GEOTA exige aposta na produção descentralizada de energia para maior resiliência do abastecimento de electricidade

Na sequência do apagão geral que deixou dezenas de milhões de pessoas sem acesso a electricidade, o GEOTA – Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente lançou um comunicado no qual reivindica uma resposta estrutural assente na eficiência energética e na produção descentralizada de energia renovável, rejeitando soluções como o regresso ao carvão ou o recurso à energia nuclear. 

A organização não‑governamental relembra que “o sistema eléctrico ibérico já operou inúmeras vezes com percentagens elevadas de energias renováveis sem qualquer constrangimento” e destaca que as importações de electricidade entre Portugal e Espanha são normais no contexto do mercado ibérico. “Nos últimos tempos, Portugal tem tido um saldo importador, [mas] continua a ter capacidade de produção despachável nas centrais termoeléctricas a gás natural e em centrais hidroeléctricas de albufeira, que lhe permite ser auto-suficiente”, lê-se no comunicado. 

O GEOTA considera que a solução não passa “nem pela reabertura das centrais a carvão (na prática, substituídas pelas centrais a gás) nem a energia nuclear (extremamente cara, de construção demorada, com riscos conhecidos, pouco resiliente face a perturbações, e perpetuadora do modelo de rede assente em mega-centrais)”.  

Em alternativa, propõe um conjunto de medidas que reúnem “grande consenso” entre especialistas: reduzir as necessidades através da eficiência energética, “algo inscrito há muito nos planos energéticos nacionais, mas, na realidade, ainda pouco apoiado”; promover a flexibilidade da produção e consumo como parte de uma “moderna rede inteligente”; aumentar a capacidade de armazenamento através de baterias; modernizar as redes de transporte; melhorar os sistemas de alerta e de resposta para estabilização da rede. 

Perante esta situação, o GEOTA reivindica uma maior aposta na eficiência energética, e na produção de energia renovável descentralizada em autoconsumo e comunidades de energia: “Para além de todas as outras vantagens ambientais, sociais e económicas, esta abordagem promove a resiliência e segurança do abastecimento de electricidade em situações de crise”.  

Ainda assim, Miguel Macias Sequeira, vice-presidente do GEOTA e investigador na Universidade NOVA de Lisboa, alerta para um problema: “No modelo actual, a grande maioria dos sistemas fotovoltaicos estão acoplados à rede eléctrica e desligam-se em caso de apagão”. Assim sendo, recomenda que “se pondere a instalação de energia solar com capacidade para operar desconectada da rede eléctrica em algumas localizações críticas para resposta a estes eventos muito raros, mesmo que tal comporte custos superiores”.  

Por fim, a associação considera essencial apurar as causas do apagão e os motivos para a demora na reposição do serviço, sublinhando também a vulnerabilidade das comunicações e outros sistemas críticos. Apesar das fragilidades identificadas, o GEOTA reconhece o empenho das entidades envolvidas: “Louva-se o trabalho dos operadores das redes eléctricas e das autoridades de protecção civil na resolução da crise.” 

Fotografia de destaque: © Shutterstock

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