma fracção da capacidade de rede que um distrito todo eléctrico típico exigiria”. A abordagem é holística, uma vez que o sistema coordena o armazenamento de excedentes em baterias e acumuladores térmicos, e equilibra a produção e o consumo no bairro.

A sustentabilidade esteve em cima da mesa desde o início do projecto com a utilização de materiais de origem local ou reciclados, “de forma a reduzir emissões associadas ao transporte e alinhar-se com os princípios da economia circular. A maioria dos materiais de isolamento é de origem renovável”, confirma.

Foram também implementadas soluções com o objectivo de alcançar a eficiência energética nas habitações, “como painéis solares associados a baterias domésticas, bombas de calor, sistemas solares térmicos e recuperação de calor das águas dos duches. A micro-rede inteligente optimiza o autoconsumo e o controlo dos equipamentos eléctricos, permitindo uma utilização mais eficiente da energia disponível”. Além disto, ainda foi desenvolvido um sistema GridFriends, que “coordena a energia através de contadores inteligentes que armazenam excedentes em baterias e acumuladores térmicos, enquanto equilibram a produção e o consumo entre as habitações. Os excedentes são armazenados ou comercializados, com o objectivo de alcançar a neutralidade energética ao nível do bairro. A electricidade pode fluir directamente de uma casa para outra, por exemplo dos painéis solares de um residente para a máquina de lavar de um vizinho.”

Os benefícios foram sentidos rapidamente pelos moradores, confirma Marteen: maior independência energética, menor dependência de serviços externos, mobilidade partilhada. “Utilizamos menos água graças ao sistema de saneamento a vácuo e usamos também menos capacidade da rede eléctrica, o que é particularmente relevante nos Países Baixos, onde a escassez de capacidade da rede é actualmente um problema significativo. Criámos ainda jardins flutuantes, procurando gerar mais espaços favoráveis à biodiversidade”.

O ambiente que se vive é também de confraternização, entreajuda e de um verdadeiro espírito comunitário, até porque partilham uma sala comum e espaços exteriores. “Nadamos juntos, convivemos no pontão e tomamos decisões de forma contínua. É um bairro coeso, dinâmico e muito próximo.”

Marteen acredita que além do retorno financeiro, uma vez que se verifica uma “redução de custos resultante da eficiência e da partilha”, também é visível uma “melhoria da qualidade de vida, através de uma rede social forte e uma diminuição da pegada ambiental graças a práticas colectivas sustentáveis.”

Limitações, riscos e exigências de operação

Uma construção aquática tem também as suas limitações e riscos. Koen Olthuis identifica alguns, como
a “exposição ao vento, o envelhecimento acelerado de componentes em ambientes salinos e restrições de área útil para instalação de painéis solares por habitação”. Estes são factores que condicionam desempenho e custos.

Olthuis alerta para estes parâmetros, afirmando que “o vento pode aumentar as perdas térmicas e afectar o conforto percepcionado, os sais e a humidade podem reduzir a vida útil dos componentes se o detalhe for  inadequado”. Por isso, um projecto flutuante de sucesso requer definições rigorosas de especificação de materiais, medidas de protecção anti-corrosão, estratégias de massa e orientação urbanística para reduzir exposição, e planos de manutenção preventiva com inspecções programadas das fundações e amarrações.

A componente normativa e o processo de licenciamento podem alongar prazos, como foi o caso do Schoonschip. Marteen Remmers revela que “os principais obstáculos incluíram um processo burocrático prolongado ao longo de cerca de uma década, nomeadamente, a obtenção de um concurso público em 2013, as aprovações regulamentares para as licenças de construção e para a micro-rede eléctrica experimental, bem como desafios logísticos na construção, como a navegação sob pontes.”

Replicabilidade em Portugal: oportunidades e condicionantes

Portugal enfrentou, com as tempestades consecutivas, mais um período crítico de cheias. Alguns locais foram inundados como há muito não tinham memória, pessoas perderam a sua casa, o seu carro, muitas zonas foram evacuadas por precaução e muitas pessoas ficaram sem saber o que vão encontrar quando conseguirem voltar.

O país mostra-se pouco preparado para enfrentar as consequências do agravamento das alterações climáticas, que demonstra cada vez mais extremos, no Inverno e no Verão. Habitações flutuantes podem ser uma solução para conviver com a água e não deixar que ela se torne num inimigo.

