Este artigo foi originalmente publicado na edição nº 162 da Edifícios e Energia (Novembro/Dezembro 2025).
OS AUTORES
Camila Cervantes e Luís Bragança,
Universidade do Minho, ISISE, ARISE, Departamento de Engenharia Civil, Guimarães, Portugal
Os passaportes digitais estão a revolucionar a construção, tornando cada edifício um repositório vivo de informação e recursos. Mais do que meros registos, são instrumentos de transparência e inovação que abrem caminho para a circularidade, prolongam o valor dos materiais e aproximam o setor da neutralidade carbónica.
INTRODUÇÃO
Impulsionados por metas globais de sustentabilidade, novas normas europeias e a procura crescente pela eficiência na utilização de recursos naturais, os passaportes digitais de materiais e produtos de construção surgem como tecnologia com enorme potencial de transformação. No centro dessa mudança está o compromisso de integrar os princípios da economia circular no ambiente construído, transformando a forma como projetamos, gerimos e reutilizamos o património. Iniciativas colaborativas, como a Ação COST CircularB (https://circularb.eu/) e a Rede Ibero-Americana ECoEICo (https://www.cyted.org/ECOEICO), promovem a ligação entre investigação e prática, acelerando a integração dos passaportes digitais na economia circular do setor da construção.
O QUE É UM PASSAPORTE DIGITAL PARA EDIFÍCIOS?
Um passaporte digital é uma estrutura informatizada que armazena informações técnicas e ambientais sobre todos os componentes de um edifício. Inclui dados sobre a composição dos materiais, eficiência energética, carbono incorporado, uso de água, potencial de reutilização e reciclagem, orientações para desmontagem e registos de manutenção.
Baseia-se na rastreabilidade, atribuindo a cada item uma identidade digital exclusiva desde a produção até à eliminação. Assim, mesmo décadas após a construção, é possível identificar com precisão a armadura de uma viga ou o tratamento aplicado a um revestimento, simplificando manutenção, substituições e reutilização de materiais.
Em Portugal, onde muitos edifícios necessitam de registos completos dos materiais usados, os passaportes digitais oferecem um registo detalhado e acessível em tempo real, apoiando tomadas de decisão para a reabilitação, reduzindo custos operacionais e aumentando a durabilidade dos recursos disponíveis.
ENQUADRAMENTO REGULATÓRIO E CONTEXTO EUROPEU
A União Europeia tem trabalhado ativamente na implementação dos passaportes digitais de materiais e produtos de construção. A revisão do Regulamento sobre Produtos de Construção propõe requisitos obrigatórios de transparência, rastreabilidade e acesso digital às informações técnicas, em linha com o Pacto Ecológico Europeu e as metas de neutralidade carbónica até 2050.
Alinhada com a Estratégia Europeia para a Economia Circular, a Comissão Europeia prevê que, até 2030, os passaportes digitais serão obrigatórios para determinados materiais e produtos, inicialmente em edifícios públicos, grandes obras e projetos com financiamento europeu.
Além de fomentar a circularidade, estes instrumentos melhoram a qualidade e a comparabilidade dos dados ao longo do ciclo de vida, simplificando inspeções, manutenção e desmontagem seletiva. Para Portugal, antecipar estas exigências é uma vantagem estratégica, evitando adaptações tardias e posicionando o país como referência em soluções digitais sustentáveis.
A relevância é ainda maior perante a forte dependência europeia de matérias-primas críticas: cerca de 90% são importadas. A meta para 2030 é que 25% provenham de reciclagem (atualmente 12%), tornando os passaportes digitais essenciais para rastreabilidade, valorização de recursos e redução da dependência de matérias-primas virgens.
FINALIDADES E BENEFÍCIOS DOS PASSAPORTES DIGITAIS
A implementação dos passaportes digitais pretende alcançar três objetivos principais: transparência, circularidade e eficiência.
A transparência decorre do acesso centralizado a dados técnicos e ambientais, permitindo decisões mais informadas, evitando duplicações e reduzindo erros em todas as fases do ciclo de vida. Com informação acessível, projetistas, gestores e autoridades podem tomar decisões com base em evidências.
