Estamos a ser inundados por informação sobre a guerra, sobre as possibilidades que temos de recuperação e autonomia em matéria de energia e as novidades e incertezas surgem a cada dia. Na altura em que escrevo esta nota, a Rússia tinha acabado de interromper a entrega de gás natural à Polónia e Bulgária. Na semana que se segue, a ministra francesa da Energia reúne-se com os seus homólogos para afinar estratégias. Uma sessão extraordinária do Conselho dos ministros da Energia europeus. Em causa, a falta de pagamento em rublos por parte daqueles dois países e uma chantagem da Rússia, que impõe um novo mecanismo de pagamento como retaliação às sanções de que está a ser alvo.

Estamos em guerra e esta é a nova guerra. Uma guerra económica não assumida e um faz de conta permanente. “Não se trata de chantagem (…) Somos categoricamente contra essa declaração”, diz o porta-voz da presidência russa. Estamos em guerra e esta é uma guerra nova onde a informação é difusa, manipulada e em nada transparente. Há como que vários mundos paralelos que vão alimentando diferentes histórias com as mesmas personagens. As vítimas passam rapidamente a agressoras e vice-versa. Tudo depende do narrador.

Vivemos há décadas a tentar construir um caminho comum na Europa. No meio de todas as nossas diferenças como países, a obra não está acabada. Uma história que me transporta para o mito bíblico da Torre de Babel, na qual a torre alcançaria o céu. No mito da Torre de Babel, Deus criou a confusão entre as pessoas e a humanidade com o aparecimento de várias linguagens diferentes. As pessoas não se entendiam e a construção da torre não se realizou.

O projecto europeu continua a ser a nossa aventura e a nossa conquista, mas nunca nos entendemos verdadeiramente e, por isso, ainda estamos em fase de construção. Diferentes interesses económicos, culturas e linguagem atrasam sucessivamente qualquer realização mais ambiciosa. Os mais fracos continuam na base e há quem resuma a União Europeia a uma comunidade de valores. O “diálogo com os cidadãos pela democracia” define o âmbito das políticas e a melhoria de vida dos cidadãos europeus é o mote de qualquer estratégia europeia. Tem sido assim? Temos conseguido compreender-nos uns aos outros? Há quem diga que a invasão da Ucrânia veio restabelecer parte dessa comunicação que faltava e a mudança radical na política de defesa alemã está a consolidar esse caminho. Incrível a reviravolta alemã depois de anos a confiar e sem procurar alternativas. Podemos estar num bom momento enquanto coesão europeia. Estamos a falar a mesma linguagem e os argumentos são comuns: a segurança energética. Mas é fundamental que a Alemanha dê o último passo e acabe com “a esquizofrenia de dar dinheiro à Ucrânia com uma mão e pagar gás natural à Rússia com a outra mão”, como dizia Paulo Portas recentemente.

Neste contexto de alinhamento, estamos num momento decisivo e completamente novo. A Europa terá de ser independente energeticamente numa escala muito superior à actual e a sua segurança económica depende disso. É por isso que já foi posta de lado a ideia da desaceleração do nosso caminho para a sustentabilidade.

E esta é uma excelente notícia para todos. Vai ser preciso dinheiro, mais dinheiro, e boas estratégias que entendam que as respostas são de curto prazo. As renováveis poderão não ser suficientes tão cedo, mas essa independência passa necessariamente pela descarbonização dos edifícios, pela electrificação e, sobretudo, pela descentralização energética. Produzir localmente nunca fez tanto sentido como agora. O novo regime jurídico sobre o autoconsumo é de 2019 e a ERSE aprovou, agora, finalmente, as condições contratuais para o uso da rede pública. Será que é desta?

Nota de abertura originalmente publicada na edição nº141 da Edifícios e Energia (Maio/Junho 2022). Assine já!

As opiniões expressas são da responsabilidade dos autores.