Koen Olthuis considera que Portugal é um país onde podem ser implementadas comunidades aquáticas, “especialmente em águas abrigadas como zonas ribeirinhas, estuários, lagoas e frentes costeiras protegidas”. Deve-se ter em conta vários factores, como as condições de ondulação, correntes e uma escolha de sistemas de amarração e infraestruturas adequadas, “com prioridades climáticas em que o conforto de Verão e o controlo do sobreaquecimento, o sombreamento, a ventilação e o arrefecimento eficiente se tornam centrais.”

É relevante pensar, planear e adaptar as políticas públicas para a replicação destes projectos. Alguns pontos cruciais são os regimes de licenciamento, instrumentos de financiamento e modelos de incentivo que internalizem poupanças operacionais e benefícios de resiliência, salvaguardando sempre o meio ambiente e a zona onde se implementa este tipo de construção. “A lógica subjacente mantém-se: utilizar o urbanismo baseado na água para melhorar o desempenho e a habitabilidade a longo prazo, tendo o HCPE como método para medir, comprovar e escalar esse desempenho de forma responsável.”

A água como um aliado no futuro das cidades

Os edifícios flutuantes envolvem várias características específicas, materiais, ambiente envolvente e condicionantes climáticos, mas representam um conjunto de soluções para problemas concretos, como a escassez de solo, necessidade de resiliência a eventos extremos e oportunidade de redesenhar o consumo energético na comunidade.

A conceção deve partir de metas de desempenho mensuráveis (HCPE), combinação de soluções térmicas acopladas à água e gestão energética partilhada, que podem contribuir para poupanças operacionais relevantes e que beneficiam também os habitantes destas casas a curto e longo prazo.

O caminho para a replicação exige atenção técnica rigorosa, detalhe e adaptação regulatória, mas, quando esses requisitos são cumpridos, a água deixa de ser apenas uma ameaça à construção e passa a integrar-se como uma componente activa de uma cidade mais eficiente, menos invasiva e menos intensiva na utilização de recursos.

Fique também a par de projectos inovadores, onde a construção por cima de água é encarada como o novo passo a dar pela sustentabilidade, diminuição da pegada carbónica, melhoria da qualidade de vida e uma gestão mais inteligente dos recursos.

L’Île Ô – Teatro flutuante em Lyon (França)

O L’Île Ô é um teatro flutuante permanente localizado no rio Rhône, em Lyon. Considerado um dos primeiros grandes espaços culturais flutuantes da Europa, une inovação arquitectónica e vida urbana junto à água.

• Sustentabilidade e materiais: a estrutura usa madeira laminada cruzada (CLT) e outros materiais com menor impacte ambiental para reduzir emissões e integrar estética e funcionalidade;

• Benefícios: revitalização cultural às margens do rio e inclusão social através de programação educativa e artística.

Cidade flutuante das Maldivas

A Cidade Flutuante das Maldivas (Maldives Floating City) é um projecto urbano pioneiro no país, destinado a criar uma cidade habitável (para 10 mil pessoas) sobre água para combater desafios como a subida do nível do mar e falta de espaço em terra. Numa lagoa com 200 hectares a 10 minutos de barco de Malé, capital das Maldivas, o plano prevê uma malha de estruturas flutuantes inspirada em corais que une habitação, comércio e serviços.

• Sustentabilidade e materiais: o conceito inclui design modular e urbano que favorece integração com o ambiente marinho, sistemas de energia renovável, gestão inteligente de água e resíduos e estruturas que promovem crescimento de corais sob as plataformas para apoiar a biodiversidade;

• Benefícios esperados: resposta inovadora às alterações climáticas, criação de habitações resilientes à subida do nível do mar e desenvolvimento urbano sustentável com baixa pegada carbónica.

SeaPod – Casas flutuantes inteligentes

O SeaPod é um conceito de casa flutuante modular desenvolvido para oferecer habitação inteligente directamente sobre o mar. Uma das prioridades foram as frequências electromagnéticas (EMF), emitidas por telemóveis e torres de telecomunicações: “Viver sobre a água reduz naturalmente a exposição à radiação electromagnética típica de zonas urbanas densas, e fomos ainda mais longe ao criar um sistema de casa inteligente de baixa emissão de EMF, para maior tranquilidade”, refere a Ocean Builders.

• Sustentabilidade e materiais: utiliza uma estrutura modular leve, grandes janelas panorâmicas e sistemas inteligentes que optimizam o consumo de água e energia, incluindo tecnologias de reciclagem e gestão inteligente do lar;

• Benefícios esperados: permitir uma vida flutuante mais sustentável e integrada com o ambiente marinho, com câmaras debaixo de água, que permitem uma experiência imersiva.

Fotografia de destaque: © Schoonschip

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