A circularidade resulta do potencial de recuperação e reciclagem. No fim da vida útil, o passaporte indica não apenas o que pode ser reutilizado, mas também como fazê-lo de forma económica e segura. Desta forma, os edifícios deixam de ser apenas património físico e passam a ser entendidos como verdadeiros bancos de materiais, preparados para fornecer recursos a novas construções.
A eficiência resulta da monitorização de indicadores como carbono incorporado, energia e água, alinhando projetos e operações com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Quando integrados em ferramentas digitais como BIM (Building Information Modeling) ou Gémeos Digitais (Digital Twins), os passaportes digitais permitem prever falhas, otimizar manutenções, reduzir custos e apoiar estratégias de descarbonização de longo prazo.
Os trabalhos da Ação COST CircularB demonstram que a combinação de dados normalizados, metodologias de avaliação comuns e tecnologias avançadas aumenta significativamente o potencial dos passaportes digitais, assegurando rastreabilidade e viabilizando a circularidade dos materiais e sistemas construtivos.
Em síntese, esta ferramenta digital ultrapassa a visão de um ciclo de vida único, permitindo planear múltiplas utilizações e desmontagens futuras, prolongando o valor dos recursos e consolidando a ligação entre sustentabilidade, inovação e competitividade no setor da construção.
COMO É ESTRUTURADO UM PASSAPORTE DIGITAL?
A estrutura de um passaporte digital assenta em quatro dimensões interligadas:
• Técnica: identificação e caracterização dos materiais, incluindo composição, propriedades e cumprimento de normas e certificações;
• Ambiental: indicadores como pegada de carbono, consumo de energia e água, efeitos da poluição e nível de circularidade;
• Operacional: registos de utilização, manutenção preventiva e corretiva, instruções de desmontagem e orientações para reciclagem ou reutilização;
• Digital: formato padronizado e interoperável, compatível com BIM e sistemas de gestão de ativos, permitindo atualizações em tempo real e autenticação de registos.
Em conjunto, estas dimensões convertem o passaporte digital num instrumento estratégico para aumentar a transparência, melhorar a gestão do ciclo de vida e promover práticas construtivas mais sustentáveis e circulares.
DA INFORMAÇÃO À AÇÃO – COMO TRANSFORMAR DADOS EM ESTRATÉGIA
O grande potencial dos passaportes digitais está em transformar dados em ferramentas de gestão e apoio à decisão. Para isso, é essencial garantir padronização e interoperabilidade, permitindo integrar e partilhar informação entre projetistas, construtoras, autoridades e utilizadores.
Normas como a ISO 19650 e o Building SMART Data Dictionary são fundamentais para evitar duplicações e facilitar a colaboração entre atores. As experiências da Ação COST CircularB mostram que interoperabilidade e clareza na comunicação de dados são fatores decisivos para a adoção desta tecnologia.
O apoio institucional também é crucial: políticas públicas, incentivos fiscais e mecanismos de financiamento podem acelerar a implementação, sobretudo em pequenas e médias empresas. Projetos-piloto em edifícios públicos e infraestruturas essenciais validam metodologias, testam soluções digitais e geram confiança no mercado.
Num cenário ideal, os passaportes digitais deixam de ser apenas uma exigência regulatória e tornam-se uma ferramenta estratégica para a sustentabilidade, prolongamento da vida útil, redução de custos de manutenção e integração efetiva da economia circular no setor da construção.
EXEMPLOS E INICIATIVAS DE REFERÊNCIA
A nível europeu, a Ação COST CircularB destaca-se como rede internacional que reúne investigação, indústria e setor público para acelerar a transição para um ambiente construído mais circular. Atua como “laboratório vivo”, desenvolvendo metodologias, promovendo projetos-piloto e harmonizando formatos, indicadores e protocolos.
Nos Países Baixos, o “Madaster” funciona como cadastro de materiais, atribuindo identidade digital a cada componente ao longo do ciclo de vida, simplificando a reutilização e reduzindo desperdícios.
O projeto europeu “Circularise” garante imutabilidade e rastreabilidade da informação, permitindo que fabricantes e gestores partilhem dados de forma segura e em conformidade com requisitos ambientais.
