Associação ambientalista ZERO reconhece avanços na descentralização da energia e na reabilitação do edificado, mas alerta que o Plano de Transformação, Recuperação e Resiliência continua preso a soluções tradicionais e pode falhar na resposta à crise climática.
Num parecer detalhado, a ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável aponta fragilidades estruturais ao Plano de Transformação, Recuperação e Resiliência (PTRR), considerando que, apesar de alguns sinais positivos na área da energia e do edificado, o documento não rompe com o paradigma dominante de grandes infraestruturas e modelos centralizados. O plano, apresentado pelo Governo liderado por Luís Montenegro, prevê 22,6 mil milhões de euros em investimentos até 2034.
Energia: centralização ou democratização?
Na área energética, o PTRR prevê investimentos robustos, com cerca de 4 mil milhões de euros para redes eléctricas e de gás, 500 milhões para armazenamento e 100 milhões destinados ao autoconsumo e às comunidades de energia. Embora esta última fatia represente uma parcela reduzida do total, é aqui que a ZERO identifica um dos sinais mais promissores.
A aposta na descentralização, através de Comunidades de Energia Renovável e “ilhas energéticas”, é vista como uma mudança relevante, ao permitir maior autonomia local, envolvimento directo dos cidadãos e redução da dependência de grandes operadores.
Apesar de já existirem alguns projectos em Portugal, permanece a incerteza: os 100 milhões previstos serão suficientes para escalar este modelo e torná-lo estruturante, ou o autoconsumo continuará a desempenhar um papel secundário face às grandes infraestruturas?
Parque edificado: a aposta na eficiência energética
Outro eixo valorizado pela ZERO é o investimento na reabilitação profunda do edificado. A melhoria da eficiência energética dos edifícios é considerada essencial para reduzir emissões, baixar custos energéticos e aumentar a resiliência urbana.
Ainda assim, a associação destaca a ausência de uma estratégia industrial verde articulada. Sem essa integração, alertam, o risco é que as medidas de eficiência energética avancem de forma fragmentada, sem contribuir para uma transformação económica mais ampla.
Noutras áreas de actuação, a ZERO critica a persistência de soluções “cinzentas” no PTRR, apontando a aposta em barragens, transvases e drenagem convencional como exemplos de modelos ultrapassados que ignoram alternativas mais sustentáveis baseadas na natureza.
A associação alerta ainda para o risco de desregulamentação urbanística, considerando que a simplificação dos licenciamentos pode permitir construção em zonas vulneráveis e comprometer salvaguardas ambientais.
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