Outros exemplos, como a recolha e recondicionamento de equipamentos eletrónicos, utilização de inteligência artificial para separar metais preciosos, incluindo terras raras, na Bélgica, ou sobre a desmontagem seletiva e a geração de novos produtos de construção, na Dinamarca, mostram como é possível recuperar valor de materiais, minimizar a extração de recursos naturais e reduzir drasticamente o impacte ambiental.
Apesar da diversidade de abordagens, todas estas iniciativas demonstram a importância de ferramentas digitais harmonizadas que assegurem transparência, comparabilidade e fiabilidade ao longo do ciclo de vida dos edifícios.
PRINCIPAIS DESAFIOS PARA A IMPLEMENTAÇÃO
O setor da construção gera cerca de 40% dos resíduos da União Europeia, reforçando a urgência de soluções digitais que transformem resíduos em recursos. Sem rastreabilidade, a desmontagem seletiva continuará limitada e o potencial de recuperação será desperdiçado.
Contudo, os passaportes digitais enfrentam barreiras técnicas, económicas e regulatórias. A ausência de padrões internacionais coerentes dificulta a interoperabilidade, enquanto os custos de implementação (software, integração com BIM/GIS e formação) podem excluir pequenas e médias empresas.
No plano regulatório, a sobreposição de normas (CPR, EPBD, REACH) gera complexidade e linguagem pouco acessível para utilizadores não especializados. Questões de cibersegurança e governança são igualmente críticas, já que os passaportes armazenam dados sensíveis que exigem proteção e autenticação eficaz.
Outros desafios incluem múltiplas definições de circularidade, que favorecem o greenwashing, e a necessidade de integrar o princípio da suficiência, evitando que ganhos circulares sejam anulados por maior consumo de materiais ou por construções desnecessárias.
Por fim, a credibilidade depende de fiscalização eficaz por autoridades competentes. Sem superar estas barreiras, a adoção poderá ser lenta e desigual, reduzindo o impacto esperado na sustentabilidade e na transição verde e digital.
O FUTURO – EDIFÍCIOS COMO BANCOS DE MATERIAIS
Num cenário ideal, os edifícios deixam de ser apenas conjuntos de elementos e passam a ser reservas estratégicas de recursos. Os passaportes digitais tornam este conceito viável ao disponibilizar inventários atualizados de materiais, componentes e registos de uso.
No fim da vida útil, a desmontagem seletiva substitui processos destrutivos, possibilitando a reutilização direta ou reciclagem de alta qualidade. Esta lógica abre espaço a novos modelos de negócio, como serviços especializados de inventário, plataformas digitais de certificação e mercados online para comercialização de materiais recuperados.
O impacte é duplo: ambiental, ao reduzir matérias-primas virgens e emissões de dióxido de carbono (CO2); económico, ao criar cadeias de valor, empregos especializados e maior resiliência do setor face à volatilidade dos preços.
A transição exige também uma mudança de mentalidade na arquitetura e engenharia, integrando princípios de urban mining e projetando edifícios preparados para desmontagem futura. Tecnologias como BIM, IoT e Gémeos Digitais permitem atualizar automaticamente o “valor material” de cada edifício, consolidando-os como bancos de materiais estratégicos para a neutralidade carbónica até 2050.
COLABORAÇÃO COM A AÇÃO COST CIRCULARB E A REDE IBERO-AMERICANA ECOEICO
A concretização da visão dos passaportes digitais requer, além de avanços tecnológicos, cooperação entre setores e iniciativas internacionais. Parte deste trabalho é desenvolvida em colaboração com a Ação COST CircularB e a Rede Ibero-Americana ECoEICo, que integram investigadores, indústria e entidades públicas para acelerar a transição para um ambiente construído mais circular e sustentável.
Esta colaboração permite integrar metodologias e resultados validados em diversos países, promovendo a harmonização de formatos, indicadores e protocolos. As redes funcionam também como espaços de partilha de experiências sobre regulamentação, demonstração de práticas inovadoras através de casos de estudo e articulação entre investigação académica e aplicação prática no setor.
Ao trazer para Portugal e para o espaço Ibero-Americano boas práticas consolidadas, esta colaboração fortalece a capacidade de antecipar tendências, preparar o mercado para as atuais e futuras exigências regulamentares da União Europeia e posicionar a indústria da construção como referência na adoção de soluções digitais e circulares.
As conclusões expressas são da responsabilidade dos autores.
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